com os agradecimentos a Gílson Rampazzo,
que me ofereceu mais este argumento
1: um homem mais homem que homem
– Nem. Você me pergunta isso; fosse simples. Na verdade, seja. Diabo que a verdade sempre diminui no que se crê. Mas você conhece esse troço do que é real muito mais do que eu. Muito mais que um reles lixeiro. Lixeiro reles, declarei? Costume de superadjetivar tudo, culpa do meu ofício. Hein? Os fogos lá fora? Não ligue pra essas explosões. Não chegam até nós. Não se fale disso: vou te contar agora desses estouros a centelha. A dinamite que inventou essa tempestade ao redor. Confie, eu sei de tudo. Confie: não há o que temer, isso lá fora não nos atinge, fique certa.
Contava: eu, como o que sou, ainda que no atual não exercendo, como você bem sabe – liso lixeiro, sinistro zero –, minha árvore genealógica não se enraíza no natural, o que, contrariando seu parecer, me gosta, posto que me livra. Compare meu fazer ao de qualquer animal: mais fácil uma galinha botar um cubo mágico. Nem foi mais longe gambá, hiena, urubu – ou mais perto – no mundo do imundo. Também você, embora de diverso jeito. O que tenho pra contar, acho, faz espantos e cria nojos, e desde já me menciono em desculpa se ofender – é que sem querer a gente pisa na casca de banana. Portanto. Crie na sua testa um animal humano, legítimo, um homem mais homem que homem: logrará o lixeiro, o catador, o faxina, o gari. Resolvesse o homem brincar de deus inventando um golem à imagem e semelhança, em vez de ariano boneco em ficção científica o demiurgo fabricaria um lixeiro. Assim, pois, adão de mim, é que me insto em sua imaginação: bem-vinda ao mundo em que audaciosamente ninguém esteve.
Para começo, entenda que esse mundo é distintivo em famílias, gêneros e espécies. E o que você tem vis-à-vis é realmente uma avis rara. Viu? Rapidinho de reles a raro. Intuo ser indivíduo único – pode intentar como seriam meus descendentes? Tripas pra tanto ninguém teria. Pois nosso grotão é todo ele mais grotesco. Desse mangue conheço do primeiro vírus à última hemácia. Não é qualquer um que se chama Nuido.
2: a coisa coisada
Mas desviamo-nos do assunto; mania de lixeiros, dispersos sempre em meio a detritos. Se deixe o biológico de lado. Nós lixeiros somos gregários animais. Pelas ruas das grandes cidades, de manhã, de dia, de tarde, de noite, de madrugada, andando, correndo, jogando, catando, gritando fosforescentes nossos uniformes para nos diferenciarmos do redor – planta, carro, rua, gente, nada nos combina –, à volta da nave-mãe, o Caminhão de Lixo, que barulhenta e geringonçamente vai redeslizando alesmada seu rastro gósmeo, pelo asfalto, grande caracol tarugo invertido no tempo, dois passos à frente um atrás, acostumado, rotineiro ruminando as porcarias, entulhos, restos que lhe atiramos – o que, os técnicos preferem, chama-se processar o lixo – até voltarmos ao fim de tudo, o Depósito de Lixo, Aterro Público, o Outro Mundo das coisas matérias, agarrados pensos nas bordas e corrimãos fétidos do caminhão, suados, encrespos, fedidos à potência de origem. Mesmo que muitos de nós trabalhem de dia ou madrugada, a maioria funciona noturna. Somos assim na decorrência, como aliás tudo em nós: é que de noite o caminhão de lixo em seu lento arrastar e a bagunça dos lixeiros desatrapalham as pessoas comuns, diárias. É um trabalho sujo, mas alguém tem que fazer. Mas melhor não incomodar.
Você até pode deferir: é o trabalho que nos define. Certo, em partes. Que seja o sonho de alguém ser lixeiro quando crescer não é justo: a maioria de nós encara o trabalho tão-só um serviço – não como a profissão que é. Todos afirmam esta circunstância muito da passageira, um dia vão sair para outra melhor, não seja a morte quem sabe motorista de rabecão, fiscal de trânsito, garçom. Tem idéia de que são ex-detentos muitos colegas? Aqui aportam os desajustados: agora tenho um emprego – dizem. Ter um emprego – deixar de coisa para o estágio de coisa insignificante. Assim, de novo adjetivo o demais: o lixeiro é a coisa coisada.
Se o homem é o único animal da realidade modelador, o lixeiro é o único animal humano que domina sobre as últimas do real: as coisas que vão ser jogadas fora. Como uma espécie de coveiros, ou padres que vêm dar às coisas sua extrema-unção. E já que esbarramos neste assunto, me permita falar dele – tudo bem, já vou chegar no meu propriamente-dito, todo esse preparo é sim necessário. Mas: agora: pense, pense no lixo. Tudo aquilo que é inútil, não-aproveitável, indesejável, malvisto, feio, gasto, usado, fedido, medonhento, repugnante, asqueroso, podre, barato, mísero, imprestável, invendável, lamentoso, sujo, nojento, fora-de-moda, brega, amorfo, estragado, doente, velho, irritante, consumido, escartável, passado, pobre: tudo aquilo que é quase nada, uma materialidade reduzida ao estado de coisa, nenhuma consciência, necas de pitibiriba transcendente. Esta é a matéria de nossos dias, de nossas noites. É esta visão que preenche nossos olhos, é seu cheiro que afunda em nossas fossas nasais, de seu consistir cresta-se nossas mãos, a quietude plena de seus barulhos adormecidos se aconchega em nossas orelhas, e, muita vez, é com seu gosto que brinca nossa língua, nossas papilas – de nossa boca o céu.
O lixo. Sua majestade adversamente una. Se o lixo diz do muito que é feita sua civilização, o labor do lixeiro tem tudo a declarar da consciência. Pois o fim de todos nós é o meio do lixeiro. Essa é a história de um homem que viveu intensamente a experiência de ser na mais profunda escória.
3: caraminholar
Porém, de nada desse meu discurso eu tinha consciência quando fui tentar preencher a vaga de lixeiro. E fui na cata desse trampo justamente pra limpar minha barra – veja você. Essa época eu estava numas de avião dum pessoal da Vila Brasilândia. Só leva-e-traz, pé de chinelo que era, sempre no demais bunda-mole, office-boy de traficante, entregava a farinha pra playboyzada dos Jardins. Uma noite, um frio do cacete – a senhora me desculpe a expressão, eu tenho esses arrotos –, estava sentado num boteco da Prainha, na avenida Paulista, tomando um chope, esperando o otário. Distraído infeliz, pensando na palavra caraminholar.
Gosto muito do som dessa palavra. E também de paralelepípedo e antiinconstitucionalissimamente: uma vez na escola me disseram que essa era a maior palavra da língua, e eu imaginei-me como um trem de letras na ferrovia da boca, uma avenida de sons; de noite dispunha de sonhos com a palavra aos deslizes pelo meu corpo, mãos, línguas, pêlos de afagos, passeando pelo meio de minhas pernas, antiinconstitucionalissimamente uma serpente me enroscava e me acordava, suado só no barro do barraco – e uma vez era mesmo uma cobra que por ali esmara subindo pelo meu colchão, dessas cobras d’água que nos córregos nadam, uma branca cobrinha rajada de marrom.
Não, não precisa ficar com nojo; é algo que você simples pega e pela janela joga. Na vida as coisas são um pouco assim: você pega e atira. Não é como as pessoas fazem com as bitucas dos cigarros atiradas pelo vidro dos carrões, os cuspidos do ônibus, os funcionários desfuncionais, os amores mornos, as cartas fora do baralho? Mas tem o seguinte – essas coisas voltam. Ou você acha que o lixo desaparece no ar? Nada se perde, tudo se recicla. A vida é um bumerangue. E quando vem o retorno, se precisa estar atento. Porque o sobretudo nas viagens, o principal, se sabe desde que o mundo é imundo, a ida não é, a vinda sim. E o que te conto é uma história de voltas.
Nisso cogitava a noite aquela no boteco – Prainha, Paulista, São Paulo –, o chope frio no meio da garoa fria, no aguardo do mauricinho. Lhe entregaria a pacoteira de pó, a pacoteira que pegava fogo toda vez que visse um camburão, um uniforme, um quepe. Sempre fui um bundolino. Esse medo não medro confessar. O cagaço me cortava dos dois lados, feito gilete na manteiga, me criava sangue de gelatina, perfazia-me barata vassourada. Temia aquém meus manos – principalmente o Pereba – me manifestar desesquematizado.
Pereba. Medo. Paúra do Pereba. De cortar prego, manja? De trancar o fiofó. E eu ali, sem um açúcar, pensando na palavra caraminholar enquanto desfilava o olhos pelas pernas das meninas, pra lá, pra cá, pra lá, pra cá. Chope frio, noite fria. Gostava de observar as dessemelhanças de formas e volumes – no na frente, no embaixo delas. Acompanhava – lembro, como se hoje – uma ruiva garota, que era, sabe, bem gorduchinha, ali nela, ao quando notei a torre da rádio Jovem Pan, a previsória, que no que o tempo de estar claro acende os neons verdes e no que fechará acende os vermelhos. Nessa noite fria garoenta – termo que lembra agourento –, a torre avermelhada torre. Interpretei um sinal, tipo assim. Sempre fui de mendigar besteiras do pensamento, a mente um cofrinho de vinténs sem destino. E foi pelo fato da antena arruivar-se que eu – solene sóbrio – depositei lento, cinematográfico, bíblico, a pacoteira de farinha e umas moedas últimas na mesa. E caí fora daquela vida. Mal sabia – da panela pro fogo.
4: vento e sol ao mesmo tempo na garoa da noite
Porra! Falando em fogo – esse passou perto, hein? Calma, não chegam aqui. Sério. Seguindo: nessa época devia de ter uns dezoito anos e já era assim grande feito você me vê, o pessoal da Brasilândia até incentivava-me a ser jogador de basquete. Olha só – acabei trocando as cestas das quadras pelas cestas de lixo. Como alego: era alto, e alto estava acima dos colarinhos das pessoas e dos chopes e mais ainda, pela decisão tomada – resoluto fui atrás da mina de sexo gorducho ruivo.
Nunca tinha andado com mulher nenhuma, de todo, solo; declarado bundão, não? – mas a noite aquela era capaz de todas as sagacidades. Fui na seqüência da menina pela Paulista, de longe, o tropico rebolado de suas carnes duras na calça rubra, dessas que levam um nome bacana na nádega direita, um pé na calçada outro no meio-fio. Não sabia, porém, falar o quê com. Vergonha tamanha. Aí que ela parou numa parada de ônibus. Ali também colei. Encarando. Grandes caras – a miséria no meu rosto devia ser uma babaqüera só, fidalgo de favela, conquistador abaixo de custo. Aí, o e-daí: a tal me sorriu, sorriso mole de borracha.
Ah. Quantos sorrisos não devem ter determinado as mais diversas sortes! Quem podia crer que naquele sorriso nascia um lixeiro? Não um: o – e tudo o depois, até agora? Ninguém nem eu, você menos. Veio dali um sorrir meu, e um papo meio besta, aranha, blablado, divagado vagarento que nem lembro mais, mas, você sabe, duas pessoas se encontrando não importa as devidas estaturas em sociedade – querem trepar, procuram a primeira árvore –, lero nos mesmos meio-fios de sempre; mais complexas ou mais róseas, o tom igual. E ela bebinha facilitava a conversinha mole. Pois nosso papear era do tipo pires, e nem precisava mais: ela de mim tava a fim. Me colheu. São sempre as mulheres as optadoras, eu não ou tenha atrás ido: ponto final. A senhora sabe.
Saímos do ponto de ônibus já se os passos enroscando esparsos, paramos de novo, agora frente ao Masp – sentamo-nos à beira do vão-livre. Pouco tempo custou para soar o primeiro round e nos embutirmos simultâneos em luta de dentes, línguas e beiços – isso mesmo, de beijos longe, do desespero perto, uma briga de foice no escuro. Sei lá o que a gente queria. As mãos feito cobras. Aquele cheiro de terra molhada. Escuro, garoa – vizinho, ninguém. Ali se curva um mato, sei lá que nome tinha. Mato pra mim é tudo igual – verde sobre o cinza: de cinzas sim, consigo compreensão, detalhes, nuances. E eu alto, altorreão, vermelho. Puxei no chego a ruiva. Falei: vamos? Mais cor na cara subiu nela, começando – é que… sabe… – É que o quê? – É que estou naqueles dias… – Como assim, que dias são esses, dias de não, impedidos? – Pro lado ela olhava – assim, de menstruação… Arrevesada, de completo.
Aí eu pesquei – o peixe das defendidas mulheres. Não tinha imaginado uma coisa dessa ocorrendo comigo; mas inclusive não tinha no lugar nada imaginado: e me sentia tão confiante que não via erro na situação. Tudo bem, na boa, falei, sem pobremas, a gente assim mesmo, beleza. Certo? Pela ordem! Riu-se ela, sua boca toda menina ruiva, dentes rubros, saliva ruça. Mas um céu da boca meio melancólico, de outono mesmo – rica menina buscando um pau solitário – ops, desculpe. Vento e sol ao mesmo tempo na garoa da noite. Um frio puto, despernado, mas, de saia, ela cooperou nos movimentos. E meias desceram. Bom. Foi. Foi bom. Foi. Foi a primeira vez. Eu não quero que você de um jeito precipite-se sobre os narrados. Nada de errado; pudor só tenho por particular. Como eu digo – tudo muito, muito bom. E só. Mais, não abro. Não me lembro bem muito o se que passou a noite aquela. As maravilhas da vida não são comida de que se guarda receita.
5: absorvente íntimo
Isso mesmo. Não pudorizo o conto por ter respeito ao nariz da senhora, não – minha memória vive negra desses brancos, feito pano de chão usado esgarçado em demasia. É que quando você se continua em longos períodos exercendo um fazer como o de lixeiro você empastela tudo de parafusos e engrenagens, nunca que vê a máquina inteira. Minha memória é esse retrato borrado. Bem. Fato é: acordei atrás de um arbusto desses de jardim com florinhas vermelhas e espinhos que esporram veneno, detrás do Masp, acima da 9 de Julho, enregelado com a calça meio aberta e o sol no coco – estranha mixórdia mal-temperada de sensações. Ela fora embora. Não, porém, despertei com o clarão do céu. Foi com o cheiro.
O cheiro crescendo dentro das narinas, feito uma caranguejeira peluda andada lenta, melados salgados doces pêlos. A caranguejeira suave ia e mole caminhando pelos meus pêlos do nariz, as fossas nasais subindo, seus passos sem nenhum som sussurrar, só ali e aqui pinicando agulhinhas pretas, macias maçãs-do-amor. Devagar, então, a caranguejeira aranha pisou forte-paquiderme, meio que a oitocar suas pernas compridando feito torre horizontal, oitorta, cada duas de vez: aí, a toque-toque na porta da minha caveira, ante-miolo, garrou firme suas presas na maçaneta – e meus olhos inventaram alhos e esbugalhos. E o que eu enxergava semelhava um pedaço de algodão meio cilíndrico meio amassado, com um fiozinho na ponta, manchas partes marrons, partes vermelhas. Um tempo de permanência imóvel, após depois de após, fiquei tentando entender seu tanto de senso. Dali vinha o cheiro – a aranha caranguejeira passeando dentro da minha cabeça.
Assim frente a frente com esse absorvente íntimo, logo vi ser da ruiva: ela referiu o mênstruo. Absorvente íntimo. Simplesmente linda essa conjunção de palavras; a senhora não acha? Fosse um ímã, um buraco negro na pessoa dentro, tudo sugando, auto-aspirador, cobra que engole o próprio rabo. Ao que se me avizinhei das coisas acontecidas, mais lúcido senti o drama que era ficar nessa de mendigo, dormindo no meio do jardim. Não dava. Que se picasse a mula. A começar por me vestir. Puxei as calças e já me subia a cueca quando vi meu pau, vermelho de todo, a suar rosas ocres nele todo. Horizontal torre. Engraçado, não é, mas não deixei de me orgulhar o meu pouco: as meninas, acho, devem de ter seu quinhão de arrogância quando dão a primeira vez.
6: inícios
Já pegava o caminho de casa no que, espontâneo, sacando o absorvente desiludido ali no chão, em gesto sem porquês, o peguei e o guardei em minha pochete, que usava à volta da cintura. Assim, cá fora do jardim, tranqüilo, feliz como um santo do pau cheio, um tanto mais aquecido pelo sol do meio-dia pino. No coração pulava uma criança de um domingo banguela. Fui descendo a Nove de Julho, pelo Bexiga, notando muito aqueles prédios feios, velhos, sujos, de cinza, de poluição, até parece que se fecha ali o céu. Narram mesmo os antigos que no rededor do edifício Joelma, perto da praça das Bandeiras – onde aliás só tem ponto de ônibus e bandeira nenhuma –, existe um campo de força negativa, pra baixo, o pior mais malévolo da cidade; ali redemoinho gira inverso no ralo dos banheiros, diferente de toda a cidade: é onde houve o incêndio que matou oitentas pessoas.
Ou não, coincidência: pregado num poste sujo perto da Câmara dos Vereadores, nas proximidades, vi um cartaz que propagandeava a Empresa, firma idônea de expressão nacional, a recrutar rapazes com o primário completo buscando um salário X, com disposição e dinamismo e ainda mais o belo propósito de importância social que é trabalhar na coleta e processamento sanitário. O salário era evidente uma merda, à altura ou seja, mas fiz rápido as contas: dava pra pular do barracão da Brasilândia e a companhia de vovó Aparecida pro aluguel de um quartinho ou uma cama numa pensão, sobrando quem sabe prumas biritas, ou pra tocar um puteiro, um pagode, um cabaré. Não eram os píncaros da glória mas também não eram os quintos dos infernos. Afinal, só pensava em sair fora do esquemão dos malacos do Pereba, descolar um trampo e me dar bem, viver um qualquer início.
Inícios. Idiota eu era. Fazer o quê. Meia hora depois já eu no depto pessoal da Empresa coletora de lixo, um número suado na mão e cercado de fedidos e fodidos por todos os lados. Duas horas mais veio a minha hora e vez, a minha entrevista, o meu perfil. Todos os documentos em ordem, conjunturei minha pobre situação de arrimar família. Meus braços eram fortes, dele saltavam veias como fios elétricos, meu pescoço era um tronco de poste, minha cara era de fome – e, pra melhorar o pior, meu nome era Nuido da Silva. Já visse? Um saudável suburbano, um descidadão disposto a nada, no geral. Ganhei uma vaga. Virei lixeiro. Simples assim. O depois é que são eu, tu, ele, nós, vós, eles e elas – principalmente elas.
7: sou o invisível
Acho que é melhor fechar as cortinas. Sim, é melhor sim; assim não se ouve tanto os barulhos. É chato, não é? Ficarmos aqui, como cordiais pessoas, conversando, em paz, e lá fora esses gritos, esses estragos, essas detonações. Mas não, fique tranqüila. Eles não vão chegar aqui; não nos acharão. Estamos seguros. Certeza, certeza. A polícia? Ora o que sabe a polícia? Nunca soube de nada, sempre prendeu quem nunca culpa teve. Se acalme. Nós aqui, a meada é nossa. Escute: não nos acharão.
Antes que avance aos fatos logo após ter tomado a segunda decisão mais importante da minha vida, me deixe relacioná-la com a primeira. Como no anunciado, eu perfazia o meio-campo entre os malacos velhos da Brasilândia e os maurícios dos Jardins. Isso quer dizer que os caras botavam a maior fé no meu taco. Significa ainda que eles nunca que iam triscar eu dar pra trás: só nego muito maluco e ponta-firme pra desenrolar um troço desse. Como dizia o Pereba pra mim, nos meus começos: nós é teu truta; truta fortíssimo: mas, no que tu marca com nós, te acho nem que seja pela tua catinga e te acabo com tua raça, faço do teu coco um depósito de azeitona. Palavra de homem racha, mas não volta diferente. E o Pereba não habituava bater palma pra louco não: o sujeito deu uma de malandro pra cima, dançou. Miudinho.
Por exemplo. Foi uma vez o Bagulhinho, um mané chegado num fumo, ser catado e recatado pelos home. O figura, chaparral de maconha, espremido, tido e havido como judas em sábado de pau-de-arara, deu o serviço. Zoou. Que era o Pereba o avalista da mercadoria. Que era o Pereba o contato com uns cabras que traziam a mardita lá de Serra Talhada, Pernambuco. Que todos doidos de São Paulo já puxaram o fumo do Pereba. Por um fio de cabelo o Pereba não rodou bonito; pegaram só o mano dele e uns lóqui que zanzavam pelas bocadas da Vila. E mais nada. Um mês e nada. Dois meses e nada. Parecia até que o Pereba tinha sumido de uma vez, ninguém sabia loisa nenhuma dele. Demorou: um dia janelou-se a cabeça do Bagulhinho, em cima de um orelhão comunitário da Vila – só a cabeça, a língua cortada pelo meio e o olhão aberto. Detalhe: desorelhado, dois buracões de cada lado. Deu até no Notícias Populares, primeira página e o cacete – o fim do boca-mole. Nunca que botaram a mão num fio de cabelo do Pereba. Ele é isso. Fora esse tanto, tem uma lábia legal, jeito de gente boa, curte salão, quadra, Corinthians e não entra em briga nem que você chame ele de viado. Mas vai tirar uma onda com ele, zoar ele na pilantragem, vai aprontar uma trairagem com ele. Me desculpe a gíria: ele te fode. E o que eu tinha aprontado, de certa forma, era desleal – entregar a bola pro zagueiro do outro time. O ruim é que eu sabia demais do esquema, e não via muito jeito em sair fora. E foi desembestado que escapei.
E aí, o lance que ele me declarou faz outro senso: não era à toa escolher ser lixeiro: ia cavar tanto latrina que o Pereba não me achava mais pelo faro; ia, na justa, acabar esquecendo desse pobre que vos fala. Raciocínio símio, né, fazer o quê, é o que girava na minha idéia. Desse modo, não podia nem pensar em voltar pra Vila catar minhas coisas, minhas roupas, dar um beijo na vovó, despedir dos camaradas. Tinha sumido do mundo. Engolido num cano. E ó, que isso nunca que me perturbou: só deu mais gosto naquela coisa de libertação, que eu falei, de ser lixeiro. Porque comigo os troços não se passam muito diretamente, na clara do ovo. Tenho uma máscara, uma parede sem cor que me aparta dos outros objetos, como se nada comigo ocorresse. Até minha cara é isso – tirando o fato de eu ser vermelho, conhece algum mais comum? Que nem eu tem trocentos. Nada me pega. Sou o invisível.
8: um jogo de marionetes pode ser bem o contrário
Pelo menos, ou, era isso que acreditava, dormindo cada dia numa parada diferente, até catar o primeiro salário e conseguir descolar um quarto num moquifo escondido onde só vivia uma viúva. Nesse primeiro mês passei fome, passei sede, não via água a não ser da chuva, nem sei como não peguei doença – a turma me tirava legal, me garravam falando opa sobrou um lixo aqui, tão nojento eu tava. Pra sobreviver nisso só tendo essa minha casca, que nem de tartaruga ou caracol. Eu era um caramujo de cara mijada. E fazia o que se faz – caraminholar, tempo todo.
Caraminholar é uma palavra que distingui com minha vó e que pra mim diz mais que só pensar. Porque ela usava essa palavra quando me pegava espiando os outros moleques empinarem suas pipas; do que fazer a minha própria, em vez, xeretava as dos outros. A dança dos brinquedos no céu, a briga pelo espaço nas linhas lambidas de cerol – aquele óleo de vidro, que se usa de sacanagem pra cortar as linhas lisas, trazendo o papagaio pro léu –, a procura pelas alturas onde é mais o vento, pra pipa sustentar, as cores diversas, formatos e outros tamanhos, as caudas, e a luta dos moleques no chão. Tinha dias que o céu da Brasilândia se semeava de uma colcha de retalhos multitimbrados, consteliforme, pluricoral de retângulos, hexágonos, quadrados, redondos, asa-deltas, águias, periquitos, gaviões, tico-ticos, anus, pombas, morcegos, assum-pretos.
E aqui embaixo os gritos da molecada correndo atrás das pandorgas, também na terra disputando o aéreo território, enrolando e desenrolando a linha das latinhas a rebrilhar a luz do sol, e aí os quebra-paus quando a outra linha se desentrelaçava na uma, cortando o fio do oponente e puxando o erradio brinquedo de volta para a terra, a terra enlameada e suja, não sem antes fazer um milhão de parafusos cegos, roscas e torneios velocíssimos pelos meandros do céu, até cair, cair, e então ser disputado pelo seu dono junto dos outros meninos quando aí sim o pau comia de verdade, grosso e de tirar sangue e dente, no final nem sobrando pipa desse enrosco, a seda pisoteada na lama, o barbante encrespado nos telhados de zinco dos barracos e as franjas da cauda em frangalhos nadando feito cobra no córrego, até afundar, soçobrando o jogo.
Cumpria tudo isso nos longes, às vezes só sentado rente a uma pedra, e me ilustrava que, no contrário do aparente, os donos é que falavam por seus papagaios, os quadrados no céu manipulando os seres da terra, eles é que eram os brinquedos dos brinquedos aqui no chão, sua briga no céu provocando a luta embaixo, os meninos sim seus fantoches. Principalmente depois que eu descobri, você deve saber disso, que os traficantes, traficantes como o Pereba, usavam os moleques pra que eles avisassem no que chegava a polícia na favela e o método era empinar certos papagaios, cada pipa de cor determinada que subia era uma boca de fumo ou pó que sumia, a polícia fechava na área e ninguém de nada sabia, e era aquele deus-nos-acuda se não tivesse vento.
Pensava nessas coisas e aí minha vó geralmente chegava raquitinhando a voz: – então filho, caraminholando de novo? Pra mim se inicia esse termo nisso: ficar pensando mas pensando em coisa inútil que não se aproveite, e por causa disso mesmo, por causa da sua cabeça ser uma draga que processa lixo, esse pensamento é só teu: já que não vale nada, ninguém quer ele, e isso faz de tu uma pessoa muito mais poderosa e livre porque você tem o direito total de mentalizar a bosta que querer – ainda mais quando a tua vó te questiona isso carinhando macio a tua cabeça, e tua cabeça tá percebendo justamente como um jogo de marionetes pode ser bem o contrário.
9: um céu só seu
Caraminholar, assim, é o livre trabalho de empinar o céu nas pipas – e era o único que eu fazia, no quarto que tinha conseguido alugar por uma merreca de uma velhinha muito da coroca chamada Genoveva, perto da 9 de Julho, um quartinho minúsculo que ela dizia ter sido de uma sua filha menor que casou com um detetive e saiu fora. Nesse aposento havia só um colchão e um armário. Voltava do trampo e antes de dormir ficava ali, caraminholando uma porrada de troços. Nesse caraminholamento foi que decidi que, diferente dos meninos-fantoches da favela, iria ter um céu só pra mim. Heh. Céu, sei. Olha só o céu que arrumei: nem abrir a janela posso.
Ter um céu só seu é muito mais fácil se você é só um, era o que eu acreditava. Contudo, sozinho era, ao máximo, basto. Não queria amizade com os colegas de trabalho, legais eles embora. Gostava da sensação de chegar, banhar-me frio – já me havia jogado uma água na Garagem, porém sempre um cheiro fica –, chupar uma sopa na cozinha, alta noite estrelada pelo ronco da dona Genoveva, subir no quarto, passar a chave a seco, me peladear, o corpo todo dores – e aí, caraminholar. Vez em quando caíam meus botões na lembrança da vó, dos manos velhos, e dele, o Pereba, e dela, a menina do Masp. Sem saudade, longe, só que. Numa dessas noites – bastante depois de ter me empregado –, recordei o que tinha feito. Não, na verdade vos digo, não lembrei: sonhei, que é outra forma de rememorar – sonhei com o cheiro aquele. O cheiro da caranguejeira. E acordei pra dentro de um susto viscoso.
10: centro do fim do mundo de tudo
Só então veio o fato do meu souvenir guardado. Abri a velha pochete, abri o zíper menor, de dentro: estava lá. O tal absorvente íntimo. Cuidoso, peguei, cheguei junto do nariz – não precisa caretear esses nojos; você já deve ter escutado horrendos piores! –, coloquei nas narinas, respirei fundo. Mas o cheiro, como eu tinha fincado na cabeça, não existia mais. Tinha um algo que lembrava à distância, uma coisa meia sabida a terra, e até com suor, não suor fresco, todavia; era um olor de roupa usada guardada em armário sem naftalina: e ainda por cima, de permanecer demasiada na pochete, pegou amor ao odor de nylon, de plástico, de borracha, uma mistura meio abafada e escura. Era um cheiro maturo, escurecido marrom-acinzentado – feito uma nuvem carregada.
Uma nuvem de final de tarde, de véspera épica tempestade, no todo do céu. Figure uma nuvem deste pelame, tão grande como a profecia do fim, tão enorme que parece o dia do juízo, alargando-se nas quatro direções, aproximando-se próxima com um arredondado som oceano, gordo-grávida batendo em seu estômago como uma feijoada inteira, tendo todos bumbos de um samba-enredo por sobremesa: imagine o tremor, a sensação, o tesão que isso eriça em sua pele; mas que ao mesmo tempo pareça um ventilador subindo pelas tuas tripas até tua goela, tua língua virando uma flor lunar elétrica, arrepiada, cheia de pêlos. Lua. Isso. Feito mulher atiçada pela lua cheia, a caranguejeira caminhava pela minha boca: despertada, queria dar, dar seu recado, oferendar seu carinho de aranha. E o que ela queria dizer, em palavras outras, só podia ser – outro. Fiquei andando pelo quartinho, dois passos pra lá, dois pra cá, descalço e silencioso, transtornado das idéias. É tão primitivo quanto se encontra a direção, você não acha? Mas tão complicado entender. Por isso vivemos: porque não entendemos.
Lua alta, no que acabou nossa ronda noturna, lá pelas quatro, zanzei com alguns colegas pelo depósito entre os caminhões que se esvaziavam – é contínuo rio o fluxo dos lixos nascentes e morrentes no Lixão, centro do fim do mundo de tudo. Ali, o lixo está em toda parte, assim como toda parte é lixo, até o empesteado ar, em seu rearranjo orgânico. Molas, bambolês, bobinas, transistores, chips, computadores, TVs, rádios-vitrolas, megafones, microfones, microscópios, microorganismos da grande Entidade; garrafas, copos, pratos, embalagens, papéis, barbantes, caixotes, lanternas quebradas; canetas, pincéis, – tudo do ruim e do pior –, cadernos, jornais, revistas, livros, cordas, palhas de aço – éramos nós os verdadeiros ratos daquele navio cujos passageiros haviam morrido afogados? – algodões, estopas, ripas, ferros, botões, papéis de presente, instrumentos não-identificados – depois do serviço, muitos de nós costumavam entrar escondidos no Lixão, pra ver se rolava algum barranco, se catava uma coisa boa, se se dava bem arrumando um valor, o que sempre ocorria, mas só suando muito –, fraldas, clisteres, papagaios, araras, invertida fauna, jacarés, macacos, zebras, ursinhos de pelúcia, presentes não-abertos, cartas não-lidas, publicidade desperdiçada, livros e cadernos jogados fora, pérolas aos porcos – de lá vem tudo o que eu li; caminhamos tropeçados outros nos uns, de rastos, de gato, na mão um saco preto de lixo e uma lanterna com a pilha gasta amarrada na cabeça a vasculhar, luvas fracas e amarelas descobrindo numa sacola plástica e outra a cobiçada matéria, nós garimpeiros do quase-nada, bandeirantes do Depósito, do semi-através cascatado, atrás de algum contra-treco – unhas, papéis higiênicos ainda frescos, camisinhas há pouco usadas, shampoos recém-esvaziados, iogurtes pela metade, jornais do dia, do mês passado, do ano retrasado, lixas de unha, pinças, giletes picegas ou não, lâminas de barbear sangradas, toalhas, – nossos focos de luz se cruzam nas coisas e nunca conversamos, jamais falamos a não ser grunhidos ou palavrões, ou uns mudos murmúrios remoídos porque pode haver briga entre dois colegas que são pais de família por uma boneca xuxa jogada antes do tempo de suas filhas crescerem, – pilhas, espelhos em cacos, remédios já inúteis, sais para um banho agora frio, pedaços de sabonetes cheios de pêlos e pentelhos, ainda úmidos, cheio de chorume, que é o sangue do lixo, tudo aqui é meio úmido como este feto preto recém-parido roído por sanguessugas que alguma mãe desnaturou – somos mãos enluvadas e faces em luto e focos de luzes em luta, a boneca loira perde seus cabelos entre porradas e xingamentos e a filha de alguém não ganhará nenhum brinquedo, como de sempre, a comida que esfriou acende o bucho de um terceiro cujo rosto trespassado por cicatrizes sorri tosco, e um quarto e um quinto se vão satisfeitos com algo que acharam que parece ser um maço de revistas de mulheres peladas, enquanto sétimos oitavos nonos ocos ainda cavocam cavocam fundo sem desesperar o achado de um conforto qualquer para qualquer obscura precisão; esperança, aqui fica seu último porão, – e assim eu recolho modess, sempre-livres, caresses, obs, carefrees, tampaxes de vários tamanhos até preencher meu saco de plástico preto que amarro cuidadosamente, ninguém me nota, todos estão imersos em suas buscas, e assim procuro a saída do Lixão, deixando para trás décimos vigésimos quarenta ladrões de tesouros que somente eles mesmos podem saber o que é, continuando sua louca coleta até que a noite termine para todo sempre.
11: dada a deixa
Porra. Acho que falei muitas coisas; assim, repentes, né? Parece que qualquer coisa se enfia pelo ar que respiro, e me encrespo todo o que pensar, o que falar. Mas não há rosa sem espinho: se a senhora quiser que responda àquela primeira pergunta que fez, vou ter que transpor todas essas lombadas e valetas. Hein? Não quer que eu te chame de senhora? É certo, não é tão velha assim… costume, sabe… acho que passei tempo demais sem encarar uma dona. Mas prefiro esse tratado, posto que nos põe mais longe… Por quê? É melhor; acho que sou um sujeito meio da antiga, apesar do que estou contando. Depois, no fim – se a gente chegar lá – pode-se baixar a guarda. Você verá, nem vai acreditar na verdade de tudo. Agora, não; agora, eu só uma voz sou.
Onde estava mesmo? Ah, na noite, na noite terminando. Que nada. Quatro e quarenta e quatro da manhã, sem estrela alguma que não fosse um solitário vôo de um avião entre nuvens grisalhas. A miúda chuvinha atrapalhava o lazer dos urubus, e eu caminhava perdidão, na busca de um buso que me levasse de volta ao coração sujo da cidade, não tão nojento quanto esta imunda cloaca. Olhava-me pelo bafo batido no vidro do ônibus oco, querendo reconhecer em mim minhas manias, meus medos, meus moveres. O que tinha feito? Pra que ia servir aquele saco de plástico negro oculto em minha mochila? Que animal estranho palpitava ali, feito de fibras sintéticas, restos de vísceras e sangue de mulheres tristes, desconhecidas, esquecidas? Era um feto em projeto; uma anti-gravidez ali se sustinha. Eu ouvia a música dos trovões, a parir um rato de garoa.
Tudo sólida solidão. O motorista lento. O sono do cobrador. O vôo pulsante do avião. Vejo: um garoto no ponto de ônibus, usando um agasalho de capuz, sentado num banco, levantando devagar devagarinho a cabeça, à medida que o ônibus chegava, e descobrindo a sua face não tão de garoto, engelhada e rancorosa, de onde brotavam duas bolas de um verde de veludo amanhecido – eu conhecia ele. O ônibus parou: sinal vermelho. O não tão garoto crescia seus olhos pra dentro dos meus, invadindo-me, e subindo a cabeça, descobria-lhe os cabelos em pequenas tranças e uma cicatriz da fronte à fonte esquerda, passando pelo cocuruto, onde não nascia cabelo. Em meu coração engrossaram-se cordas de aço de um escuro violão. Era o Triz. Explico – porque foi por pouco que a facada que ele levou na testa não lhe espetou os miolos: Triz era do bando do Pereba, braço direito inclusive. E me reconheceu. Foi. Pelo grande dos olhos, me viu e reviu. Pronto: eu era vivo pra Vila, de novo, passados meses muitos. De nervos, soltei um bafo no vidro, sumindo-lhe minha cara no negro do noturno ônibus. Ele ficou de pé, o ônibus saiu fora. Triz veio feito um doido atrás, fez sinais, o motora não se animou a parar. Eu olhando firme, duro, o ex-mano. Meu aliado, tinha sido. Então o tal gritou meu nome – Nuuu, o meu nome no bando –: improvisou nos dedos da canhota um revólver, e brincou que atirou. Era a senha. Dada a deixa. Que eu não me desouvesse de endividado com o Pereba, meu destino aí de calçar sapato de cimento e nadar no Tietê de testa pra baixo. Cada vez mais pra baixo. Desovado. Ia o ônibus. Falei: fodeu.
12: assim começou a fome sem fim
Casa. Noite desdentada, lá do outro quarto a velha Veva rugia seus catarros e parecia que ia parar no meio de um ronco estapafúrdio – mas não parava, e seguia. Que medo. Cagaço é a pior sensação que tem. É a única coisa que faz você sentir que tem um corpo inteiro, e que, se marcar, pode deixar de ter. No meu peito tinha uma escola de samba inteira formada de surdos. E surdo, eu, de sangue nos ouvidos. A cabeça gorda, os cabelos suados dentro do cérebro me agulhando. Frios os dedos dos pés, as mãos emperradas, unhando as palmas. Numa delas – o saco. Um saco cheio. Que era aquilo? Que que eu tinha trazido? Que tinha feito? Pensei: meu Deus. Mas que Deus? Deus, se ali tivesse, ali não deveria estar. Quarto meu não é quinta de Deus, é o quinto dos capetas. Não com o que se largava pela minha idéia. Caramba. O espantoso – o feito. Uma espécie de roubo, de seqüestro. De violação. Para isso pensava olhando o saco preto e seus volumes de mistério. Meu corpo foi, foi aquecendo, foi – o medo foi, findo. E então eu indiferente. Cinzento, pastoso, baboso. Como um imenso nada. De cansaço, caí.
Tinha falado que a caranguejeira queria outro. Porque aquele já estava de odor depenado: eu deveria topar com um diverso, de cheiro igual. Aquele olor primeiro. Essa ficou sendo a minha busca, naquele dado momento extremo de caraminholação. Não ria. É este meu graal: buscar cheiros. Achar O Cheiro. O primeiro, o da primeira mulher. Não, não se ria, não. Porque o cheiro do sangue velho, então, inventou-se tão importante como se fosse a menina do Masp sangue do meu sangue. E em certa medida, não considero tosco falar isto. Toda a minha vida, os momentos pra frente deste, foi tomada de uma nova estrada – limpa rota, seguro mapa. Então, conforme o que seja dito, trouxe pro quarto meu primeiro saqueado saquinho de absorventes.
Abri o saquinho. Abri a boca. Meu apetite abriu. Foi assim que começou essa fome sem fim.
13: inexplicável como a morte
Tem ainda um pouquinho de água nessa moringa? Agradecido. Falo muito, mesmo, demais da conta. É que fiquei muito tempo na miúda, muquiando as caraminholas. Não falava há um tempão, não sabe. Muitos dias e muitas noites sem falar… anos… talvez seja um erro. Foi assim, fazer o quê; tem coisas que não dá pra voltar atrás, você escolhe e se torna cativo da tua opção, ela te domina e você não pode fazer nada. E eu tinha inventado aquele caminho estranho. Acho estranho agora estranhar, porque na época era tudo o que eu podia crer. Inexplicável como a morte.
Fato foi que acordei com a véia Veva batendo na porta. Joguei o saco com os absorventes pra debaixo da cama e abri: você não vai trabalhar, moleque? Já está atrasado, venha tomar café! Que cheiro horrível nesse quarto! Você trabalha tanto com lixo que esqueceu de tomar banho antes de dormir? Porco! Velha horrorosa. Me fez saudade da minha vó. Tomei um banho – estava todo suado – tranquei o quarto e saí.
Dona Veva aparece aí, é. No prontuário meu, é. E primeira testemunha de acusação nunca se esquece como primeira namorada e primeira geral. Mas a prisão de onde você me conheceu veio muito depois, não é mesmo? O buraco donde saí com os olhos cheios de terra pra te contar essas coisas. Me lembro, você chegando na enfermaria, se enfiando pra dentro do meu silêncio. Aquele drama todo que foi nós dois se conhecendo, cada um desconfiado de um lado. Eu – bicho? Bicho estranho era tu e todas tuas lentes. Você me cutucando com vara curta. Escutando inteiros meus guinchos. O que tu queria com isso? Estou falando agora depois de anos calado.
Saí… quanto tempo eu não saio daqui? Tem vez que não me compreendo dentro dessa carcaça ralada de cicatriz. Ostra juramentada e suicida. Precisava sair. Ainda preciso. E de uma hora pra outra, a caranguejeira me mandou parar de caraminholar e me jogou pro céu negro do centro dessa cidade que engole gente com mil bocas flamejantes, lambentes, salivantes. Então, eu só queria dar um beijo na boca da cidade, pra se, sentindo sua língua na minha, entendesse aquele obscuro feito.
14: querendo briga
Entrei num boteco perto da rua Augusta, parte baixa, e mandei ver uma breja. Tinha um pêlo no copo sujo de dedos. Aquilo me subiu o sangue. Aquilo era uma grande sacanagem. Isso não se faz – ô careca, façavor de lavar essa merda desse copo antes que eu enfie ele inteiro no seu cu. Como é que é, moleque? É isso que tu ouviu, cabeça de ovo. Ou tu não é só porco como surdo? Lava esse copo e me vê uma cerveja decente. Sai daqui, fora. Fora o caralho, tô pagando, que nem todo mundo. Não pagou nada ainda, não precisa pagar – sai daqui! Quer que eu chame a polícia? E tu pensa que esse boteco de merda tá podendo mandar freguês embora, é? Cabeça de ovo! Olha aqui, garotão, tu tá fedendo mais que um gambá e ainda fica querendo luxo? Tu é um lixo! Vou chamar a polícia! Não sou lixo, sou lixeiro! Tu sim é um lixo, véio. E sabe o que lixeiro faz com lixo? Joga fora! Catei uma vassoura que tava ali detrás do balcão e enfiei o cabo no olho do gerente do bar, veio gente me pegar, escapei liso, de longe se escutavam seus urros.
Saí fora correndo, maior pinote. Queria briga. Zarpei por três esquinas. Tinha uma puta na calçada, o pernão em cima de um carro sorridente, sem calcinha se via por baixo da saia, ia passando por ela quando parei por trás sem que ela me visse e sem pensar meti três dedos na buceta da puta – a senhora perdoe novamente. Enfiei lá no fundo, ela gritou, virou, eu já tinha tirado a mão e botado na boca. Amostra grátis, madame, enquanto levava uma giletada no rosto e já pressentia a chegada do gigolô dela, sebo nas canelas e os dedos na boca, chupando o cheiro da xota debaixo da chuva que vinha aos poucos. Chuva, chuva, o cheiro na minha boca não era O Cheiro, naquele que eu tinha acreditado dentro do meu quarto, a vez primeira, gosto quase vivo e quente, mas não infernal. Queria briga.
Dançava por entre os carros que subiam a Augusta, os mauricinhos comendo as mulheres com o olho, quando um mais distraído tomava um tapa na cara, e aí corria e pulava dum capô pro outro até o outro lado da calçada, como era bom correr, largando outro tapa em outro tonto riquinho, passando a mão na bunda doutra nega pelada, xingando os cusões que saíam do cinema chique fazendo pose, trocentos trouxas em fila fumando seus cigarros e esfumando o nariz no céu, aí seus babacas, vocês gostam de cinema? vocês gostam de histórias? gostam de romance, ação, aventura, comédia?
Tinha um casalzinho lindo, os dois de mãozinha dada, a mina tinha uma boca grande e eu queria beijar a cidade na boca então meti meus dentes nos beiços dela que gritou e gemeu e chorou e o enorme imbecil do namorado dela ali sem fazer nada, só assistindo, tu gosta de assistir, né, sua besta? e a senhora? se lembra que tem uma xota só quando vai no cinema?, fiz, deslizando meus dedos pelo zíper da sua calça jeans, hum, que capozão, tá de chico é? que gostoso, seguranças chegando e eu me pirulitando dali, queria briga, cinco esquinas cruzadas de lado a lado já não conseguia enxergar mais nada tamanha a gana a sanha a raiva de tudo, vi um mendigo pedindo esmola, seu idiota, pra quê ficar se contentando com esse lixo aí, seu burro, não tá vendo que esse povo metido tá cheio da bufunfa, por que tu não fica mais esperto e arranca o ouro dos dentes deles, sua besta quadrada, tu merece morrer de fome, estúpido, aleijado mental, tu me dá nojo, sou lixeiro mas nunca vi um estrume tão grande na minha frente, me dá aqui essa grana de merda seu sanguessuga miserável, catei as moedinhas e os trocos amassados dele, o tonto se chorava vindo atrás de mim, por favor, por favor, tô passando fome, só tenho isso, como é que vai roubar de um pobre, que vozinha irritante do caralho, que mané fome, gente que nem você me dá pena, meti-lhe um pontapé na bunda, sai daqui, lóqui, sai fora, os canas vindo na minha captura com mil luzes vermelhas e azuis, eu é que não sou bobo, pulei um muro gradeado, me ralei todo no cimento e numas coroas-de-cristo que me lanharam seu leite mas que me esconderam dos escuros da noite ameaçante cem mil bocas de lobo querendo me rasgar o couro, os meganhas passando na rua, me escapei, eu ali, suando frio, rindo baixo, coração bombado, mão na boca, o gosto da mulher se despedia nos meus dedos e na minha boca ensangüentada pela giletada da puta. Não era briga que eu queria. Nem sei o que era. Quem é que sabe?
Era um prédio de apartamentos. Dali onde eu tava, podia ver o loucha do vigia, na guarita, nem tinha me visto. Ele podia ter uma arma e se me visse me matava. Mas ele também podia ser mais outro otário. Podia ser, não, era, a cidade era formada por uma grande massa de quadrúpedes sem vida, foscos, gente sem sangue, vagando por aí que nem zumbis, assistindo a filmes mentirosos, assistindo a mulheres peladas, assistindo ricos roubarem o mísero pão de cada dia de tipos desqualificados, assistindo a milionários batendo sua bolinha em jogos de futebol comprados nos bastidores imundos da cartolagem, todo mundo só assistia e ninguém fazia nada, esse prédio devia estar cheio de gente cinzenta assistindo a programas cinzentos em tvs cinzentas em salas cinzentas fugindo de suas vidas cinzentas, mas eu não, eu queria porque queria porque queria gritar minha grande vontade de nada pra esse mundo de merda.
E aí, tiozinho, assistindo seu joguinho de futebol em vez de prestar atenção nos malucos que podem te dar uma pedrada na cabeça? olhos esgoelados, o cara nem tchuns quando eu acertei uma cacetada na venta dele, pronto, ali no chão, foi, fui na cintura dele e arranquei o três-oitão que me dava a chave pra festa, a festa que ia começar dali a pouco, a cidade rebrilhava no berro frio que meus dedos agarravam com potência e carinho, máquina espelhando máquina espelhando máquina, vamos ver o que nos reserva de diversão esse edifício lotado por sonâmbulos de cérebro corpo sexo. Muito bem. Eu tinha cérebro, tinha corpo e principalmente tinha uma arma. O que não tinha, dona, acho que era juízo – mas isso, na boa, me responde, quem é que pode dizer que tem, na real?
15: cuidado com o vazamento
Onze andares. Contrariei-me: fui, porém, ao porão dos automóveis. De lá, sintonizava a caranguejeira. Olhos fechados e narinas abertas. Tinha dentro de mim como que uma fogueira cujos gravetos eram uns sentimentos estranhos de revolta, vontade, dor e tesão. Detrás do silêncio de gasolina, borracha queimada, umidade e chorume – o sumo do lixo –, pressentia a movimentação de oito patas peludas se comunicando com meus miolos em pulsos firmes. Ela sentia o que eu queria. Se eu já era dominado por ela naquela época? Não poderia saber. Tudo o que sei é que suas vozes ainda estavam em mim veladas.
A garagem, um útero de ferro – em breve ia parir um estranho animal caçador. Devo ser muito esquisito para você, né? Às vezes também o sou, quando num espelho – feito se fosse dois, três. Um, dois, três. Havia um tesouro ali perto. Ali perto havia uma escada – não, não estava naqueles baldes de lixo abandonados, era mais para cima. Só ia para onde as patas me empurrassem. Me pedissem que eu pusesse o cano na testa, puxava o gatilho. Mas agora elas só me pediam que eu subisse a escada. Que eu subisse a escada até o primeiro, o segundo… no terceiro andar já pressentia o cheiro quase insustentável. Seguia de olhos fechados quando bati com o nariz no apartamento 32. Como entrar? Não pensei muito – a caranguejeira me deu o toque no que apertei a campainha. Uma voz de mulher veio:
– Quem é?
– É o encanador – soltei. Logo me toquei que continuava com minha roupa de lixeiro, e com ela poderia me disfarçar de qualquer outra coisa reles. – Tem um vazamento no andar de cima, e só pode estar vindo do seu apartamento.
– Mas a essa hora? – a mulher parecia irritada.
– A senhora sabe como é, vazamento não espera hora nem lugar. E com toda certeza o vazamento vem da sua casa…
Ela entreabriu a porta e já mostrei o cano, sem vacilo. A mulher deu um pulinho pra trás, pra dentro da sala iluminada pelo azul da tv.
– Desculpe, mas tudo vai correr bem se a senhora não gritar. Não vou demorar. Quero só encontrar o vazamento – e avancei a mão entre suas pernas, adivinhando, debaixo da camisola, algo que me interessava. Ao mesmo tempo, fui trancando a porta por trás de mim.
– Nem pense em fazer isso – ela gaguejou. Seus cabelos estavam meio descorados e a pele um pouco maltratada, mas os traços eram retos, perfeitos. Gostaria de ter traços assim. Como será que ela me via?
– Não vou fazer nada que a senhora mesma não fosse fazer – e, num gesto rápido, puxei a cordinha do ob de dentro dela. Ele saiu pingando. A mulher gritou:
– Não! Por favor! Não!
– Calma, minha senhora. Eu não quero mais nada. Era só isso. Vim, como disse, conferir o vazamento… – e passei o tampão à frente do nariz, como os frescos fazem com os melhores vinhos. Mas a caranguejeira sentiu algo de errado. Embora cheirasse bem, este não era o tesouro que a caranguejeira me mandou procurar.
– A senhora tem uma filha?
– Não, moro só – ela soluçou. O sangue começava a se alastrar pela camisola e ela parecia muito envergonhada. O apartamento era bem bacana, decorado com muitas velas coloridas e perfumadas. Havia uma estante com um montão de discos de vinil – mil, dois mil. Umas centenas de cds, também. Devia ser uma mulher muito fina, para ouvir tanta coisa diferente. Se eu morasse ali, seria como sou agora? Quem eu seria? Teria as mesmas vontades? Pior ou melhor?
– A senhora está mentindo. Me leve até sua filha, prometo não machucá-la. – Lágrimas escorriam pelo rosto da mulher, que se desesperava com o bizarro que deveria ser minha aparição. O que não se conhece é sempre muito mais assustador. Tive um desejo de lamber suas lágrimas, de lhe dar um abraço. Acho que aquela mulher não recebia um abraço há muito tempo. – Posso lhe dar um abraço?
– Você é nojento! Vá embora daqui! – gritou ela.
– Eu pedi que não gritasse. E só pedi um abraço. Mas tudo bem, não vou ficar chateado com você só porque não quer me abraçar. Agora, me mostra onde está sua filha.
– Já disse que moro sozinha – gemeu, olhando de soslaio para o corredor. Debaixo de uma porta, vinha uma fresta de luz azul. A menina devia estar assistindo a tv.
– Olha, pode ficar tranqüila – murmurei, com a voz mais suave que poderia fazer. Quase tão suave quanto a voz com que te conto as mais cabeludas coisas. Guardei o tampão da mulher dentro da minha camisa e prossegui: – Vamos comigo até o quarto dela, não vou machucá-la, prometo mesmo. – Apontei a arma para a cara dela e em seguida o quarto. – Abra a porta, por favor. – Uma delícia ser tão educado com gente tão fina, depois de ter trombado aquela canalha lá embaixo.
Chorando, lentamente ela ia, quase me enganando em seu papel de mater dolorosa, até que, sem que eu pudesse prever, pegou uma escultura de cima de um vasinho, girou rapidamente e me acertou a testa. Logo senti o sangue jorrar do meu supercílio; mas segurei a onda e apontei de novo a arma na cabeça dela.
– Ei, pra que você fez isso? Já disse que não ia machucar ninguém. Agora vai ser sangue por sangue. – Abri a porta de supetão. A mulher se atirou aos meus pés, suplicando pela filha. A menina, que estava deitada debaixo das cobertas, pulou da cama tentando esconder sua nudez por trás do edredom. Na tv, um casal transando. A menina arregalou os olhos. Um mamilo ficou de fora. Devia ter uns doze anos. – Dá um tesão doido quando você fica menstruada, né? Agora, eu quero que você me faça uma coisa. Me dá esse absorvente que você está usando. Só me dê o absorvente que eu prometo ir embora.
Ela olhou a mãe, completamente assustada. – Faça isso que ele está pedindo, Erica. Ele é louco! – E voltou a chorar, agora puxando uns soluços lá do fundo. Não podia deixar essa em branco. – Não, minha senhora, não sou um louco. Louco é quem rasga dinheiro. Louco é quem bate na cabeça de um homem armado. Sou apenas um colecionador. A senhora não coleciona discos, objetos de arte? Eu coleciono absorventes. E o que temos aqui – puxei rápido o absorvente da vagina de Erica – é uma peça das mais raras. Esta é sua primeira menstruação, não é, Erica? – Ela arregalou ainda mais os olhos, como se dissesse “como é que você sabe?”. Aproximei o absorvente das narinas e deixei que aquele odor maravilhoso me invadisse. Fechei os olhos. – É uma pena que a maioria dos homens não tenha suficiente cultura para degustar o esplendor de seu perfume, Erica. Bem. Senhoras, era isso. Obrigado por tudo. Boa noite. Podem me levar até a porta?
Trêmulas, soluçantes, elas iam à minha frente quando um objeto piscando em cima da mesa me deu uma idéia. Uma idéia absurda, pela qual paguei muito caro mais tarde. Mas, como toda idéia absurda, ela se impôs sem condições – e desta vez, a culpa não foi da caranguejeira.
– A senhora costuma falar muito ao celular?
– Como assim? Quer levar o celular, leve, por favor, mas deixe a gente em paz!
– Responda à minha pergunta. Usa muito o aparelhinho? – Era um modelo moderno. Tinha-o visto em jornais e revistas velhos. Brinquei um pouquinho com os botões. Me deu vontade de levá-lo. Mas para quem telefonaria? E pior: quem ligaria para mim?
– Uso, uso…
– Tem outro telefone aqui?
– Sim, do lado do aparelho de som.
– Do lado do aparelho de som… a senhora tem tantos cds, não? Deve ter ouvidos privilegiados… tão privilegiados quanto o meu olfato, talvez… pensei agora que poderíamos fazer um pequeno jogo. Qual o nome da senhora?
– Mo… Monica.
– Senhora Monica, por favor, coloque o celular no lugar de onde tirei o absorvente.
– Como?
– Senhora Monica, apenas faça o que pedi.
– Você é um tarado! Um louco!
– Como eu já disse, louco é quem xinga um homem armado. Por favor, Monica, instale o aparelho.
Chorando, ela levou o celular entre as pernas e empurrou-o para dentro. Não devia doer – afinal, era um modelo tão moderno quanto pequeno. Logo, estava inteirinho na vagina menstruada de Monica.
– Por favor, qual o número?
– Hein?
– Isso que eu falei. Me diga o número do seu telefone. Se a senhora acertar quantas vezes ele está tocando, eu vou embora. Se não, coloco na xoxota virgem de sua filha.
– Louco! Nojento! Tarado! É 92526543! Seu puto… – E começou a chorar de novo. Pensando bem, Monica foi a primeira pessoa a me chamar desses nomes. Deve ser por isso que lembro dessa cena com tanto carinho. Digitei o número no telefone da sala e logo ele começou a tocar, dentro de Monica. Eu tinha colocado no modo vibracall. A cada toque, Monica gemia: um… dois… três…
– Interessante como as coisas adquirem utilidades insuspeitadas, não é, senhora Monica? Um objeto de decoração pode abrir um corte em um visitante… um absorvente pode se tornar um objeto de colecionador… um telefone pode emitir sinais inesperados. – O telefone, uma, duas, três vezes…, fazia a mulher ter contrações esquisitas. Dor ou tesão? Em geral, essas coisas estão tão próximas… – Quero que se lembre disso, toda vez que ouvir a campainha de um telefone. Sabe, senhora Monica, eu nunca tive uma namorada. Nenhuma namorada nunca ligou para mim. Mas agora, sei que, em algum ponto da cidade, sempre que um telefone tocar, pelo menos duas mulheres se lembrarão da minha pessoa. – O sangue não parava de escorrer em meu rosto. Pra que ela foi fazer isso? Notei que pelas pernas de mãe e filha também escorria sangue, um sangue escuro, denso, pleno, doloroso. – Lembrem-se de mim também toda vez em que estiverem chuvosas. Eu me lembrarei de vocês por muito tempo. Quem sabe um dia não telefono? – Discretamente, enquanto a mãe tinha o último espasmo, na décima-primeira vibração do celular, Erica sorriu. Será que ela entendeu meu jogo? – Onze. Muito bem, Monica. Realmente tem ótimos ouvidos. Obrigado pela noite e – abri a porta – tomem muito cuidado com os vazamentos. Até logo!
Quando tranquei a porta, pelo lado de fora, para dar tempo de fugir, pude escutar outro gemido de Monica. Estaria chorando – ou gozando?
16: um rei após o banquete
Essa cena repetiu-se tantas quantas vezes minha memória maculou-se de enganos – com exceção do detalhe do celular, claro, que só rolou daquela vez porque eu estava puto com a classe média. Mas esse ressentimento logo passou. Uma vez que me recolhia em meu quarto de três por três metros, era senhor de um reino tão particular que não admitia a concorrência de círculos inferiores habitados por seres amantes de pipocas, telefones e música plastificada. Deles – melhor, delas – só me interessava o trigo vermelho forjado entre cólicas e marés.
Previa em mim a caranguejeira que minha substância criaria raridades montanhosas se me alimentasse do supra-sumo de cada mulher interrompida. Onde em mim nascera essa fome, antes, muito antes daquela primeira mulher, não saberia dizer – talvez você, tão inteligente, me traga a resposta para esse vampirismo escatológico. Mas, então, não queria respostas – queria só saciar minha fome. Chegava em casa por volta das cinco da manhã e organizava minha mesa. Dispunha três ou quatro obs de entrada, vinho de mulheres maduras. Em seguida, o primo piatti consistia em dois semprelivres minis vindos de vaginas trintonas. Via de regra, o secondo piatti era o prato principal – quase sempre um grande modess usado por garota nova, na menarca, como Erica. Fechava o jantar com um carefree retirado no último chico de uma mulher que recém dera à luz – denso sangue de proteínas, hormônios e dores.
Com o estômago vibrando, a caranguejeira finalmente poderia dormir. Fechava meu armário-despensa e apagava as velas de minha solitária refeição. Sentia-me muito estranho, como se tivesse cometido um crime perfeito, como se tivesse feito amor com uma freira, como se tivesse escutado uma música nunca antes ouvida. De certa maneira, sentia-me um rei após o banquete. Em minhas veias corria o sangue de muitas mulheres, o que me dava uma sensação de força além de mim.
Às vezes me perguntava onde ia parar com essa dieta. Você pode ver em minha pele os resultados. Omulu de mim teria medo mortal. Eu não tinha essa cor de cobre, essa careca, esses olhos castanhos. Quando nasci, era cinza, meus cabelos eram negros e meus pensamentos não tinham tons. Hoje sou um homem rubro, defendido de todas as doenças. Minha sanha era ser imortal. E, depois de tudo o que me aconteceu, acho mesmo que não morro nunca mais.
17: corpo porco, alma lama
Mas você sabe. Como todos os aristocratas, pequei por não ter esgotado minha vontade na vontade pura – e, de auto-guardado, passar a guardador. Não me bastavam as noites sem-fim no Lixão, as batidas pelos apartamentos dos Jardins, os lixos que eu rasgava pelas ruas disputando com mendigos e mortos de fome, os catados pela ronda noturna de todo dia, os saquinhos escondidos dentro do uniforme verde.
Minha nova nóia era um pré-desespero na apreensão de um dia não ter nada. A caranguejeira me pedia cada vez mais alimento. Minha despensa se abarrotava para um suprimento de dois meses. Tinha até trocado a fechadura do quarto, para que dona Veva não me saqueasse – imagine, uma velha na menopausa, o que ia querer de meus brinquedos? Fui virando um vulgar. Pra ter idéia da minha vulgaridade, é só abrir o jornal daquela época. LOUCO DO ABSORVENTE ATACA DE NOVO NA ZONA SUL. A vulgaridade de uma pessoa principia na fotografia e termina nas colunas sociais. A minha começou no retrato-falado – e prosseguia nas páginas policiais de todos os jornais de São Paulo. Toda semana o NP trazia uma história minha diferente. Até começaram a inventar coisas: que eu roubava, estuprava. Nenhuma verdade.
E, para piorar, a minha insaciedade me desviava da rota principal: que era encontrar o odor primeiro, aquele graal da avenida Paulista. Não completava mais meu ritualístico jejum de uma semana antes de cada banquete. Comia a qualquer hora. Fui inchando. Estava para me acabar na pobreza de espírito quando um dia, ao abrir o armário-despensa em que guardava minhas iguarias, tive uma idéia.
Enfileirados, os retângulos branco-ocre-rosados em cada prateleira semelhavam uma espécie de altar. Eram sete prateleiras; em cada uma, havia uns trinta absorventes classificados por faixa etária, ordem de chegada e dia de regra – pois que até disso meu olfato se certificava. Resolvi manter aberto aquele relicário. Cheguei em dona Veva com a desculpa de que era um rapaz e precisava de minha privacidade. Assim, não deixaria mais que ela fizesse a faxina no quarto. Joguei fora o armário e as prateleiras e mantive meu esgarçado colchão de solteiro no centro do quartinho. Prossegui na acumulação dos absorventes, empilhando-os circularmente. Depois de três meses, interrompida a dieta, meu quarto se tornara um útero.
Chegava do trampo e, caindo na cama, era tomado por um formigamento completo desde o nariz até o último fio de cabelo – que, na época, já era raro. Em minha câmara secreta segregava os mais tempestuosos delírios. Nu, era possuído pela soma dos cheiros de mais de mil mulheres – estava indo onde nenhum homem, imagino, jamais estivera. Corpo porco, alma lama. A senhora não imagina o que vislumbrei naquele sarcófago. Escutava de cada fibra de algodão a mínima voz de uma mulher diferente – angústias, desejos, sonhos, medos. Ah, a plenitude daqueles dias… olhos cerrados, de dentro de mim uma luz vermelha me queimava uma febre se irradiando pela câmara ardente todos os pesadelos de Eva. Mil anjos me circundavam, batendo suas asas rubras nos pêlos do meu nariz. Já não havia caranguejeira, não havia fome, não havia cansaço. Não teria conseguido passar todos esses anos preso se não fosse a lembrança daqueles meses oculto no templo perfumado de Eva. São outras coisas para as quais, assim como a primeira vez com a moça, lá na Paulista, tenho uma certa vergonha de contar. Onde é que termina o oásis e começa a prisão? Mas agora não adianta chorar o sangue derramado. O meu vacilo foi ter atrasado o pagamento do aluguel.
18: expulso do paraíso
Me diga o que você acha de verdade: eu merecia ser preso? Fiz algo de mal a alguém? Uma tarde, eu estava imerso numa meditação profunda, quando ouço, lá de bem longe, de algum lugar de meu cérebro, dona Veva bater na porta, um tempão. O aluguel, o aluguel, o aluguel. Até que resolveu chamar um guardinha para arrombar meu quarto. Então, sem essa nem aquela, fui expulso do paraíso.
– Meu Deus do céu! Mas o que é isso? Que fedor!
– Arrhgh! Que nojo! Mas então… é você o Louco dos Absorventes! Mãos ao alto!
Mãos ao alto. Eu estava tão espiritual aqueles dias que meu desespero foi completo ao ver duas pessoas horríveis incomodando a paz de meu templo. Eles iriam expulsar os anjos! A senhora pense, o que é que eu poderia fazer? Tudo ao meu alcance para salvar as minhas mulheres, as mil flores de minha estufa sagrada. Lembrei-me, fraco embora, do revólver que tinha roubado. O guardinha não o tinha visto. Trêmulo como estava, consegui agarrar a arma e – essa foi a desgraça – atirei. E assim, pela primeira vez, sangue foi vertido naquele quarto.
Bem. O resto talvez a senhora já saiba. Deve estar no meu prontuário, acrescido de duas ou três mentiras. Veva fugindo do quarto, chamando a polícia. O guarda indo para o hospital, a polícia chegando, trazendo a imprensa na cola, os fotógrafos, Veva dando a letra de tudo. No meu julgamento, até a mulher do celular apareceu com a filha. Condenado por estupro, tentativa de homicídio e atentado violento ao pudor. Execrado publicamente. Internado em sanatório junto com comedor de criancinha, parricida e sonegador. Transferido de detenção pra presídio pra casa de custódia pra solitárias eternas porque tinha neguinho achando que eu era louco e que podiam me matar. O que mais me doeu foi saber que jogaram os absorventes no lixo. Planejava fazer uma grande fogueira, no dia de ano novo, e aplacar os sofrimentos de todos os mil anjos a quem referi minha obtusa fé.
Bom, pelo menos não dei azar que nem o Luz Vermelha e não acabei virando filme. Caí pra dentro do xis num anonimato absoluto. Quer dizer. Isso até surgir na minha cela um tal de Pereba.
19: eu podia ser esse outro sangue
A gente já vai sair daqui, senhora. Prometo mesmo. Sou homem de palavra, como você percebeu. Mas é que não vai fazer sentido sairmos daqui sem antes responder sua pergunta. Eu lhe asseguro de que aqui nesse pavilhão a revolta não chega. O combinado com o Comando foi o 4, o 5, o 8 e o 9. Ninguém vai chegar aqui à enfermaria. Vou até dar uma acelerada na história, vai vendo.
Isso que determinou a minha sorte – e a sua – foi há um ano. Fazia muito tempo, então, que eu estava largado pelas cadeias e hospícios – largado de mim. Não vou cansar a senhora com a triste história desses anos passados ao sul de mim mesmo. É uma outra odisséia que, numa outra ocasião, quem sabe lhe conte. Só o que posso dizer é que, para continuar vivo, tive de continuar no corpo de outros homens – no sonho de outros homens. Eu devia ser uma alucinação deles, ou uma alucinação de todos os sangues dos quais meu sangue era formado. Era como se eu vagasse o meu corpo e vagasse de corpo em corpo. Era uma ciência que eu havia aprendido com o sangue das mulheres – uma transfusão de mim para outros. Invariavelmente, este corpo que você está vendo ficava perdido num canto de alguma cela, babando, inacessível, enquanto meu pensamento perambulava de sangue em sangue.
Nessa época, eu ainda não havia percebido que isso era um conhecimento – era mais um jeito de passar o tempo. Não se esqueça de que eu era – acho que sempre serei – um lixeiro. Encarregado de recolher os detritos. Processá-los. Chame de alquimista, se preferir. Assim, eu vagava de corpo em corpo de homem que morava naquele grande depósito de lixo que era a cadeia.
Despertei com um murro na cara. Traíra! Outra porrada. Cadê meu pó, filho da puta? Sim, era ele. Depois de tantos anos, como não poderia reconhecê-lo? Pereba. Feio como o inferno ao meio-dia. De pé, no meio da cela escura, careca, pálido, baixo, atarracado, a cabeça pensa de lado, sorriso na boca torta, e aquele cheiro dele. Uma coisa você nunca podia perguntar para o Pereba era o motivo de seu apelido. Ele tinha, entre o pescoço e o ombro esquerdo, uma ferida que nunca secava, escorrendo eternamente um pus amarelo, que ele limpava de tempos em tempos com um lenço negro. Dessa ferida saía um fedor horroroso, como de carne morta, algo de que ele devia ter orgulho – afinal, para que conservaria aquela podre alcunha?
Mas não era nisso que eu pensava, enquanto tomava um cacete em cima de outro. Era como o cara podia ter me reconhecido, e se lembrado de mim, tanto tempo passado desde que eu tinha deixado a pacoteira de pó em cima daquela mesa de bar na beira da avenida Paulista. O coisa-ruim vinha cobrar sua dívida, desgraçado. Naquela cela, só tinha mais três caras – dois dormiam, e um, o Zuza, assistia a tudo sem dar um pio. Como tinham colocado aquele demônio ali dentro sem eu saber? Bom, eu já não sabia mais de nada. Traíra, filho da puta, pensa que eu esqueço? O Pereba nunca se esquece de uma sacanagem. Olhei fundo no olho daquele cara que observava tudo. Onde estaria sua mente? Farejei seu sangue nos seus olhos. Sangue de covarde, de mentiroso, de homem sem nome. Zuza percebeu que eu olhava para ele, e não tirou o olho de mim, porrada em cima de porrada que eu tomava de Pereba. No fundo de sua pupila, havia um sangue que eu conhecia. Um sangue de chama falsa, sangue de boneco.
Eu podia manipular esse sangue como quem ordena o movimento de um quadrado voando no céu. Até mesmo eu podia ser esse outro sangue – era o que eu pensava enquanto comunicava, com o sangue dos olhos, o que Zuza deveria fazer.
Zuza veio por trás de Pereba e lhe deu uma chave de braço, segurando-o pela nuca. Então lembrei que, por trás de meu corpo ensangüentado, havia um estilete oculto debaixo do estrado em que Zuza dormia – ao alcance da mão. É difícil acreditar, mas foi como foi –, enquanto Zuza segurava Pereba, enlouquecido de raiva, detrás de todo o sangue que me iluminava os olhos agarrei o estilete. E cravei fundo na chaga dele. O grito que se ouviu acordou todo o pavilhão. Foi uma força tão grande que eu fiz, acabei entrando em coma e só voltei a esse corpo que você está vendo um mês depois. Quando acordei, cinco pacotes de cigarro e um telefone celular estavam ao meu lado na cama. O enfermeiro me olhava com uma espécie de admiração.
– O PCC mandou isso pra você. Eles mandaram os parabéns por ter mandado o Pereba pro inferno. Eles também mandaram esse número de telefone. Querem falar com você.
20: o crime está ganhando
Foi desse jeito que eu entrei para o Primeiro Comando da Capital. Matando Pereba, sem querer eu dispersava com a liderança da facção rival, a Seita Satânica. Eu nem sabia que o Pereba tinha organizado um grupo na cadeia. Na verdade, não sabia de nada do que acontecia por dentro do crime, tão alheio de mim eu estava. Com a morte de Pereba, o Nuido acabou renascendo das cinzas. Virei lenda. Com o assassinato, minha pena aumentou em dez anos, mas, da noite pro dia, era um líder. O celular seria a arma que me tiraria dali. Por coincidência, o meu aparelho tinha sido introduzido na cadeia – quem diria? – pela cooperação da mulher de um companheiro de cela.
Uns dois anos depois disso, participei da montagem dessa rebelião. Planejamos durante um ano a revolta, que aconteceria num dia de visitas. Foi nesse meio tempo que conheci a senhora. Você veio chegando, se instalando perto do meu silêncio, querendo cutucar o meu passado, curiosa com o jeito como vim parar aqui. Nunca me abri muito com a senhora pra não dar na vista da malandragem, que não confia em você. Por outro lado, desviei a atenção da diretoria, que via em mim só um tarado doido coitado. Mas eu já sabia quem você era. E já sabia quem eu era também. As sessões com você viraram um jeito de eu chegar numa possível refém importante, no dia D.
Bem, aí o dia das visitas chegou. E pelo que esse aparelhinho aqui me diz, o crime está ganhando. Fizemos todas as visitas de refém, em todas as cadeias. Demorou pra organizar todo mundo, mas deu certo. Estamos ganhando todas as cadeias do estado. Tá tudo dominado. Esses tiros aí fora deve ser o batalhão de choque. Não se incomode. Logo eles vão ter que parar pra negociar, não vão querer outro massacre. Estamos com a faca e o queijo na mão. Daqui a vinte minutos, a gente sai da enfermaria para ir negociar com o diretor. Você vai ser meu escudo – mas fique tranqüila, nada vai te acontecer. Não pode acontecer nada com o cara que matou o Pereba.
É estranho como tudo isso acabou nos unindo, sem querer. E pensar que, há uns vinte anos, eu era um lixeiro viciado em absorventes. Me lembro como se fosse hoje, a primeira vez que levei para o quartinho na dona Veva aquele saco cheio de absorventes que catei no Lixão.
21: uma fome desde o fim
Ele estava ali, e eu ali olhando. Sentindo. Até ouvindo. Um rumor sem rumo ou princípio, quente como um coração que ressona. Ali dentro do quarto, sentia meus olhos vermelhos na carne viva da madrugada em que meu nariz se contorceria sob mil guizos. Rastejei até o invólucro pelo carvo frio do cômodo, feito outra coisa que em mim ainda não se sabia – só pressentia. Rumor sem vento, parado antes. Túrgido bezerro imerso numa cascavel, os nervos dolorosos, ossos em agulhas – sangue parado se revolvia, vomitava a si. Ah que bom se eu pudesse fugir de mim mesmo. Ah que maravilha se eu pudesse escapar daquele apelo, e nada aconteceria. Porém: oração não afogaria o monstro, que me roubava a saliva, que saía daquela lagoa escura pra me pegar de debaixo da cama. E me derreti, solicitante, em carícias sem volta. Era todo véus. Cerimoniosa minha língua, aos quatro cantos do desejo. Me refazia. Me perfazia em dezenas: era todos os amores interrompidos, rompendo para o outro lado das narinas, pelos pêlos das narinas até os pêlos que adornavam todas as cavernas por onde vagava a caranguejeira, lenta, larga, sinuosa, faminta. Eu chorei.
Seco ovo choco sob a luz da lua que, garantia, ocupava todo o espaço dos foras. Não haveria mais mentiras para mim: era aquilo tudo. Rubro fogo morto que me aquecia, fogo morto de muitos dias, muitas noites, muitas esperas. Uma dor que não conhecia cúmplice. Uma dor que não poderia ficar com a porta aberta. Eu era um porco com muitas asas, focinhando a lavagem de mil anos de angústia. E sentia fome. Uma fome desde o fim. Todas as cores de um arcoíris negro abraçavam-me. Pântanos de lodo e ferrugem e mirações. Queria cruzar todas as barreiras que só os insetos roedores de cadáveres conhecem – eu, infecto, torrente, fluxo desregrado. Ainda não gozava de toda a ciência, entanto já se anunciasse meu total exílio. Havia de ter aberto o próprio cadafalso. Penetrava-me, prenho de ocos. Vozes carmins se alteavam ao redor, em sílabas longas feito dedos a percorrerem cada milímetro da minha pele. Senti todas as vicissitudes do mundo. Como um qualquer mendigo que lambia chão buscando céu. Cão danado grunhindo sarnas e sanhas, cheirando os cus interiores de várias doces cadelas até achar o mesmo sangue. E era bom. E era meu. E era eu.
Mas agora tudo isso é passado. Três anos aqui dentro me deram uma lucidez que não tinha antes. Vinte anos caraminholando criaram um couro em volta de mim que dificilmente pode ser rompido. Agora não temo aranhas, Perebas, guardas, eletrochoques. Agora agirei no contrafluxo das marés – absorventes não vão mais me absorver. Talvez eu vá direto às fontes. Quanto ao lixo, lixo-me. Breve saio daqui em vermelho triunfal – a morte veste máscara rubra. Afinal, encontrei o que há tanto tempo procurava… o Cheiro Primeiro. Sou, então, o lixeiro que o Outro Mundo pariu para um universo paralelo.
Respondendo à primeira pergunta da senhora – por que fiz você de refém? Muito bem, moça. Será que é possível ter se esquecido de certa noite fria, na avenida Paulista? Até me lembro de certa conversa nossa, na noite aquela – você falando em ser psicóloga, para trabalhar só com quem fosse irrecuperável. Lembra? Pois. Daqui pra frente, tem toda a chance de recriar do lixo um homem. Não? Tudo bem, tudo bem, ei, se acalme, menina, não se espante. A verdade nunca é coisa familiar, por mais perto. Mas acho que agora não temos mais tempo para nos dispersar em meio a fiapos de conversa. Vamos sair daqui antes que os helicópteros cheguem. Logo a rebelião, os tiros lá fora, toda essa agitação inútil, vai terminar. E aí, depois de atravessarmos para o outro lado, passamos a limpo nossa história particular, nesse tal universo paralelo.
Antes que me esqueça, porém, e para deixar as coisas bem claras: é impressão minha – ou você está naqueles dias?
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Outono, 1995 – outono, 2001.