“O sol há de brilhar mais uma vez,
a luz há de chegar aos corações.”
[Nelson Cavaquinho]
Acordou cedo para o dia do fim do mundo. Não queria perder o nascimento deste dia por nada. Enquanto tomava banho, pensava: quando vier, será como uma explosão ou um suspiro? Vivia só. O dia – entre preto e cinza-azulado – instigava-se pelas frestas da porta; o cheiro do café povoou suas narinas. Forte. Costumava fazer um café fraquinho, para economizar pó; mas hoje era dia do fim do mundo. Tinha que ser especial. Não, merda, negativo – só havia um pão de ontem, ou anteontem, e nada de manteiga. Tomou, enfim, o café quente de um só gole, como se ao balcão em saúde a algum amigo. Não teria com quem brindar, porém. Houve certa vez uma mulher – quando mesmo? Lembrava-se de umas calcinhas penduradas na torneira do chuveiro, de um cheiro extravagante nos verões, um escândalo e alguns bilhetes. Deve ter sido faz muito tempo. Se é que realmente existiu, ou teria sido um engano, mais um sonho do qual não se acorda nunca?
Apanhou a pasta preparada no dia anterior e observou-se ao espelho. O mesmo rosto, nem pior nem melhor. Necessário, essencial como a disciplina que o regia. Pois o bom em tudo era o método. Que criava a coragem necessária para o dia-a-dia. Coragem… para quê? Tudo tinha um motivo. Agora só tinha o fim, pensou, enquanto contemplava o sol surgir imune por nuvens densas – uma coberta de garoa e arrependimentos. Bom-dia, disse ele ao homem da banca de revistas. Um real e vinte e cinco, respondeu o jornaleiro, estendendo-lhe o jornal. As manchetes eram as esperadas. Haviam sido escritas já há muito tempo – e todos os dias sempre haviam sido assim, haveria de ser diferente hoje? O essencial era que todos parecessem muito preparados, nas fotos e nas declarações bombásticas – por mais que bombástico fosse um termo totalmente desprovido de contundência, hoje, o dia do fim do mundo.
Por trás da nuvem de fumaça, veio o ônibus, imerso num hálito de óleo diesel e alucinações maldormidas. Foi o primeiro a subir. Entre este fato e o fato de ter sido o último a descer, quase nada aconteceu. A não ser por um cochilo seu. Enquanto sua testa batia estupidamente na janela e a baba ameaçava cair em sua camisa, um sonho apoderava-se dele. Veio primeiro sob a forma de uma canção, uma melodia sinuosa e viscosa, que se enfiava por um ouvido saindo pelo outro convertida em serpente. Engolindo a cauda, a serpente escapou de seu ângulo de audição para uma espécie de cansaço tão úmido que até lhe brotavam uns ramos de musgos. Como se no fundo de uma caverna sem ecos, ele admirou seu rosto no espelho do lago interior. Mas não distinguia, no lago, o poço e a abóbada do teto da caverna – absolutamente respirando no negror, seu rosto não parecia o mesmo, era o que ele pensava. Teve um pressentimento que dentro de instantes ele teria um presságio, uma mensagem para ser interpretada mais tarde noutra língua. Quando o presságio veio, sentiu-o duro e seco como uma lembrança de amêndoas amargas amarrando a garganta. Quantos equívocos, ele gemia, segurando o presságio pelos sovacos como quem brinca com o filho recém-nascido. Entretanto, a criança subiu e girou pelo ar, desaparecendo infinitamente na pupila do sonho. Tinha manchado de baba a camisa branca. E alguém levara o seu jornal enquanto dormia.
Quarenta minutos e sete labirintos de ruas depois, do outro lado da linha férrea, assomava o gigantesco edifício da fábrica em que trabalhava, um triângulo sucumbido em tijolos negros e sujos pelos milhares de pombos que ali habitavam desde tempos imemoriais. Na estação, em busca de um tostão homens entoavam cruas ladainhas. Um cachorro vasculhava o lixo de um vendedor de cachorro-quente, que bebia uma cerveja comentando o jogo do fim de semana com seu companheiro da barraca de churrasquinho. Um adventista abanava-se do calor profano com um cartaz em que se lia ESTÁ CHEGANDO. O cachorro mascou feliz um pedaço de plástico. O sol há de brilhar mais uma vez, ele cantou, enquanto rumava observando o chão. COMPRE ANTES QUE ACABE, pedia o anúncio de algum produto qualquer, que ele se encarregou de pisar.
Mas o sol insistia em não abandonar as nuvens.
O crachá franqueou-lhe a entrada, acompanhado pelo semisorriso da recepcionista, do guarda e do porteiro. O telefone não parava de tocar, e a recepcionista só dizia uma frase: sim, estamos abertos. Estamos funcionando. Estamos funcionando perfeitamente, ecoou ele, coçando o bigode. O relógio marcava, no pulso fiel, prateadas oito da manhã. E a escada que subia o primeiro ao segundo andar mediam nada mais nada menos que vinte e dois passos. O que não deixava de ser uma alegria, um mistério e uma profunda falta de imaginação, refletiu, enquanto viu passando o chefe. O velho voltou-se e estendeu-lhe a mão, sem dizer nada, olhando-o fixo com aquele azul em que se condensavam o desdém, a pena e uma sempre atenta fome. Ele nada disse ao chefe; não era preciso. Após cumprimentá-lo e colocar-se a caminho, o chefe subitamente voltou-se, o ar meio apalermado. Sorriu, num susto. Nada não, murmurou por fim. Mais uma vez, ele perguntou-se que raios existiria na cabeça do chefe. Se é que o chefe pensaria alguma coisa, riu. Mas essa piada já não tinha graça. Seu olhar seguiu o caminho resignado do chefe até a sala do diretor. Teria até mesmo ele vindo trabalhar?
Os funcionários de seu departamento já se encontravam perfeitamente instalados em suas mesas. À sua entrada, eles disseram vagos olás, e retomaram a conversa, sobre um filme ou uma peça de teatro. Legal, a história, disse a secretária, e onde está passando? Eu vi num cinema do centro – um respondeu – mas parece que só ia passar até ontem. O terceiro, que estava mudo, começou um riso e parou na beirada. Apontava seus lápis de cor e espalhava cartolinas brancas pela mesa. Ele depositou a pasta numa cadeira enquanto sentava-se à sua grande mesa, já arrumada pela secretária. Virou-se para um quarto e um quinto funcionários, que tomavam o primeiro cafezinho do dia, e perguntou sobre um serviço, ao que eles responderam: – já foi feito. E voltaram a conversar sobre uma mulher que tinham visto, ou que tinham desejado, no final de semana. O terceiro funcionário pôs-se a desenhar, a sétima e a oitava usaram o telefone alternadamente, o nono escrevia ao computador e o décimo, o décimo-primeiro e a décima-segunda faziam anotações esparsas nas agendas.
Acima de todos, no alto da parede, o relógio marcava nove horas e o dia do fim.
Quatro horas depois, o quinto perguntou à sétima se ia almoçar – breve, a comunicação da fome já havia se dispersado por todo o ambiente. Até que a secretária, ao levantar-se, indagou ao chefe se ele também gostaria de ir comer. Mais uma vez, ele aceitou o convite, sem sentir nenhuma fome, e acompanhou seus doze funcionários como se fosse deles apóstolo.
Parecia até que todos tinham combinado de ir ao refeitório ao mesmo tempo. Os funcionários dos departamentos vizinhos, dos departamentos laterais, dos departamentos de esquina, dos de baixo, dos de cima e até mesmo os distantes funcionários que trabalhavam nos inacessíveis departamentos do outro lado, até mesmo esses vieram. Quase uma festa, não fosse a lembrança azeda do bife borrachudo, do arroz empelotado e do guaraná quente. Alegrou-se com a visita de um colega, chefe de outro departamento análogo ao seu, um que tinha sempre um bom humor incontrolável e piadas certeiras como flechas. Hoje ele havia coletado as manchetes dos jornais do mundo todo e mostrava para seus companheiros, quase chorando de rir. Olha só essa aqui: ENTENDA O FIM DO MUNDO! E eles colocaram até um gráfico embaixo, explicando como sair, como aqueles de dia de final de campeonato! Do campeonato passaram todos a comentar os resultados do futebol no fim de semana, os próximos jogos e os malabarismos de algum jogador famoso. Mas ele não acompanhava com muita atenção o bate-bola, envolvido nos olhos da secretária dos distantes departamentos do outro lado. Sentada ao lado do chefe dele, ela desenhava com a faca uma linha reta sobre a folha de alface, e elegantemente com o garfo conduzia o vegetal à tenra boca, sorrindo em seguida e dizendo algo que ele não podia ouvir, mas cuja música conseguia adivinhar. Por um breve instante, mais uma vez seus olhos se tocaram, recordando em seu corpo um desejo que tinha nascido muito antes dele conhecer o gosto do mundo. Nisso, o diretor chegou.
Ladeado por dois seguranças, o diretor sentou-se à mesa, ao lado do chefe dele, e o ambiente se aquietou um pouco. Tão logo, porém, a primeira garfada invadiu a boca do diretor da fábrica, as conversas foram ressurgindo e até algumas risadas sobrevieram. O almoço desenvolvia-se num curso reto, desembocando em cafés e sobremesas. Lentamente, os funcionários foram deixando as mesas do refeitório, voltando, com preguiça e passos surdos, às mesas de seus respectivos departamentos. Ele contemplou mais uma vez a bunda da secretária, que seguia seu chefe e o diretor, e também retornou ao seu seguro território.
Ao contrário do que havia imaginado, o dia transcorreu rápido. Havia muitos telefonemas e muitas pendências a solucionar, serviços que tomaram seu dia por completo, apenas entrecortado por cafés e idas ao banheiro. E então, os céus se escureceram.
Claramente via-se que já eram seis da tarde.
Notou de repente que os doze funcionários de seu departamento já haviam preparado suas bolsas, pastas e valises, prontos para ir embora. Silenciosos, de um em um vinham até ele cumprimentá-lo, sem dizer nada. Nisso, o gozador chefe do departamento vizinho resolveu passar para despedir-se.
– Até amanhã.
– Perde o amigo, mas não perde a piada – ele respondeu. Acompanhado do colega, desceu as escadas, acenou para a recepcionista, o guarda e o porteiro, dobrou a esquina e foi pegar o ônibus de volta.
O ônibus era um imenso paquiderme marchando a caminho da cachoeira. Tudo era tão longe que custava chegar a pensar se poderia, realmente, morar naquele fim do mundo. Balançou a cabeça para espantar esse outro pensamento idiota. Por que a vida era sempre moldada por estranhas piadas cujo fim não se sabe – e de que, ainda assim, rimos? Por que os jornais amarelecem mais cedo no outono? Por que os peixes não voavam? Percebeu subitamente que tinha muitas perguntas sem resposta, que imprimiam no ar em volta dele paredes indecifráveis, invisíveis, insuportáveis. Muitas perguntas sem resposta, como filhos sem mães, rios sem curso. O cobrador contava suas moedas e o motorista recordava refrões de velhas modas de viola. Com um humilhante gemido, o ônibus elefantemente desligou-se no ponto final. Era o fim da linha – mas ainda havia quatorze quarteirões de vielas, becos e ruas sem saída.
As televisões em todas as casas iluminavam as salas de estar com notícias do mundo sobre o fim do mundo. Os tons variavam entre graves, histéricos e francamente ridículos. À medida que ele retornava para casa, as salas iam se apagando, os portões se fechando, as janelas batendo para dentro. As luzes de mercúrio embaçavam-se, alguns cães latiam, ao longe; podia-se ouvir o som do vento. Os sons esparsavam-se cada vez mais, acompanhados das últimas emanações de noites elétricas. Sua casa ficava no final da rua. Antes de entrar, procurando a chave no bolso, ele ainda deu uma olhada na caixa de correio. Não havia cartas. Ele coçou o bigode.
A sopa era rala, mas era sua. Por isso, afrontava estrepitosamente a noite quieta, chupando a sopa sem a menor timidez, sentado solene à mesa da sua cozinha. Eram dez para as dez e ele já havia tomado um banho, feito a barba e vestido um pijama. Pensou em fumar após a sopa fria; lembrou-se que não fumava desde – desde quando, mesmo?
Foi quando o telefone tocou.
Correu para atendê-lo agarrando o aparelho no meio de um sinal. O fone, no entanto, nada dizia. Talvez, outro engano. Melhor ir dormir: havia trabalhado muito e sentia o corpo cansado. Além disso, era o dia do fim do mundo.
Cruzou as mãos sobre o peito – como treinasse para cadáver. Espiou o teto. Por um furo da janela, podia observar o céu. Aragem de chuva. Choveria, nessa hora? Então era isso, era assim que tudo acabaria? É muito pior do que eu pensava – e, perdido nesse morno espanto, adormeceu.
Neste sonho, era um menino surgido de dentro do poço da profunda caverna. Um menino maior, que corria e já dizia alguns palavrões e já havia furado os olhos de alguns peixes. O menino corria e pulava; de vez em quando, imitava outros animais, e até mesmo criava alguns animais imaginários com carvão, pelas paredes das ruas em que brincava, pleno sol. As árvores eram as primeiras e invariavelmente as mais belas, assim como debaixo de todas as camas havia monstros e tesouros escondidos. Como por exemplo o papel de seda e as oito varetas, a cola, a linha e o cerol. Construía um quadrado losango de várias cores, dispostas formando um símbolo que somente o menino conhecia. Montado na bicicleta, o menino soltava o guidão e empinava o quadrado contra o céu; soltava-o, a linha se desenrolava da latinha em seu braço e o quadrado lentamente diminuía de tamanho e crescia de altura. A bicicleta empurrava o menino para a frente, o quadrado puxava os olhos do menino para trás. Perdido nesse momento que o impulsionava avante e volta inteira volver, o menino flutuava junto com seu quadrado – coágulo de cores entre nuvens –, sem notar que chovia por sobre toda a cidade: uma tempestade envolvendo todas as coisas como um véu recobre uma noiva, como uma noiva recebe seu homem, como o homem sonha consigo mesmo, gerando a si próprio feito um filho. E então, um relâmpago atravessou o quadrado.
O telefone tocou novamente.
Há quanto tempo – ele ainda teve tempo de pensar, soluço engasgado num supremo esforço em convergir para dentro, e para longe, o clarão que cegava seus olhos, agarrando com desespero o aparelho –, há quanto tempo será que isso acontece, e até quando isso continuará a acontecer?
“Vamos cortar a luz”, disse a voz.
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Verão, 1999.
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