para as mulheres do Recife, Vila Madalena e alhures
mas acho que eu vou me sentir mal depois, dissipa a Gabi, enquanto exploro as molhadas camadas de sua vulva, debaixo do vestido de tricô laranja aqui fora e das dúzias de contratempos e guitarras desafinadas e baixos e couros se espatifando lá dentro da festa. Há muito liguei o foda-se para as belas letras, as belas roupas e as belas fêmeas que colocam s no final de todos os plurais, mas, porra, quando Gabi me disse que gostava de participar de sarais sinceramente meu pau baixou quinze grais, digo, graus. De resto, nada a fazer: beber, dançar, brincar e aguardar que a Loira me violente o nariz com seus algodões, no banheiro em que estiver vomitando minhas cruzes. Prosseguir é conseguir. Ai, que gostoso… então, não é bom? Por que não vamos para minha casa? Moro três ruas para cima desse bar, aqui mesmo na Vila Madalena. Meus dedos vibram ora leves ora rápidos; será que a Loira pode escutar o tesão que eu tenho por ela, semeado por minha língua nos mais íntimos pavilhões e labirintos desta garota? Garanto que lá é bem mais confortável que esse jardim de inverno cheirando a cocô de cachorro, menina. Hummm, tá, mas espera um pouquinho que eu vou ao banheiro. Não, definitivamente não concordo com aquele cara: a palavra tesão é impositivamente masculina, quem tiver alguma dúvida é só pegar no meu pau agora. No claro escuro da festa, escuto uma voz lambendo meu ouvido. Hein? Foi vista onde? Tem certeza que era a Loira? Certeza? A sussurrante sombra soçobra entre as outras. E outro cigarro. Outra tosse. Outro mal-estar no peito, que dissimulo para agir a noite toda sem preocupações. Só. Para onde agora? Sim, a cobertura do Pina de Copacabana.
Ah, que essa morenidade me mata, nada melhor que a morenidade pernambucana, tu conhece o Beco do Vento?, pois então, meu amigo – meu amigo Xisto empurra os óculos amarelos para cima do nariz, espalhando suas consoantes fortes pelo alto do bar, abraçando trôpego sua morena namorada –, tu precisas ver, dá seis horas da tarde, chegam os ônibus e elas partem em revoada, suor vazando pelos cotovelos que dá vontade de deixar ali a boca aberta e lhes captar o moreno sumo diretamente para a língua, ah, caixas de supermercado, domésticas, vendedoras, secretárias, assistentes de telemarketing, todas com seus afazeres avatares duma existência simples em noites brancas e nas longas horas do dia olhadas pela janela, vez em quando no meio de uma mijadinha no wc da firma elas percebem que a vida jamais lhes sorrirá – meu deus, como esses pernambucanos são gregários e verborrágicos, assim cercado de amigos falantes eu não conseguirei jamais achar a Loira – , e é por isso que eu lhes sorrio quando o vento do Beco do Vento abençoa suas machucadas pernas, apaziguando as tenebrosas chicotadas do cotidiano que deposita seu bálsamo mentiroso nas dobras generosas de seus corpos macios, ou então, para minha maravilha, suspendendo tecidos ao léu dos meus olhos, um entrecho de seio, uma vaga calcinha, umbigos, nucas, esse sim o meu Liso do Sussuarão particular; mas tu, mano velho, queres explicações para a morenidade enquanto procura por loiras? Tome um pedaço desse azulzinho aqui: é só colocar embaixo da língua e esperar. Loira? Não, mano velho, entendesse nada, estou a lhe falar da morenidade e vens com essa de Loira? Só a que conheço é Comadre Fulôzinha, que habita as enconsas do sertão e da zona da mata, e sempre que aparece do nada lhe pedirá um cigarro, tens um cigarro? Tenho, mas você nessa idade já fuma?
Tenho dezesseis e fumo desde os doze, fabula a menina na Prainha, beira da Avenida Paulista: você realmente acredita que o mundo se divide entre elaborados e espontâneos? Menina, eu não acredito em nada, esta vida é um grande supermercado e eu queria apenas que você fosse a cereja do meu bolo comprado a 14,99 reais. Garçom, mais uma! Eu detesto esse lugar, não sei por que vim aqui, odeio esse pagode mauricinho que tocam e por outro lado odeio as pessoas que odeiam pagode mauricinho porque é música de ralé, ahhhhhh, não há como escapar dessa cruel transformação do mundo em logotipo – você veio aqui porque está atrás de alguma coisa, todos nessa noite estão atrás de alguma coisa. Ah, é, sabidinha, e você, o que procura? Quantos cílios, ó, quanta alegria. Ela se senta no meu colo, sua mãozinha no meu pescoço é tão suave, toda ela tão suave, suave, suave, quando você não tinha nascido essa palavra ainda não existia, meu amor. Luana murmura sempre gentil: o que eu preciso é de segurança, não de alguém que fique dividindo o mundo em apocalípticos ou integrados, quem assistiu ou não a Apocalipse now, quem lê ou não a Folha, quem foi ou não a Trancoso, quem tem ou não barriga de cerveja. Garçom, mais uma! Bem, só posso te dar um beijo – me deixa lamber teus dentes? Li isso num livro e fiquei com vontade de fazer, deixa? Ela se senta no meu colo e Carô, sua amiga, fica nos observando de fora, nós dentro desse bisonho ritual nos sorrimos os três, os dentes de Luana na minha língua um arabesco de movimentos retilíneos uniformes; docemente, uma umidade se asperge de sua bundinha em meu joelho. Preciso ir ao banheiro, já volto, não fujam, vocês fiquem quietinhas aí ou vou comer vocês duas e palitar os dentes com os ossinhos de suas lívidas falanginhas.
Ora, para que escrever como quem faz um organograma? A pura vida, a pura vida, cansei de tomar vodca batizada, cansei de fumar erva malhada, meu cartão de crédito venceu, quero que se decrete o carnaval os trezentos e sessenta e cinco dias, meus olhos jamais serão de novo funestas fenestras mas sim sacasacasacasacarolhas, arados, bolsas de aeromoça, girassóis e espadas e hóstias, meu olho direito será uma vulva e o esquerdo o Wolverine, Loira, aqui vou eu! Subindo as escadas até o wc, fios desencapados e inscrições como aqui nasceu e viveu vovô ou júlia e júlio natal de 1997 ou celacanto provoca maremoto me lembram das paredes da Soparia, que depois Roger levou para a Rua da Moeda no Recife Antigo, se transformando no Pina de Copacabana, você tem um cigarro? Me desculpem pela chinelice, mas se tem algo que detesto é dar cigarro a mauricinho, ora, meu filho, venda um pé desse seu tênis importado que mais parece um jacaré e compre quantos marlboros o seu câncer no pulmão lhe permitir! Eu, hein – o cara vai escapando pela tangente. Mas, peraí, acho, não é estranho um sujeito me pedir cigarro no banheiro? Não será um sinal? Volto-me, puxo o fulano pela gola da camisa florida, escuta aqui, cara, qual é a tua? Pode me falando tudo o que sabe da Loira! Me solta, porra, tá louco, meu? Não me resta alternativa que puxar a arma do bolso e grudá-la à têmpora direita do mauricinho, vamos, meu rapaz, sabe o nome da minha pistola aqui? É Luana, e sabe por quê? Sabe por quê? Nnnnnnnão – ah, porque será que ainda tem neguinho que se impressiona tanto com uma porra de um revólver a ponto de gaguejar? Será que já não estão bem acostumados com a violência exposta ao útero nos filmes que a Globo passa toda segundona? Escuta aqui, seu bundão, Luana é a mulher mais linda do mundo, está lá embaixo me esperando com sua amiga Carô, e se tem uma coisa que ela detesta, meu rapaz, é esperar. Portanto, vá dando logo a letra e me diga tudo que sabe sobre a Loira! Nnnnnnada, eu não sei nnnnnnnnnada – olha só, meu rapaz, mais uma gaguejada dessas e seus miolos vão virar decoração de azulejo. E no que digo azulejo, ele já está olhando por trás de mim: viro-me e consigo a tempo ver uma mecha de cabelos loiros escapando pela janela do banheiro, filha da puta! Largo o mauricinho e quebro os vidros da janela, pulando para o quintal. Ahhh. Mais uma festa.
Essa Loira quer me enganar, mas não tem como, eu vou pegá-la de qualquer jeito. Estou na sua captura desde que sou pequeno; entretanto, ultimamente, tenho-a pressentido cada vez mais perto – a cada bar, a cada balcão, cada festa e cada banheiro sua presença mais próxima, nunca tão próxima quanto hoje. Mas que noite é esta? 31 de fevereiro de 2000, sim senhor, Dia de Todos os Fugitivos, ontem, agora e sempre, amém. Perto de um pequeno chafariz, golfinhos de pedra cospem água e espumas em louvor às mulheres finas que circulam pelo jardim em vestidos de vinil dourado, azul royal, laranja, amarelo, negro. As pessoas desfilam nesse bar como se fossem peixes. Vivem como num aquário, parece que já nasceram numa vitrine. Eu não. Eu sou um felino à caça de peixes, hei de enfiar nessa água doente todas as minhas patas, sem medo de tubarões ou polvos. Somente há o risco de ser hipnotizado pelos olhos insones desses peixes coloridos, o risco de acreditar em suas poses e em suas roupas compradas numa liquidação da Oscar Freire. Tomorrow! Talvez poderia ter sido ontem! À distância, reconheço o aboio: é o Agente Sorall. Um dos nossos. Ele trabalha na Divisão dos Não-Lineares. Camaleões que fingem que não são o que na verdade não são. Canta alto e bate no chão o pé com força de trezentes caruaruenses, a batida embolada do solado de seu 752 mais alta que o putz-putz-putz-putz-putz-putz da muzaquinha estroboscópica. Yesterday é claro! Tomorrow talvez poderia ter sido ontem! As pessoas se afastam dele, constrangidas. Ninguém entende os Não-Lineares. Outro cigarro. Outra tosse. Sorall, que bom encontrar você! Viu a Loira? Meu irmão, olhe só, nunca vi um negócio desse não, que mulher gata do caralho… não, Sorall, não é daquela, estou falando da outra, a Loira, não viu não? – tu já tá empenado, é? Não, tou bonzinho que só a porra, tás percebendo não? Vira-se de lado e vomita. Sorall é uma das poucas pessoas que conheço que conseguem vomitar de lado, enquanto conversam com você, sem que você perceba. Tem muita classe, mesmo, além de dançar feito um Barishnikov do sertão, ou quase, um quase artista. O mundo se divide entre os que fazem e os que aplaudem. Sorall é um ser limítrofe entre esses mundos, o que lhe dá um certo ar esquizofrênico, o que lhe garantiu um emprego certo na divisão dos Não-Lineares; onde já trabalhei, inclusive. Olhe, tem uma coisinha pra ti, pegue; era um bilhete – notei imediatamente a caligrafia enviesada da Loira.
[sim, meu querido Agente Especial, você tem razão: enquanto uns dormem, outros desarrumam a cama. Só existem dois tipos de jogos no mundo: os finitos e os infinitos. Os finitos são jogados para se ganhar, e os infinitos, para que continuem. Ou seja – ou se joga tênis ou se joga frescobol; por isso, os jogadores infinitos jogam esperando por um dia serem surpreendidos. É por isso que eu só tenho saudade do que eu já não lembro. E é bom que você entenda – apesar desta ser a hora dos pântanos lilases, toda mulher é inquietação e espera. Você nunca vai me pegar. Mas pode esperar: eu vou pegar você. Beijos, Loira]
Maldita, cuspo para Sorall. Como isso foi parar no seu bolso? Não sei, menino, só que uma hora eu desmaiei e quando vi já estava ali. Como vou encontrá-la? Alguma pista? Não, menino, só lhe digo isso que acabei de descobrir: óbvio é aquilo que você sempre não sabia! E o óbvio da vontade é aquilo que você não pensou, você fez! Entendesse? Entendesse? Yesterday é claro! Tomorrow talvez poderia ter sido ontem! Diabos, por que será que as pessoas duma hora pra outra deram para falar como num espelho em enigma? Nunca nos veremos face a face – despeço-me de Sorall e vou para o balcão. Enquanto procuro formular uma sentença qualquer tipo assim vovó viu a uva, procurando me recobrar de meu assombro, feito uma formiga que circula pelas peças de um quebra-cabeça, chamo o garçom: um road movie noir sem motor e sem gelo, por favor! E aí, mano, tá sumido, nunca mais piou aqui no Matrix, que é que tá rolando? Muito trampo? Relaxo no balcão, viro o sal na mão, o limão na boca e a tequila e tudo pra garganta. E, lentamente, contemplo o pôster de Elvis Presley rebolando em Jailhouse Rock na parede, ao lado de dois índios navajos e uma foto de Marylin Monroe. 1977. O quanto chorei por aquele balofo entupido de drogas e cassinos e hinos evangélicos. Hoje sei: Elvis não morreu, porque sempre foi uma mentira. Já sei. É buceta, né, irmão? Buceta é foda, me sibila Rodolfo, o garçom, mandando outro chorinho de road movie noir pro meu copinho. Buceta transtorna a vida do cidadão. Que é que rola? Ela te largou ou tu que deu um pé nela? Ah, mano – eu resvalo – é uma merda essas meninas de hoje. Tão moderninhas quanto puras. Agora mesmo estava com uma do tipo que não fode nem sai de cima. Toda noite é assim, essa noite não parece ter fim… Se tem papo, não tem papeiro; se tem papeiro, não tem papo; se tem os dois, estou bêbado demais pra saber o que é o quê. Se pelo menos eu conseguisse encontrar a Loira… A Loira, mano, tá maluco? A Loira já era. Debaixo de sete palmo agora. O Rodolfo tem um nariz enorme, nunca vi, o cara a dez passos de você parece que funga o teu cangote. Gente boa, pena que é palmeirense. Seguinte. Eu não posso falar agora sobre a Loira, tá ligado? Olha para os lados. Esquerdo: os olhos atentos de Gighia, o dono do bar, um pitbull com o emblema do Corinthians tatuado no coração e topete endurecido com sabão se estendendo a vinte centímetros da testa permanentemente frisada na falta de humor. Direito: os olhos atentos de Léa, a garçonete mais assediada em todos os tempos, sua calça jeans suja abaixo da cintura, sua camiseta suada, seus ombros bons de morder, seu rabo-de-cavalo suspenso sobre a tatuagem de sol na nuca, seus seios celestes e carnudos, seu jeito solícito e altivo – serviçal a quem muito gostaria de servir. O mundo se divide entre patrões estúpidos e gentis princesas. Outro cigarro. Outra tosse. Fala, Rodolfo, qual é? Vai negar essa história pro teu camarada? Quê que o Gighia e a Léo têm a ver com a Loira? Eles viram tudo, mano, me cochicha o narigudo. Foram catar uma doida que tava distribuindo pó e punheta no banheiro das mulheres e viram a Loira lá. Velho, o que eles me contaram… mas fala, porra, o que é que eles viram? Como foi que a Loira morreu? Ela tava incorporada nessa mina, mano, nessa mina louca de pó, cara! Quando o Gighia e a Léa abriram a porta do banheiro, a mina, que era loira, ficou morena, e caíram uns algodões de seu nariz, uns algodões com sangue. A mina tava morta! Ah, Rodolfo, e tu quer me dizer que a mina tava possuída pela Loira? Quer dizer que a Loira morreu de over de pó? Quer dizer que uma loira virou morena? Brincadeira, maluco. Achei que tava falando com um profissional. Morena ficar loira vá lá, mas o contrário… Assim, você nunca vai acertar tua promoção pra Agente. Já que você diz que ela morreu, o que me diz disso aqui? Tiro do bolso da jaqueta de couro o bilhete que o Sorall tinha me dado. Mas, quando o mostro pro Rodolfo, o bilhete já não é um bilhete, é um flyer de uma rave numa ilha na Represa do Guarapiranga.
O flyer anuncia a Era de Aquário ao som de um dj com nome de sueco mas que eu sabia que tinha nascido na Vila Maria: pelo jeitão do convite, a festa vai ser o máximo. Estrobos, malabares, caras metidos a besta, pirofagistas, óculos escuros, ninfetas perdidas, lurex, drag queens, poseurs, luz fluorescente e batidas regularmente hipnóticas, crescentes, circulares. Uma menina pequena e muito loira se aproxima de mim enquanto eu estou distraído e me enfia um comprimido na boca. Are you experienced? are you? you? ela ecoa, montando de novo em sua bicicleta cor-de-rosa e saindo toda elegante pelo bosque. Onde estaria a Loira? Diabos, estou de saco cheio desse narrador off. Alguém sabe onde é que desliga essa porra? Danem-se as hermenêuticas, a sociedade do espetáculo, os atos falhos, os simulacros e principalmente a Escola de Frankfurt. Quando eu preciso, esses caras nunca me ajudam, como por exemplo agora, em que tenteio um percurso minimamente satisfatório entre transes de Bali e tranças holandesas, mas simplesmente me lanço à pista de olhos fechados – já que ninguém dança com ninguém mesmo, vou aproveitar esse momento para tentar abstrair o paradeiro da Loira. Ainda sinto a mão úmida de resvalar nos lábios internos da Gabi – por onde andará? Superfícies, superfícies: le Poète se fait voyant par un long immense et raisonné dérèglement de tous les sens, e ainda vêm me dizer de densidades psicológicas, stream of consciousness, linguagem-código, filologia românica, a Semana de 22, plano e contraplano, a influência dos jesuítas sobre o barroco e os 12 Pares de Carlos Magno – isso é nada perto do sorriso da morena no balcão. Densidade psicológica? Para que psicologia se temos a revista Caras? O mundo agora são derivativos na Bolsa de Valores, a alma acabou, meu caro amigo, Dostoiévski sim era feliz, por pior que tenha sido ser gago e sifilítico, por pior que tenha sido ir para o paredón e escutar dos fuzileiros enganei um bobo na casca do ovo quando as metralhadoras se silenciaram e aí ficar para sempre marcado por esse patético episódio, por pior que tenha sido testemunhar a tortura de Raskolnikov entre ser e não ser e por fim covardemente abraçar o Evangelho – nada será pior do que este purgatório de plástico colorido sem esperança de redenção, esse risonho parque de diversões eletrônicas em que se costura nossa existência sem juízo final: minha alma, lembro-me bem dela quando caiu de meu bolso e se confessou para dentro de uma jukebox. Que então fiquemos com o puramente narrável: corta/ corta/ corta. Vou buscar uma cerveja.
Se eu venho sempre por aqui? Claro, eu vivo aqui, me devolve Jade, a garçonete que mais parece um pássaro de silicone, com quantos dentes se faz um sorriso perfeito? Eu nasci aqui, antigamente tinha uma hípica na ilha, meu pai cuidava dos cavalos, eu vivia solta no meio deles… Aí comecei a andar de patins. Seus patins não funcionam na grama e ela me pede para que eu os tire, está na hora de ir para a pista. Tiro também suas meias, e logo estou deitado no mato beijando seus pés moreno-claros. – Seu filho… bem… seu filho nasceu sem alma. Sinto informá-la. A senhora pode conferir aqui na radiografia. Por favor, assine aqui. – Foi o que me disse o médico que fez o parto, Jade me gorjeia os olhos verdes, tristemente, ao mesmo tempo em que mostrava a breve cicatriz na barriga. Ei, mas o que é isso, você não tem umbigo?! Pois é, depois que o meu filho nasceu e o médico disse que ele não tinha alma eu achei melhor fazer uma cirurgia plástica, sobrou só essa cicatrizinha, uma mulher que dá à luz um filho sem alma não pode ter umbigo, acho que eu vou fazer uma tatuagem, o que você acha de uma tatuagem balinesa, ou tribal? Celta? Maori? Eu acho que você não precisa disso, você tem a barriga mais linda do universo, respondo, e é verdade, ao mesmo tempo dura e macia aos meus beijos, le vrai est toujours beau et le beau est toujours bizarre. Ei, o que você acha de irmos ali no universo paralelo? O que é isso, moça? Eu sou um rapaz de família! Vamos, você vai gostar, ela ri. Cerco: onde está seu filho? Ah, não sei, vendi para a ciência, estava sem grana e precisava pagar o aluguel e o convênio médico e o crediário das Casas Bahia. Você não sente saudades dele? O universo paralelo é uma tenda debaixo da qual nos instalamos num sofá de veludo vermelho; em volta, noturnamente alguns casais de diversos feitios fazem a festa. De vez em quando sinto uma saudadinha, mas acho que foi melhor assim, eu não saberia o que fazer com um menino sem alma, imagine se ele resolve atravessar a rua sem olhar? Se ele decide ficar explorando as tomadas da casa? Se ele começa a se atirar do décimo andar? Que educação eu poderia dar ao garoto? Você tem razão, cicio, obsevando seus pequenos mamilos, beges círculos de onde com certeza se extraiu o primeiro número pi. Mas e o pai, o que acha disso? Ah, o pai… eu nunca soube quem era o pai. Na época eu saía com três caras, um não sabia do outro, e nenhum soube que eu estava grávida, porque eu fugi para o Recife e com a grana que ganhei na venda do moleque fui para a Índia. Só lá é que eu recuperei minha paz de espírito. Seus cabelos tão preto sheherazade aliso aliso aliso, pedindo mais histórias. Voltando ao Brasil, passei pelo Marrocos e fiz a cirurgia. Mas antes de chegar em São Paulo desci em Recife e conheci uma garota chamada Comadre Fulôzinha.
Como é? me arregalo. Repita esse nome. Sim, Comadre Fulôzinha, uma princesa de maracatu. Foi ela que me iniciou nos mistérios de Elêusis, nos enigmas de Lilith e nas pedras dos orixás, Jade me assopra; seus dedos deslizam pelo meu pescoço, sua boca tão próxima de meu ouvido que acho que sua voz nasceu lá dentro. Me conte mais sobre a Comadre – por acaso ela era loira? Sim, loira sim, galega, descendente de holandeses, mas sua mãe foi para o canavial ainda pequena e lá conheceu os Salustianos. No meio da mata, Fulô menina levava uma flor na boca, quando surgiu Mestre Salu e lhe tomou a flor com os dentes. Salu estava preocupado com a guerra entre seu maracatu e um maracatu inimigo, que já tinha matado dez caboclos de lança. Lá fora enfiam cada vez mais batidas dentro de cada minuto, surdas, sujas; meu coração busca acompanhá-las e dói. Aí Fulô preparou, com ervas secretas, uma bebida que leva o nome de azougue. Mestre Salu venceu a guerra, mas antes que se casasse com ele Fulô foi morta afogada, numa lagoa salobra; desde então, todos os guerreiros de maracatu, antes de se apresentar no Carnaval, tomam azougue e põem uma flor na boca. Segredos. Sim, vou me deixando levar pelo estuário cristalino que é a voz de Jade, seus dentes me puxam e repuxam a pele da nuca; suas pernas envolvem-me a cintura como duas serpentes. Ela não usa calcinha. Mas você já conheceu alguma mulher interessante que use? Mas espere aí, essa história está malcontada: como é que você conheceu a Fulô se ela já morreu? Ahhhhhhh – Jade enfia todos os seus caninos no meu pescoço, furiosamente; tento me desvencilhar, mas ela é muito forte e suas mandíbulas não saem de mim, empurro suas mãos que se enterram nas minhas costas, procurando saída, grito, os casais continuam trepando, não me ouvem no meio do transe dessa música, ninguém me vê, e os dentes crescendo milímetro a milímetro dentro da minha carne, a música cresce, estremece, parece que vai explodir, ouço da pista todos gritarem, o corpo de Jade é feito pedra, meu revólver, meu revólver – bang! Jade estrebucha cascavel no chão, acertei bem no meio de sua barriga sem umbigo, pronto, já voltou a ser uma mulher normal; logo logo se levanta, vem atrás de mim: preciso fugir dela, tropeço, ela me pega uma perna, não devo olhar para trás, somente uma saída, uma saída, um homem de cartola e bengala, tranco a porta, cheiro de pinho sol mijo azulejos brancos meu pescoço uma paçoca de sangue e agulhas correm por minhas artérias, avanço para dentro de um reservado escutando as batidas de Jade na porta do banheiro, ou serão os tambores modais os ritmos eletrônicos os baques soltos?
Abro a tampa da privada e sem pensar vomito todo o pente de meu revólver no vaso: agora não há mais tempo para mistificações bang monólogos bang interiores bang citações bang em francês discursos livres bang indiretos bang flashbacks bang falsas memórias bang futuro do presente, pois do reflexo nas águas turvas do vaso metralhado surge Ela – a Loira do Banheiro – a assombração que persigo desde pequeno, vestida de noiva longos cabelos brancos olhos pretos de caveira narinas lotadas de algodão, beija-me a boca, amor, com sua boca vermelha, agora você não me escapa – mas não, não é ela quem diz isso, sou eu mesmo, aqui dentro do vaso preso aos fatos enquanto a Loira me observa irônica do lado de fora, sua imagem se borrando líquida e incerta nos meus olhos, outra tosse, outra dor no peito, a pura vida na flor rubra regurgitada de minha boca à sua e nos tambores silenciosos avançando para dentro da carne da primeira e última mulher que me envolve com todas suas águas em busca da próxima viagem
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Outono, 2000.
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