Let’s go to bananas

novos agradecimentos ao amigo Ortinho

Acelga, kenny g e música new age acabaram com meu casamento, determino, enquanto reparto o bigode ao espelho e lembro-me das manhãs felizes em que não via barbeadores mas o palhaço Arrelia. Não acredito como vim parar nessa situação de quinta. Por exemplo, hoje é sexta de manhã, acabo de despertar da segunda balada da semana e já procuro por terceiras mulheres na agenda, já expectorando vontades por todos os pênis nos quais se transformará meu corpo debaixo da próxima lua cheia. Não, o espelho que não é o meu me diz: sou infeliz. Pois sim – new age ainda somente provoca asmas, hipóteses e tédio, vá lá; mas não posso com acelga, trazem-me pústulas à pele e epístolas à língua; e kenny g, então, esse, argh, cruéis ipsilones e arrotos nas virilhas. Que saco – já antevia minha chegada em casa, pegando Lúcia em posição de lótus escutando aquele sax de plástico, aquele cheiro de acelga com molho de alpiste e sementes de girassol no ar, ora vá tomar no cu e se lascar. Que puta saco. Meu pau virava um pinto. No ato. Por isso é que desde cedo já saía de casa na caça de outras mulheres. Por isso é que carrego essa mágoa de palhaço, cansada feito um mataborrão.

Toda semana uma mágoa diferente. Chegava em casa com trezentos perfumes no meio das pernas – perfumes que, não sei como, sempre eram vencidos pelo cheiro da acelga e por qualquer bosta new age. Porra, como é que isso foi acontecer, era o que eu me perguntava, arrancando meleca do nariz e grudando na lâmpada do abajur azul da nossa salinha-decorada-como-na-Revista-da-Folha. Porra, alguma coisa tinha que ter cheiro, como é que pode um negócio desse, nem meleca queimando arranca de nosso arredor esse imundo mausoléu de incensos indianos que ela compra toda semana na maldita feirinha da Benedito Calixto. Está certo que desde o começo estranhei o cheiro da sua buceta [isso na época em que ela ainda deixava eu chupá-la]. Só que então era trilha de lençóis, susto, medo e maravilha. Ficava horas por ali, o queixo doendo como se eu estivesse no dentista, o maxilar duro, minha cara toda babada nos líquidos que dela escorriam. Incrível. Nunca tinha sentido isso. Uma buceta em branco.

Tinha conhecido essa mulher debaixo duma chuva. Seu carro estava quase se atolando na frente do meu – numa chuvinha normal de fim de tarde em São Paulo – quando eu percebi seu desespero por não conseguir tirar o cinto de segurança e pulei de meu gol. Ao retirá-la do seu uno, notei que meu carro tinha sido levado pela enxurrada. E por pouco nós também não fomos. O caos e a lama. Dali em diante houve um espasmo na nossa relação, até nos reencontrarmos no mesmo hospital, para onde nos levaram depois que o Corpo de Bombeiros nos recolheu de dentro de um bueiro [onde havíamos ido parar, assim que a enxurrada levou nossos carros]. E se passaram três meses para eu finalmente ver-me verme, com pantufas de coelho, numa cadeira de rodas, saindo da sala de raio-X. Meu corpo estava completamente alvo.

Contaram-me os gentis doutores da nossa gaia ciência que nos deram banhos de cândida e leite condensado para nos retirar toda a sujeira que se colara em nossa pele, toda aquele maremoto de imundícies do meditabundo Tietê. Excelente tratamento, breve estaria na rua. Antes, entanto, conheci, ou melhor, reconheci Lúcia. Lembro-me como se fosse hoje – nunca havia visto mulher tão resplandecente. Fiquei totalmente apaixonado. Na esquina da alameda dos desgraçados com a rua dos desvalidos, entre UTI e raio-X, gritei para o enfermeiro: – siga aquela cadeira de rodas! Ah. A vi ave venérea, neve, nuvem, lembrei de tudo e esqueci mesmo o meu nome – feito macaco, estrambotei-me de joelhos no chão, o pau surgindo debaixo do avental, e lhe beijei os pés de asas. Guinchei – enquanto os doutores tentavam me retirar dali – que faria um templo de espelhos para vivermos juntos, por todo o sempre, e que teríamos um colchão d’água e dentro dele peixes coloridos, polvos e conchas e pequenos tubarões, quem sabe. Lúcia imediatamente viu em mim seu salvador da tempestade, por todos os corcéis brancos de Napoleão, e desmaiou nos lírios de sua cadeira de rodas.

Naquela noite, deixou aberta a porta do seu quarto. Penetrei nele feito peixe que reconhece seu aquário: de olhos cegos e nadadeiras precisas – no entanto, depiladas de liberdade. Seus olhos, negros antes da chuva, haviam ficado azuis, quase cinza-claros. Estava nua, com os joelhos regiamente flexionados, tipo assim o símbolo do MacDonald’s. E brilhava no escuro sua buceta. Nadei até ali espadanando feliz. Após algum tempo deslizando pelas ondas do seu aquário, notei-lhe o gosto – não de ostra, mas de pérola. Fiquei absolutamente maluco. Não podia acreditar: era o próprio white noise dos gostos. O Gosto Absoluto. Invadi aquele aquário com todos os meus líquidos. No dia seguinte mesmo, nos mudamos para um apê bacana ali no Sumaré.

Sou – sempre fui – um cara que preza a diversidade. Não é comigo essa história de monocultura, feijão, arroz, charque e farinha e cana. É por isso que me estranhei, assim, sem mais nem menos, quando me vi pela primeira vez comendo aquele negócio desgostoso. Talvez no meio dessa primeira saladinha de alpiste, semente de girassol e acelga acompanhado por um sensalúcido sorriso “não está gostoso, Wharton?” é que caiu pela primeira vez a ficha do que eu ia fazer – mas, engraçado, acho que meu aparelho já não funcionava, minha cabeça já não operava, eu era movido pelos delírios do meu pau dentro da Grande Buceta Branca. E fui comendo daquela salada e daquela xoxota por vários meses. Interessante notar que foi meu pau mesmo quem foi fazendo, aos poucos, ressair de mim um cérebro, e dele, sentidos – que, acho, me haviam sido castrados naquele hospital.

Aconteceu numa noite em que Lúcia repeliu-me “pois estava meditando”. Levantei-me, acendi um cigarro no escuro da sala. Observando os círculos de fumaça, lesmamente eu ressurgia por trás dos meus castos poros de leite, cândida e madrepérola medicamentosos. Tive uma aflição. Suei frio e pensei que fosse botar um ovo. Comecei a ouvir. Tocar. Sentir. Cheirar. Saber. Então compreendi o absurdo que havia feito: estava há um ano casado com uma mulher que conhecera num hospital, uma mulher que gostava de new age, kenny g e acelga. Puta que pariu!

Refleti que essa era a sina dos relacionamentos modernos. Numa festa, você conhece alguém que parece ser muito legal, mas que quando você menos espera, assim no meio de um jogo de futebol num domingo oco, ela coça o nariz e fala pobrema e menas e adevogado e imbigo e conta que votou no Collor. Mais ou menos assim que eu me sentia: um consumidor batendo na porta do Procon. Não sei como diabos consegui me enfiar num buraco tão fundo, só podia mesmo tê-la conhecido num bueiro que dava para o rio Tietê. Entretanto, apesar do alumbramento na sala, demorei a fazer alguma coisa para limpar a grande cagada. Quantos dias me desesperei tentando encontrar em seus olhos nublados aqueles brilhos de peixe elétrico abissal, retornado de suas virilhas banhado em lágrimas… só encontrava cheiro de acelga. Então, como todos os homens que perdem a fé, quis disfarçar e ser um impostor para mim mesmo. Como eu trabalho fora e ela quase não sai da sala de casa – onde atende como terapeuta corporal e taróloga, o que, para qualquer um mais imaginoso poderia transpirar a delírio e putaria, mas que, no seu caso, era só isso mesmo [e olha, “superprofissional”, ela dizia sensalícia, em seu sotaque da Vila Mariana] –, fui espreitá-la em outras mulheres. Todas iguais: olhos azuis, pele branca, cabelos cor de outono, pentelheira vermelha. Onde termina a vingança e começa a saudade? Andava de carro devagar, lupinamente passava por videolocadoras, colégios, confeitarias e cabeleireiras, procurando fêmeas que se lhe assemelhassem do lado de fora. Felizmente, do lado de dentro, todas elas com cheiros e gostos tão diversos quanto as paletas de um impressionista. Cada buceta uma boca que exalava a próxima fome.

Mesmo assim, com tanta sacanagem fora de casa, eu ainda voltava para ela de pau em riste, todas as noites, todos os dias, todas as tardes – sempre tarde demais, e no entanto o vazio entre nós era cada vez mais aumentado pelas músicas novas do kenny g [me recuso a grafar em caixa alta o nome desse anão musical], da new age e das cartas de tarô e das sessões de massagem em velhas gordas com bico-de-papagaio e saladas de acelga temperadas com óleo de girassol. Quanta tristeza, meu deus, eu sentia. Porque sempre, em cada mulher diferente, havia sempre a mesma mulher igual, aquela assombração que se acupunturava à pele. Foi nessa época, quando passei no médico para tratar de uma gonorréia, é que descobri que, nas águas pestilentas do mesmo rio que me dera minha esposa, tinha ganho uma estranha doença. Feito um terceiro olho. O que me desperta, hoje, uma nova esperança de dentro da minha prisão insípida e inodora.

Esta manhã. Observo a mulher com quem passara a noite vestir-se nesse quarto pobre de hotel – já nem procurava disfarçar minhas infidelidades, Lúcia se despreocupava de minhas ausências. A luz do sol rebatia em seus pentelhos ruivos, desaparecendo por trás da negra meia-calça. Uma mulher despida de todas as vaidades do mundo quando abaixa-se para pegar, do cesto de frutas que caíra no chão, uma mísera maçã. Um animal esfomeado, matando outra fome, pensei; pois uma fome leva a outra – assim como uma mulher a outra. Mas esta aqui parece uma fêmea intensamente simples, o que me comove até dar vontade de morder os cotovelos. Enquanto Lígia, não sei, talvez Lucrécia – todas as mulheres são iguais, todas iguais à minha mulher de acelga – arruma suas roupas na bolsa, lembro-me de Lúcia, antes de viajarmos em lua-de-mel para Puerto Vallarta, no México. A última – única – viagem que fizemos. Suas calcinhas e caleçons escapando pelos buracos da mala como línguas brincalhonas. Não, não há nostalgia: há apenas um grande cansaço. Pois antes houvera uma esperança – e toda esperança cobra por seus odores, e cobra caro.

Eu medito, na despedida alta e vaga da mulher sem nome, que o motivo de as mulheres sempre fazerem uma mala com muito mais roupas do que realmente vão usar é porque elas precisam levar muitas roupas para terem muitas escolhas, muito mais chances de decidir sobre seu destino – destino que, nas mulheres, é muito influenciado por aquilo que ela veste. Súbito, vem a recordação da voz de Lúcia no hospital, após nossa primeira noite de amor: em seu carro estavam as malas que preparara no propósito de fugir e mudar de vida. Só então percebo que, enquanto que eu era um pobre corretor de seguros indo trabalhar maldizendo a chuva, Lúcia fugia. Maldita coincidência. Eu fora a fuga. Por isso, sempre que fugia dela, para ela voltava – o bode que expiaria o pecado de uma mulher sem cheiro original.

Não posso com potássio. O tratamento no hospital me trouxera essa alergia, foi o que disse o médico. Fatal. Assim, dirijo-me à mesma cesta de frutas de onde Lígia ou Lucrécia retirou a maçã e descasco uma dúzia de bananas. Corto-as em rodelinhas, jogo um whisky vagabundo por cima e religiosamente como tudo. Ao espelho, olho meu bigode. Ah, de quantos sabores se tingiram esses pêlos… Cruzo as mãos no peito, espero. No rádio toca uma esquecida música de Carnaval. Graças a deus ainda posso sentir o gosto das bananas, penso, quando vejo pela última vez o vulto pálido de Lúcia vindo me buscar.

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Verão, 2000.

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