O enigma de um dia

“Só não queria que me levassem
para onde eu vim”
[Paulo Mendes Campos]

Eles estavam muito longe de nós, mas não a ponto de não se conseguir chamá-los com um quase sussurro. Certamente, naquela região do deserto o som se propagaria quilômetros pelo ar sem vento, de luz pura, luz quente que entrava aos ouriços em meu corpo e no de Zel – que fora, afinal, quem nos trouxera ali e que portanto não tinha o direito de reclamar. Este era, entretanto, um pensamento inócuo, – pois Zel jamais se queixava de nada, apesar da inadequada pele clara demais para este sol e do seio direito machucado [uma mordida de um lobo, duas ou três luas atrás].

Já eu, que não era [e nunca poderia aspirar a ser] Zel, voltei-me para ela com espinhos na língua:

– Você é uma estúpida, uma idiota, uma tonta, uma besta, uma retardada, um animal de tetas – e parei, cansado, pois o ar pesava tanto quanto um livro de Dostoiévski. Aproveitando a deixa, Zel entreabriu os olhos para mim:

– Obrigada. Mas mamãe sempre me falava que meu forte são os olhos azuis de porcelana imperial chinesa…

– A mamãe está morta, agora – minha voz fraca cortou – , e logo logo nós também estaremos, se você não der um jeito de tirar a gente daqui. – Levei a mão aos cabelos empastelados e fofos, vontade de um shampoo. – Eu não consigo acreditar até agora que você engoliu nosso único mapa!

Nisso, meu lamento torto à sombra da grande estátua foi aplainado por um vasto barulho. Correntes. Correntes, arrastando-se.

– É ela! – gritou minha irmã, rosto aberto. – A princesa presa na torre! Ela está… está chorando… você está ouvindo? Não é horrível, Tiago?…

Era mesmo horroroso o ruído das correntes se debatendo, embora eu não alcançasse o pranto da suposta princesa, ou de qualquer que fosse encarcerado na torre, – uma gigantesca construção cilíndrica, a uns dois quilômetros de nós, cem metros de alto por vinte de largura na base formados por pedras brancas que refletiam o sol –; embora eu não conseguisse enxergar absolutamente nada na minúscula janela no alto da torre [logo abaixo de uma bandeira vermelha e outra amarela, esgarçadas por um fantástico vento impossivelmente alheio ao nosso calor], eu não podia deixar de ceder ao terror que se fincava no início da minha espinha, levantando-se por todos poros e pêlos. Por isso troquei de assunto e voltei aos dois na distância:

– Você não acha que o Joaquim e a Chiara foram longe demais?

Sempre com sua voz de algodão doce, Zel sorriu:

– Acho que não. Estão só a uns dez metros da torre, dá até pra ver a saia de tule dourado da Chiara… aliás meio fora de moda já…

– Não é disso que estou falando – rangi os dentes para Zel; quando queria se passar por boba! – , estava dizendo deles dois, deles dois, dos dois e do bebê que ela…

– Ah, está com ciúmes? Ciumento, ciumentoooo…

Zel faiscando os olhos quase me punha maluco [mas sua brincadeira talvez tivesse um grão de verdade]:

– Não! Não é isso! É o bebê! Eles não podem ter filhos! Você sabe… é como se… e se… e se ela tiver um monstro?

– Não fala besteira, Tiago – ela levantou a mão: por seu tom de voz, tive medo. Zel irritada era como pássaros gritando no meio da noite, no meio do coração. – Ela não vai ter nenhum problema, porque eu vou achar o caminho do Padre Tião Quirino, e acabou-se. Lá, ela toma o bálsamo, e tudo bem. O bálsamo de Galahad… – Zel nublou os olhos. Eu ainda me afligia:

– Como você vai achar o caminho? Você não engoliu o mapa? E todas aquelas pessoas que morreram sem encontrar o bálsamo? Não é melhor a gente voltar pra casa? Quer saber? Acho que você está delirando, tá com febre, nem sabe onde a gente tá, tá surtando de novo, como aquela vez em que…

– Fui eu quem trouxe a gente pra cá, não foi? E eu não tinha dito que depois de atravessar o Vale dos Ossos a gente ia encontrar a Estátua do Cavaleiro Sem Cavalo?

Era verdade. Há doze ou treze luas, Zel me resmungou, em sonho, para que fôssemos rumo Norte. O mapa exclamava o contrário, eu contradizia, mesmo que ela sonambulasse, mas Zel rebatia: Norte. Depois que vencemos o Aqueduto das Almas [assim chamado por separar o nada do lugar nenhum; era um pontilhão de cerca de dois quilômetros de extensão por trinta de altura e cinqüenta centímetros de largura: caminhar nele sem o apoio de corrimãos dava o prazer de voar sobre as árvores azuis do Vale dos Ossos] nos deparamos com o melancólico perfil do Cavaleiro, náufrago de seu próprio olhar de mil e uma noites à procura de uma montaria que o levasse para longe daquele oceano cego aos seus pés. Minha irmã, após comparar os arcos precisos do Aqueduto com as claras construções mouriscas, numa rápida e irritante aula de história, nem bem esperou que nós três nos sentássemos à sombra da estátua: feito um desafio, sorriu doidamente e em seguida enfiou o mapa na boca. Rápido, mastigou-o e o engoliu, para nosso susto: jamais seus olhos e dentes faiscaram tanto. Joaquim e Chiara soltaram umas risadas nervosas – mas eu nunca havia percebido tão nítido o poder de destruição de minha irmã como naquele instante.

Quando éramos bem pequenos, tínhamos um gato, presente de nosso pai. Um persa negro chamado Aderbal – Aderbal era um amigo invisível que segundo nossa mãe tinha arranjado um emprego num navio e fora embora, portanto. Um dia minha irmã me acordara com aquele mesmo sorriso e olhos medievais. Cochichou que não agüentava mais ouvir Aderbal queixar-se a ela que era um homem preso num corpo de gato, e ainda por cima persa, que em sua vida de verdade uma noiva o esperava; não suportava mais ouvir Aderbal pedir para ser libertado e lhe deu uma injeção de álcool – e aproximou a agulha sangrenta da seringa até que meus olhos se ofuscassem com o horror do mundo tão de perto, tão de perto minha irmã estava vestida em seu sorriso de natal ou domingo pascoal; e ela me suplicava irônica, dentes brilhantes, que eu não contasse aos nossos pais, porque, afinal, agora Aderbal era feliz; e então, pediu-me para que eu a ajudasse no enterro do felino marinheiro, que fizemos catolicamente no jardim – era muito tarde para que o lançássemos ao rio, como eu queria –, recobrindo a terra com flores brancas, sepultura de onde, anos passados, surgiu o mapa rumo a Galahad que a louca Zel acabou engolindo depois. É bom explicar que ela havia sonhado com Aderbal, não o gato, mas o marinheiro, que lhe dissera que a cura para nossos pais estava em Galahad – o mapa estava inscrito numa tatuagem no bíceps direito de Aderbal, que Zel copiou numa sessão de transe hipnótico, nossa brincadeira predileta ao lado da levitação induzida e da comunicação com os mortos via copo de requeijão. Assim, sem que nossos pais soubessem, pegamos o guardanapo onde Aderbal rabiscara tortuoso o caminho para Galahad e partimos, eu, minha irmã e nossos vizinhos Joaquim e Chiara. Entanto, de toda essa história, o que mais me impressionara, agora rememorando, fora o sorriso de prazer de Zel, a agulha prata, frio corpo do gato; a força de minha irmã, a moldar meu mundo com seus olhos cor de céu, a envolver de véus nossas histórias para que nossos pais, de cama, não desconfiassem e definhassem ainda mais. Do meio dessas lembranças voltei ao insolente deserto. Oco, como uma doença traiçoeira. Aos poucos meus ouvidos assimilavam outra vez o som rude das correntes. Mas então ouvi, sim, o lamento agudo, rascando fundíssimo.

– Deve ser tão triste – minha irmã murmurou mole –, tão triste ter um corpo para carregar, para sempre, sem um cavalheiro gentil ajudando… imagina, um corpo frio, a espessura se modelando no aço das correntes… e você não sente mais o gosto do veneno dos escorpiões na boca… e você não sabe mais se o número de luas que se foram é maior que o número de luas que chegarão… e você não sabe se a lua existe mesmo ou se é um sonho em volta de um queijo, um sonho dos ratos que rodeiam você, com fome… Tiago… – Minha garganta raspava de aflição. Zel olhou por trás de mim, para o Cavaleiro: – Você não acha que essa estátua lembra o nosso pai? Lembra?… Ele chegava sempre com um casaco comprido que nem esse, e aí tirava doces dos bolsos… ou então a gente pulava nos bolsos e já ia tirando tudo…

– Você sempre pegava o chocolate maior – recordei, enfiando minhas próprias mãos nos bolsos do sobretudo, com uma espécie de saudade amarga na língua, uma saudade do tempo em que eu quis ser detetive ou ladrão internacional. Mas logo a lembrança se turvou com um som grave como de canhão, ou trovão – ou tempestade de areia? Joaquim e Chiara saíram correndo de mãos dadas. Por que Joaquim tinha que levar Chiara assim? Por que tinham que esperar um filho? Cada vez mais o céu se esverdeava, e, muito acima, o verde enegrecia: cremoso, concreto. As únicas estrelas visíveis eram Lúcifer e Vésper – aqui a essa latitude, um raro fenômeno ótico duplicava as aparições de Vênus. Um mar crespo onde duas bóias se afundavam. Não ia ser noite de lua essa próxima, e de novo nos perderíamos. Sempre perdedores… revoltava-me contra minha própria incapacidade, e contra a minha rendição a Zel, sábia irmã Zel, amada gêmea Zel . Tudo o que eu queria era ser o Joaquim – mas tinha um enorme temor até de pôr pensamento nisso, pois Zel poderia descobrir. Toda vez ela adivinhava o que eu estava pensando [por que eu nunca não?] como agora, quando vem com essa mumunha:

– O céu está parecendo o mar, não é, Tiago? Papai e mamãe levavam a gente pra praia nas férias, lá em Porto Angélico…

– Hum. Pois é, Zelzinha. O céu como o mar, e daqui a pouco vão cair uns peixes pra gente fazer sashimi, como em Porto Angélico. Por que em vez de ficar com lembranças você não acha um jeito da gente sair daqui, hein? Quem foi que comeu o mapa?

Outro uivo, outras correntes, outra explosão.

– Ouvi dizer de um trem que passa aqui perto, Tiago…

– Como assim ‘ouviu dizer’?

– É; um trem muito velho: um trem fantasma. Segundo as lendas do ciclo fabiano, ele é um sonho da princesa, assim que nem uma projeção, de tanta vontade que ela tem de sair, o desejo dela se transforma em um trem negro…

Levantei-me chutando a areia:

– Um trem fantasma! Um trem de verdade é que a gente precisa! Um trem para sair dessa viagem sem sentido. Olha, eu já estou cansado. Chegando em Galahad eu vou embora, com bálsamo ou sem bálsamo; eu deixo vocês sozinhos e continuo indo para o Norte, até chegar às grandes montanhas do inverno, onde tem uns amigos nossos do colégio. Não agüento mais essa terra seca, calorenta… e os seus sonhos… e aqueles dois lá…

– Eles vieram para ajudar os nossos pais.

– Ajudam muito, se beijando pra lá e pra cá.

– Você não sabe o quanto.

– O que você quer dizer com isso? – assustei-me. Mas de repente ela apontou na distância, gritando:

– Olha lá! – Seu chapéu alto caiu, conforme ela se agitava. – Eles estão chamando a gente!

E estavam mesmo. Joaquim e Chiara acenavam alegres, pulando, as pernas e braços abertos: assim, no longe, assemelhavam-se a duas pretas letra X saltitando numa página amarela, como dois rotineiros problemas de escola desenhado no tédio, o enigma de um dia quente com uma sala de aula solicitando uma professora chata e alunos sonados e um último na última fileira sonhando um sonho de marinheiro que havia se transformado em gato. Vendo o casal tão feliz, esqueci o mal-estar e peguei a pequenina mão de minha irmã, que ria dando gritos e saltitando em seus sapatos vermelhos; e fiquei contente só de realizar que eles pareciam ter encontrado alguma coisa boa e nunca mais haveria sofrimento, nem dor para Zel, nem para os nossos pais, nem mesmo para o filho que Joaquim e Chiara esperariam talvez. Menos ainda para mim [embora eu fosse de todos quem muito menos importasse neste episódio].

– Vamos!

Zel me puxava, os braços brancos brincando, o vestido negro esvoaçava feito uma arraia, o chapéu escuro e longo quase caindo; eu atrás, em minhas rotas sandálias destrançadas, tropeçando-me. E aos poucos compreendíamos a alegria daqueles dois: era o tal trem que se aproximava, – não um trem-fantasma como o da história de Zel, mas um milagre verdadeiro de Zel – um interminável trem de verdade enfileirando-se milimétrico em dezenas de vagões; rolinhos de fumaça clara suspendiam-se da locomotiva, e de lá explodia o som grave que eu supunha ser de tempestade, de tempos em tempos retumbando. Joaquim e Chiara, sempre de mãos dadas – não, ela ainda não demonstrava barriga –, continuavam nos chamando e se preparavam para subir num vagão. O que parecia ser muito fácil: estranhamente, o trem corria tão devagar que, pra falar a verdade, parecia estar parado e éramos nós que corríamos. Nós é que nos aproximávamos cada vez mais rápido dele, e minhas sandálias se desfaziam; a determinado momento achei que escapava sangue do ferimento no colo de Zel. Joaquim e Chiara entraram. Logo a seguir, subimos eu e minha irmã [ela, com uma vaga expressão de dor].

– Um carneirinho!

Minha irmã gritou para o bichinho bege com a voz mais alegre que eu já ouvira; entráramos, ao que semelhava, numa espécie de vagão-estábulo, fazendo companhia a uma vaca, um porco, um cavalo, e alguns cabritos e carneiros – todos dormindo, o que é estranho, assim como são estranhos os humanos quando dormem. A um canto Joaquim e Chiara acomodaram-se, numa fofa aniagem de feno; ela colocou a cabeça sobre as pernas dele, que brincou com os longos cabelos dela. Não, não tinha a barriga despontando, confirmei – mas olhos só para Joaquim, e vice-versa; conversavam, divertindo-se tanto, dando tantas risadas, como se não estivessem numa viagem tão perigosa como a que fazíamos: num mundo só deles moravam. Era assim que era? Alheia, Zel se distraía nos caracóis de lã do carneiro. Por fim, eu mesmo me prolonguei numa lânguida melancolia pela janela.

O som monótono me carregava para o mar do céu, e como era incrível que a Lúcifer e Vésper fizesse companhia a Ursa Maior – como era possível que a constelação brilhasse tanto? Sorri por dentro: nos firmáramos no caminho certo, no caminho do Norte. A estrada rumo a Galahad. Mas porque tudo parecia ordeiro demais, desconfiei. O trem devagar trilhava suspenso os dormentes na direção de toda noite que abraçasse a terra – tão lento, minha irmã fechou os olhos, de precipício sono, ou rara de sopro. Eu suspeitava de alguma coisa terrível, e temia por nossa sorte. Medo grande, finos dentes no coração: meu olhar se elevava pra fora do moroso monstro de ferro. No entanto, antes que meus olhos captassem o que realmente aconteceria, eu primeiro escutei. As correntes. As correntes, arrastando-se.

Agora, percebia. De corpo presente – e inteiro. O corpo pálido e quebradiço da Princesa, as veias explodindo resplandecente azul finíssimas sob as argolas de ferro velho, grudadas à parede. E seu grito longo, tão inescapavelmente longo, cristalino e ríspido, vidro moído a se corromper nos obscuros veios da terra, – aquela antiga terra amarela e chaguenta nos cadernos escolares, aquela amarelescência que se materializava do outro lado da estrada na imensa forma escura da Estátua do Cavaleiro Sem Cavalo. Talvez um pouco cansado e apoiando-se em seu fuzil, embora ereto, o suspenso Cavaleiro comprimia seu oceânico olhar para a Princesa enclausurada na torre, a mais alta torre a se perder no céu verde-negro. Agora, percebia. Nem precisava ver pra sentir os olhos azuis de Zel martelando sobre mim a descoberta de que eu agora sabia – a máscara caindo.

Joaquim e Chiara desapareceram no feno. O Cavaleiro espantava-se e a Princesa uivava. Meu coração era uma pedra chutada de uma montanha, pois eu compreendia nos olhos de Zel – ainda a acariciar o cordeiro – que a nossa brincadeira de Joaquim e Chiara não poderia mais continuar. Os irmãos, ou sombras de irmãos, separavam-se então pelo imenso trem. O último canhão foi disparado, e cessaram os demais sons. Tremendo de pânico, fui até Zel e entrelacei-lhe os dedos na mão fria, suada. E também acarinhei o cordeiro, sem porém conseguir encarar minha irmã. Mas tínhamos que prosseguir. Até Galahad, colher o bálsamo que curaria o ferimento de Zel, e as histórias tristes, e tudo mais. De mãos dadas, lado a lado, queixos levantados, continuaríamos seguindo até o Norte.

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Primavera, 1991.

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