O país dos sonhos

para A. A.

Depois de ouvir os mais doces argumentos e driblar várias tentativas e enrolar sua própria vontade durante um ano, Flavinha decide finalmente dar a bunda ao Fê. Para degustar com toda pompa e circunstância o grande momento, o jovem casalzinho, que se conhecera via internet, cria um pequeno ritual, à base de velas, incensos, blues e pomadinhas. Pontualmente, ela o esperaria à meia-noite, toda sua, em sua casa – limpeza: no mesmo dia, os pais teriam viajado para a praia. Deixaria a porta aberta e prepararia uma surpresa, longamente antegozada em e-mails que combinavam romântica e milimetricamente a cena – Fê: de tudo ao meu amor serei atento; Flavinha: promete que vai pôr devagarzinho; Fê: como é uma noite especial não vou usar camisinha; Flavinha: antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto; Fê: vou te dar uns tapas na bunda; Flavinha: não esquece de pegar forte na minha cintura; Fê: mas que seja eterno enquanto dure; Flavinha: antes, quero que você passe sua língua no meu cuzinho. No caminho para a grande noite, o poderoso Audi de Fê morre numa esquina esquisita.

Na mesma noite, depois de jogar no cesto de lixo a última Playboy, seu Vavá, o zelador, enlouquecido por uma insônia que não o deixa dormir há duas semanas, resolve sair do quartinho e rondar o prédio. Flavinha liga o som, acende todas as velas e incensos e confere a lingerie Victoria Secret’s. Andar por andar seu Vavá anda alucinado, buscando cansar-se e dormir; talvez, sonhar. O capô do carro aberto, Fê não entende nada; pra piorar, a bateria do celular zerou. Flavinha ao espelho: mais gostosa que a Tiazinha. Muito melhor, pensa – falar inglês, decorar a tabela periódica e a programação de desfiles do FashionWeek não é pra qualquer putinha. O primeiro andar não oferece a seu Vavá nenhum trabalho que não seja retirar o lixo do corredor. Desistindo de ligar para a namorada, Fê caminha por várias ruas, desesperado por imaginar aquela bundinha sonhada dele agora tão próxima e distante.

Duas horas antes mesmo, Flavinha dá uma última olhada naquele site que ensina pompoarismo, pra certificar se seus músculos púbeo-coccígeos já estavam treinados: as milenares artes amorosas prometiam delícias divinas – e nenhum incômodo. Seu Vavá tinha uma hérnia no disco, o nervo ciático estrangulado e sazonais hemorróidas quando o Corinthians perdia, o que lhe despertava a insônia, e não encontra nada especial no terceiro andar. Já o mecânico que Fê encontrou torce para o São Paulo, conforme revela o pôster do lado de uma enorme foto da Tiazinha na oficina, e lhe diz que cobra quinze reais só pra dar uma olhada. Para garantir, Flavinha abre o tubinho importado de pomada à base de água – que custou cinqüenta paus no sex shop para onde enviou sua melhor amiga Alê, pedindo pelo amor de deus que não contasse para ninguém na turma o que ia fazer; o que, na verdade, queria que a amiga fizesse –, lambuza a pomada no dedo médio, e, sorrindo, pensa no pau de Fê. Nada, acho que o Alex joga muito mais que o Marcelinho – é a discussão de Fê com o mecânico, antes de chegar ao carro. As hemorróidas estão particularmente febris hoje, quando seu Vavá testemunhou a derrota do Corinthians por cinco a zero; nada também no quinto andar. A lanterna acesa, o mecânico profere o veredicto: velas sujas. Faltando cinco minutos para o horário preestabelecido, Flavinha abre de leve a porta da sala, volta para o quarto e deita-se de bruços sobre o edredom azul – estrategicamente esquecida ao pé da cama, uma foto de Brad Pitt. No corredor escuro do sétimo andar, seu Vavá nota uma língua luminosa saindo por uma fresta. Estranho – pensa o zelador –, os Valadares são tão precavidos, não iam deixar a porta aberta antes de viajar; um assalto? Fumaça de incenso no ar: devagar, a porta é empurrada. Velas ardem, em vários odores e cores, e uma música muito estranha toca no cdplayer. Fê olha o relógio enquanto o mecânico troca as velas: meia-noite. No quarto, Flavinha se masturba, expandindo e comprimindo os músculos púbeo-coccígeos cientificamente.

Girando no ar difuso do quarto ao fim do corredor, um pé dentro de uma meia negra é a primeira coisa que seu Vavá vê quando entra na sala. Aproxima-se lentamente e vê Flavinha com a bundinha redondamente para cima, vestida com cinta-liga e luvas pretas, rebolando insistente sobre as mãos.

Mas o mecânico não aceita cheque, assim Fê tem de procurar um caixa eletrônico. Em transe, o insone Vavá tira as calças e remexe no grisalho pau: incrível como vai ficando duro, depois de tantos anos. Por sorte tem um 24horas na esquina, e Fê consegue finalmente disparar a cem por hora no seu Audi. Vavá puxa Flavinha pelas ancas e abre sua bunda como uma flor – dela todos os poros agradecem e suspiram. De olhos fechados, arrepiada, Flavinha delicia-se com a barba meio malfeita que o namorado teria deixado – ai, como vai ser selvagem, e ele nem fala nada comigo, parece um estranho, igualzinho o que combinamos; Vavá abaixa-se e lambe entre as nádegas vagaroso, até chegar, em suaves e comovidos beijos, ao pequenino orifício, rosado, liso, brilhante como um pisca-pisca – assim, apruma-se, coloca seu pau exatamente em frente às nádegas; e, como Flavinha pedira, pega firme naquelas ancas malhadas em academia. Fê estaciona o carro em frente ao prédio da namorada. E então uma violenta palmada é desferida na nádega direita da Flavinha, que geme ai, Fê, enquanto Vavá irrompe subitamente pelas dobras de seu cu, ai Fê, seu animal – cada andar que Fê conta no elevador é uma estocada que o insolente pau do insone arremete por dentro da bunda de Flavinha, ai Fê, vai, mais forte, assim, isso, me fode forte assim, eu sou sua putinha – tensa, ela tenta lembrar-se de todas as frases que leu na Nova. No momento em que Fê, aliviado, percebe no apartamento os aromas e sons combinados, seu Vavá sua, bufa e goza; Flavinha, sentindo-se mais molhada, e também com um conhecido incômodo, percebe que é o momento certo para gritar: Fêêê! – então há um momento confuso, em que surgem uma bola chutada no ângulo de um gol, vozes de mulheres perguntando e aí conta como foi e uma dúzia de orelhas vermelhas – um momento infelizmente breve demais.

Lânguida, Flavinha vai se virando na cama gemendo e sorrindo – para daí o susto: Fê não está sobre ela, mas lívido na entrada do quarto, observando o pau – um pouco sujo – de um sujeito de uniforme saindo do cu de sua namorada, vestida de Tiazinha. No hall, outro elevador estaciona, ouvem-se vozes – que coisa, tinha que esquecer as chaves, a gente já estava na Imigrantes, olhaí, Flavinha, só porque você não quis ir com a gente; mas quê isso, que são essas velas? Seu Vavá arfa, Fê arregala-se, Flavinha leva a mão ao ânus dolorido; os pais entram no quarto. Então, observando ainda a inacreditável bunda que acabou de comer, seu Vavá cai duro na cama. Direto para o país dos sonhos.

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Verão, 2000.

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