for no one
Você não me deixou te beijar os pés. Eu ali parado enquanto as sombras passavam pelo céu anunciando o meu ridículo. E os açoites dos anjos. O frio pegajoso me entrava pelas roupas adentro: o frio da Vila Mariana, o frio das linhas telefônicas que traziam mal-entendidos. Teus pés inteiros, claramente meu caminho. Hoje, o deserto das estradas vicinais. Há quanto tempo escuto o inverno desse som de motor? Minhas veias geam. Você de vestido vermelho. Sem calcinha, sem sutiã. Fada safada. Depois, as fardas. Antes, porém, de baixo, eu, ajoelhado, via claramente – você era a planície que sempre surgia antes dos meus pesadelos. Ontem eu estava remexendo nos meus guardados e encontrei meu passaporte. Entanto, nele não se fotografava o susto dos meus olhos. Quem era aquele homem por trás das sombras? Era um tempo em que eu me sentia ultrapassado por minha sombra toda vez que saía do cinema. Eu parava e esperava a sombra passar para o outro lado da calçada; um vento em dentes doía na carne da nuca. Sempre a garoa. E o frio das pedras de gelo na vodca, na testa, nos pés. Nos teus pés que caminhavam, pés que nem tinham nascido, continuavam adormecidos num sonho de histórias em quadrinhos, lençóis brancos, guardanapos com recados e ilusões de ótica nas paredes. Teus pés tinham cheiro de terra, alecrim e chiclete tuttifrutti. Tuas pernas não. Tuas pernas já sabiam a manjedouras, cavernas, apocalipses. Do lado de um fliperama, você olhava para uma garota; sorria, dançava, ondulava dentro de um vestido preto, e os cabelos estavam irremediavelmente perdidos para a maconha e os shampoos e os estrobos. Naquela festa. Por quantas luas te esperei uivar? Acredita: estes grãos de areia que trago na mão esquerda formam a soma das nossas noites, em todos os milkshakes. Aí, a tal fase em que ouvíamos o pôr-do-sol. Na nossa cama azul, olhos cerrados, mãos unidas, fingíamos que mortos. Que trespassávamos o portal de marfim nadando num rio negro cujos tubarões de neve falavam: tenham muito cuidado com os dinossauros que balançam nas redes, perto do jardim dos perdidos atalhos. Gasolina, vaselina – quantas e quantas cédulas rasgadas, bilhetes de despedida, hotéis fugidos, polaróides mordidas, golpes mal-sucedidos! [E a fome. E as grades.]
Do lado do fliperama, você se aproximava da garota, uma garota tão parecida com você que eu acreditava ser eu: e lá dentro dela, como um baleiro, havia aqueles doces coloridos de que precisávamos para prosseguir vivos. Teus pequenos e únicos seios – quase só mamilos – leitosos e cheios de pintas, de dentro do vestido preto tocaram os seios da outra menina – eu podia sentir os seios se tocando, pois você era como eu: era eu. Encostaram-se – maldita, de novo minha sombra cai pelo bolso e vem me pedir fogo para um cigarro. Eu não tenho fogo! eu tenho apenas mil novecentos e noventa e nove grãos de areia ainda quentes pelas pegadas do sol. Sua mão na minha, o sol se punha. Quando as noites enfiavam postais na tua pele, você pedia para que eu te batesse na bunda. Espalmadas mãos, os açoites dos anjos. Quando sua bunda estava vermelha, o sol nascia e nós dormíamos com tanta fome e sede que talvez até mesmo morrido por alguns dias seguidos. Eu sentia a língua da menina em minha boca, líquida língua de espelhos. Aquela língua era fria, eu lembrava, enquanto procurava dirigir o carro somente com uma mão, para não perder os grãos de areia cerrados na outra. Um tempo em que as carnes todas se sabiam, e todas pílulas eram bebidas. Onde foi que nós três nos perdemos? Antes ou depois dos doces? Havia muita gente em volta, e a última coisa que me lembro é do fliperama. Impossível determinar nossa conversa com justificativas, desconfianças e pontos de fuga. Não, não, isso tudo foi mentira, confesso – desculpe, tudo eram invenções, coisas que eu imaginava, nós dois nunca nos havíamos nos visto antes da festa. Foi a primeira vez, eu, você; ela.
[Os limites.]
Havia um rio ali perto, com uma sombra que parecia um urso enorme. E muita eletricidade. Agora, não. Tentei beijar teus pés, como havia beijado os pés dela, passando minha língua áspide em volta dos pequenos dedos morenos que sabiam a teus mamilos, que sabiam ao meu pau, aos teus cabelos, à buceta dela, à tua língua, aos meus olhos – meus olhos vasculhando cada poro daquela noite.
[Tilt.]
Quando viriam os homens de farda, onde estávamos? Um urso debaixo da árvore – para sempre em teus pesadelos eu queria criar raízes. E os três procurariam no céu estrelas que nos dessem outra direção, outros nomes, outras vidas. Mas não encontrávamos, por mais que nos ajudassem os tubarões de neve. Por que choras? Porque isso é tão bonito, diz você; ou digo eu, ou diz ela. Então, ela, a outra, se vai, com flores nos cabelos e os olhos abertos: rio abaixo, lenta como uma procissão. Nessa noite, sua bunda estava rosada como esmalte; gelava sob o orvalho no meio da floresta. Eu gritaria: alguém me ajuda? Ainda sentia meu pau dentro da sua boca, quando subitamente me dei conta dos grãos de areia. O som do motor do carro, continuamente. E do outro lado do fim da estrada, a morada da minha sombra. Sinto os açoites dos anjos nas veias. Mas teus pés, estes sempre irão iluminar o meu colo.
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Outono, 2000.
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