“Forget the night
Live with us in forests of azure
Outhere on the perimeter there are no stars
Outhere we is stoned
Immaculate”
[Jim Morrison]
Sol alto. 30 anos. É. De um lado meu rosto me vigia. Do outro escrutino horizontes. Melhor que a cadeira elétrica. O Miranda que se dane. Aqui não me pega. E assim, o resto. Não. 30 anos. Caí. É.Já tinha ouvido falar desse prédio. Nem tinha acreditado, pensar que. Dizem: de lá só se sai ao sul de si mesmo. Babando na barba maluco mesmo, olho vidrado jeito encolhido de punheteiro. O Panóptico. Nome bonito e que ninguém sabe o que quer dizer. Nada escuto – parece uma solitária que peguei quando matei um cara que me dedurou uma vez, não me lembro o nome, acho que foi uma vez que puxei cana por fazer toca-fita. Antes de entrar pra O Quinto Comando. Antes, bem no começo. Na primeira ponta da serpente, a minha mandíbula. O dia é claro – mas não vejo o sol; e o sol sempre brilha quanto mais você não o vê, já viu? Menino que vigia os amigos na chuva em frente de casa, já sacou? Já – ah. Preciso parar com esse troço de falar sozinho. E não falar com ninguém. Nem escrever. Nem olhar para eles – guardado – ; eles vêem tudo o que faço.
Pensei em escrever uma espécie de diário, me deram até papel e caneta, tomaí estas revistas, vão te fazer companhia, e caíram bundas e caras no meu colo, você também terá direito a um e-mail, todos têm direito a um e-mail e por que não você, te trouxe uns livros, essas besteiras, a mãe te mandou isso mais a malha de lã que você encheu o saco pra ela fazer, a Lúcia quis vir para te entregar esses cigarros, essa foto do teu filho, esse bolo de chocolate, essas merdas jogadas na minha cabeça: meu padrasto começa a chorar, velho molenga, mas ela estava em estado de choque e não conseguiu vir, pra que dar esse sofrimento pra gente, seu maldito? E nem pensou no teu filho! Bruno andando de bicicleta de rodinhas no meio das rosas do jardim em frente à casa. O rosto dele desmaiado nos meus miolos. Mas não. Tenho que me lembrar de tudo. Não escrevo, pai, não quero essas merdas, chuto o computador e as tralhas pra cima dele, manda tudo de volta que eu não quero mais me lembrar de mim, enfia isso no cu: meu pai cospe na minha cara, o guarda me retira, um cuspe destilando antigos pântanos sombreiam meus olhos: vai embora, grito, vai embora pra sempre, vai, vá e não volte nunca mais. Vá. Que eu já me esqueço. É. Não.
Sempre vou recordar. Mas só quero que me vejam aqui sentado, deitado, olhando a janela e fazendo exercício pro corpo não gangrenar. Escrevendo não. Porque eles vêem. Vêem tudo nesse infame presídio. O famoso Panóptico. Uma torre circular de aço e vidro. Circular. E em construção contínua. Inaugurado dois anos antes de eu chegar – na TV, o governador o descrevia como o 5 estrelas dos alcatrazes: “100 andares, cada um com 100 células individuais de 3X3 metros equipadas com webcams e computadores para assegurarem ao detento o contato com o mundo exterior, que é a maneira assegurada pelos especialistas como a mais adequada pra terminar com a violência – sendo impossível a fuga, como podem ver…”. No centro preciso a Vigilância, envolta em vidro espelhado escuro. Em todas as celas, ar condicionado a temperatura contínua, e em lugar de grades uma espécie de cristal blindado à prova de granadas – mas não se pode ver o sol nascer quadrado pois nunca sei se o que vejo é mesmo uma paisagem de um campo qualquer no Pernambuco, em São Paulo ou Roraima: uma paisagem verde eterno, nuvens, e nós, encerrados aqui, somos o ponteiro das horas. Mas não recebemos visitas. Jamais. Apesar disso, temos visitantes que nos vêem pelas câmeras. Parentes. Amigos. Inimigos. Estudantes. Mulheres apaixonadas. Médicos. Curiosos. Policiais. Tarados de todo o tipo. Sei lá: qualquer verme pode acessar a cela número 3337878-K e ver-me. Por isso resolvi não escrever. Me dizia um professor, no crime: a memória é a única fonte de saber. Confie em seus olhos – mas alcance seu alvo com a memória. Não admito que me vejam escrevendo, lendo, comendo, mijando, cagando, roendo as unhas do pé ou somente dormindo [existirá algo mais repugnante do que espiar-me dormindo?] – mas eles vão. Toda vez que acessarem a www.panoptico/3337878-k.end/ ficarão a me analisar olha só esse aqui, de nariz grande e queixo quadrado, o que ele fica lendo o tempo todo, e se perguntará fanho: o que bebe, o que come, quando olha pela janela, quando sorri, quando chora, e surgirá talvez o texto Antonio Nascimento matador profissional alcunha O Poeta, 1,87, 70kg, olhos negros, cabelos negros, sinais característicos cicatriz no ventre e tatuagem abstrata nas costas, sentenciado a 30 anos de reclusão, 47 homicídios no prontuário – segue lista interminável – estelionato, tráfico de drogas, latrocínio, atentado violento ao pudor – segue outra lista idiota, até mesmo àquela expulsão no segundo ano colegial da Escola Estadual de Segundo Grau Doutor Roberto Marinho por que comi a bundinha da Rosemary no banheiro, foda, pego pela professora de filosofia, por que também ela tinha que gritar tanto? Careca, feio, sujo, preso – quer ter o mesmo fim, indagará talvez a mão do cursor do browser, rosnando sua ameaça fria e vazia. Sim. Eu virei informação. É. Isso é o Panóptico.
Não sabia que vinha para cá. Se soubesse, preferia a perpétua na Ilha das Nuvens. E eu quero esconder maus pensamentos de mim mas eles correm. Voam para a janela ou pseudojanela que espraia esse imenso campo verde em que vejo tratores e agricultores e árvores e vacas, sinto até o cheiro da bosta. Me lembra meu avô, perfume estrume; engraçado, ele tinha uma chácara, eu ia para lá moleque andar a cavalo abraçado ao meu avô barbudo puxando sua barba e ele rindo rouco – o sol zunindo mosquitos e eu me lambuzando nas frutas ácidas; me pendurando de galho em galho – até que caí num grande buraco e torci o tornozelo no nó de um ipê-roxo, dei de cara com a lama no buraco, o buraco é fundo acabou-se o mundo. Acabou-se o mundo.
É.
Não.
Vou sair daqui? Daqui a 30 anos? When I’m sixty four? E o Miranda vai mandar me matar então? Como eu mesmo já fiz. Começo de carreira o trampo era matar cagüeta: porta de prisão, o cara saindo magro e dançando dentro do terno de domingo depois de ter bebido muito desodorante em comemoração ele vem meio torto, sorrindo dentes de gelo pros peitos da mulher que veio recebê-lo enfiada num vestido vermelho de alcinha e aí eu ia lá e pá pá pá, o cagüeta estrebuchando no chão, eu indo embora sem nem ser entrevisto. Nunca fui pego em flagrante até que uma filha da puta de uma câmera gravou um tiroteio em que me envolvi com um tira escroto, coisa nobre, era um duelo, coisa estúpida, estava bêbado: até hoje não sei como fui preso e relacionado a uma porrada de merda que eu tinha deixado no arquivo morto. Dali foi um passo. Os caras do Quinto Comando me viram no xis e foram dando com a língua nos dentes a meu respeito, pensando que eu já tinha me fodido. Aí veio o meu advogado com a proposta. Um figura fino, de barba desenhada [agora sei que não devo confiar em caras que têm a barba desenhada, são umas bichas enrustidas] e unhas brilhantes e anel e lenço na lapela me propôs que, caso eu desse a letra do Miranda, meu único chefe no Quinto, mano meu de infância no Jardim Ângela, eu pegava só 30 anos e segurança eterna pra minha família. Era isso ou a perpétua. Minha família mudaria pra outra cidade, outro estado, tudo pago. Meu advogado me fazia essa proposta como quem vende convênio médico. Se eu não estivesse algemado teria quebrado o pescoço dele. Só trinta anos? Saio antes. Achava que estava escapando da Ilha das Nuvens. Imbecil, não imaginei que viria para o Panóptico. Que era pra mim penitenciária de luxo.
E quantas horas já se passaram desde que entrei? Meia hora, três horas, quinze minutos?
Não.
Passando a mão pela minha cara, noto uma barba de uns três dias. Abro subitamente os olhos depois de tanto tempo em silêncio: em torno de mim, sacos de papel pardo envolvendo uma bebida parda e um sanduíche pardo. Me atiro de joelho à comida – e estou no final do repasto quando me percebo ridículo e me levanto, migalha no canto da boca, vou até a janela espiar o pôr-do-sol. Devem estar comentando às gargalhadas minha fome, ah se devem, esses visitantes de jardim zoológico.
E se não?
E se não estiverem?
Tenho um impulso de tomar banho, de cantar, de engolir e gargarejar água quente e mijar no ralo e fechar os olhos debaixo da água.
Mas nada faço. Mas nada ouço.
Contemplo a face interna da cela, que reflete a mim e à paisagem atrás de mim, intransponivelmente igual. E a massa de macacão cinza e cabelo rapado que sou. Encosto o ouvido à porta hermeticamente encerrada. Nenhum som – a não ser aquele de colocar concha no ouvido e escoar o mar para dentro da sua cabeça, o mar fluindo sal e peixes entre os miolos, os sete mares com suas baleias e piratas e capitães submarinos e descobridores e náufragos como eu. Descobri alguma coisa – entre vergonha pelo orgulho e orgulho pela vergonha, observando as covas em meu rosto – alguma coisa que muitas pessoas mal podem vislumbrar.
Nenhum homem é completo até que mate outro.
[Há pessoas que mal podem compreender isso.]
Não.
Como era mesmo o nome do primeiro? Como era seu rosto?
Era bonito e poderoso.
Matar.
Eliminar uma memória. Eliminar outros olhos.
Memórias são perigosas. E as palavras, inimigas. Além disso, os fatos sempre podem ser transformados a bala. Eu matava em silêncio, olhando no olho do vivo antes que entrasse para o outro mundo – e capturava sua última luz. Por isso me chamavam O Poeta.
É.
Num canto, urino algo cinzento que desaparece como vapor. Urino de costas – de costas para quê? O silencioso campo verde parece iluminado noite e dia, ou será que meus olhos estão me traindo? Será que colocaram algo naqueles sanduíches e estou tendo alucinações? Nunca sei que horas são – aqui, o sol está sempre a pino, eterno meio-dia. Não será esta janela uma tela holográfica? Mas será que já não vi uma cena de campo como esta numa aula naquele primeiro Reformatório? Me lembro sim, agora. Os filmes sobre os homens bons e simples do campo. Os homens bons e simples. O homens bons. Os homens. Humanos. Humosos.
Não. Não eu. Eu não. Não oco.
Estes sanduíches temperados com drogas psicodélicas até que aos poucos vão ganhando gosto. Me recordam os canapés num triste jantar na casa de praia de Miranda. Quando me tornei o segundo no Quinto. Mas, mesmo sendo o segundo, e portanto um executivo, nunca deixei para outros o gosto em executar. Matar para mim era uma forma de escrever, era isso: meu revólver uma caneta cuja tinta nunca secava. Devia ter parado com isso quando cheguei a segundo – quatro carros na garagem, roupa legal, whisky e pó do bom, condomínio fechado, TV a cabo e o caralho. Mas aquele jantar. Véspera do duelo estúpido – o soldado dançando com Lucia num bar. E aquela comida que me virou o estômago. Lucia me visitando no xadrez, horas depois.
Corro para vomitar na privada. Estão rindo, seus filhos da puta? Nunca viram ninguém chamar o hugo?
Mas o quê. Não tem ninguém me vendo.
[Digo-lhe que não há ninguém por trás da porta.]
Digo-lhe que não há ninguém por trás da porta.
[Faces amorfas apontam seus indicadores, milhares de dedos me apontam, todos sabem, culpado, culpado, mas não é isso o que eu queria mas agora não adianta mais, nem sei quais são mais meus temores, escolha, traidor ou culpado, culpado ou traidor, incandescente é a luz que me cega, iridescente é a verdade que me esconde, onde, acorde, para onde fugir, fingir não adianta, o grupo me chama, o fogo vomitando culpas, coitados, mal sabem o que fazem, nem saberão, e eu, sei? nunca, nem ninguém, e para quem, e por quem, se alguém vem e refém, seqüestra minha consciência, nem lá nem cá, sabia que chegaria este momento – quando vier, você vai estar de que lado? traidor ou culpado, só existem essas duas únicas alternativas na vida e ambas conduzem ao mesmo lodo final, lobo de mim já sou, trinta anos não interessam, de agora em diante não terei mais pressa, e ultrapassarei vocês assim, sempre e continuamente, de culpado a traidor, de traidor a culpado.]
Não é?
Hein?
Hum.
Eu falei, falei e ninguém escutou.
Não: falo há horas e já perdi a voz. Discurso inconseqüência e não encontro ressonância nem em mim mesmo. Alguém poderá duvidar de minha tortuosa astúcia?
Não!
O que querem? Jorram litros de água do teto. O lixo que deixo escoa por ralos que se abrem de repente. Quando estou todo molhado, a chuva pára e um vento quente me provoca convulsões: em dez minutos estou seco, o vento leva todas as impurezas da célula, outra vez asséptica.
E volta o silêncio de todos os tempos.
Hum.
Foi uma resposta.
Não?
Talvez seja automático. A cada cinco ou sete dias, um banho. Passou-se uma semana? Quando medem trinta anos? Quando conhecia Lucia ela estava com vinte anos e tinha um rabo de cavalo dourado indo quase até a cintura. Vestia uma saia preta e uma camiseta branca de regata, carregava uns livros acho que de psicologia pela escada de mármore da universidade em que eu tinha ido tocaiar um professor que estava nos devendo uma grana em pó. Fiquei maluco, esqueci o trabalho e fui correndo atrás da menina. Paguei-lhe um suco, ela disse que fazia dança do ventre, eu trabalhava para o governo, fomos ao cinema, sua calcinha era branca e a atriz do filme já morreu, paguei-lhe um jantar num restaurante tailandês, um hotel em Maresias, um casamento na Granja Viana, um parto – ela não quis o aborto –, e paguei o filho que nunca quis ter, inclusive uma bicicleta, no cartão de crédito, em doze vezes sem juros. Lucia empinava o nariz para todos e os peitos para mim.
Seios duros, bundinha musculosa, e nervosa, de onde partia a mais oculta pele morena e moldada por danças sinuosas em que eu flutuava completo, até me naufragar no redemoinho de pêlos loiros em que eu me debruçava sobre mim mesmo e esquecia de tudo e me lembrava do que eu era antes que escrevesse versos com um revólver.
Lucia engolida por um redemoinho de flashes, câmeras. Olhos.
O que mais querem de mim, bons homens que me vigiam? Isto. Isto? Isto! Um pau que nasce de um mar encaralhado de memórias? Querem show? Vejam um pau de verdade, homens bons e simples, quando estiverem em suas casas digam às vossas mães e esposas e tios e professores eu vi um detento batendo punheta, feio, barbado, ele gritava mas eu vi quando ele esporrou no vidro e caiu no chão com um sorriso babando com aquele olhar de filme quando está nos créditos.
Eu não gozei.
É.
Não.
Hoje deve ser o centésimo dia que eu passo no Panóptico. Os cabelos crescendo crespos na nuca. Minhas roupas se desmanchando. Estou me desmanchando completamente.
E não me importo mais com o que exporto para www.panoptico.xis/3337878-k.end/.
Só me interessam essas duas bolinhas que jogo de uma mão para outra.
[Agora quero ver se conseguem ver o que eu vejo.]
.
Inverno, 1990.
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