Y

} [janelas: um bebê num bercinho dormindo, um velho e uma bengala, uma mulher que chora, um homem vendo TV, um moleque fumando, uma mulher estranha numa cadeira de rodas; cartões postais: um barco singrando a neblina de um mar escuro; um minotauro preso num labirinto, saudoso de sua realidade de animal ou de homem, ele não sabe bem; uma mulher que tenta adormecer contando anjos que a levarão para o outro mundo; duas mulheres fazendo amor; uma mulher nua contemplando um esqueleto com um olhar misto de curiosidade e ternura; três prostitutas aguardando a chegada de um cliente nas ruas vermelhas de amsterdam (e eu não consigo desviar o olhar do bebê dormindo, que deve morrer antes de ver tudo isso se articular num pesadelo – morra, bebê, antes de descobrir que inocência é somente uma idéia inocente: por favor, por mim, afunde-se no travesseiro e colha desse tecido o fruto doce da morte pura)] X {é preciso uma história que se articule a partir desses díspares elementos, e ainda dizer alguma coisa e causar forte impressão no leitor, tudo isso partindo da idéia de alguém que observa alguém de alguma janela de algum prédio perdido na noite dessa cidade solitária [o belo, já dizia baudelaire, é sempre bizarro; mas para que essas epígrafes sem silhuetas?] que contém naquela casa, adiante, na sala de estar daquela mulher que infelizmente nunca aparece, aqueles três manequins a me observarem sem cabeça: uma de tailleur cinza, outra de vestido de crepe roxo, a terceira de vermelho babydoll; e eu sigo tentando amarrar disparidades numa narrativa quando uma motocicleta no meio da noite joga os jornais com as notícias de ontem à frente da guarita do sonolento vigia, que mal sabe ler, que mal distingue FHC de THC, ACM de IBM, MST de LSD [o mundo são siglas reclusas, exiladas, e minhas mãos são exíguas para o sofrimento daquele outro mundo que corre pelos bares atrás de bebidas e paixões desaguando no torvelinho dos lavabos sujos em boates sem classe e sem saxofone], e enquanto os carros passam na rua em ondas meus olhos piscam e minha cabeça dói – é impossível condensar as emoções e as imagens numa borboleta pregada entre as quatro paredes de uma página: no final, talvez só permaneçam mesmo os bocejos, os soluços e um que outro tropeço engraçado, nada faz muito sentido enfim, o jeito é ordenar todos os elementos em alguma lógica peculiar sob um título fugazmente indócil (afinal, os anjos já não choram mais por nós): mas não é isso que o leitor quer, não?; ele deseja uma história em que se reconheça ou em que ao menos pressinta a sombra de um conforto, e embora todos os cigarros acabem, da minha janela tudo vejo [como é triste ter acesso a todos os livros do mundo e ser incapaz de imprimir uma só vírgula com estilo], quem sabe essa seja apenas uma noite ruim no meio de tantas, mais uma noite sem régua e compasso a escrever como se fosse o lápis a baqueta de um jazz desenfreado, o que é muito pouco, eu sei, para oferecer a qualquer leitor [desculpe-me], não passando de uma tentativa adolescente de se comunicar, balbuciando feito um débil mental ou um tímido tentando conquistar a garota de sua vida, melhor deixar tudo para lá e ir dormir (mas antes, uma última dúvida: será mera impressão minha ou aquele bebê está ficando mesmo roxo?)

; ou quem sabe, quisesse apenas aproveitar a ausência dos pais para um prazer proibido, que somente o pensar fazer isso já lhe solicitasse um gozo por antecipação, a palavra, em si, do proibido lhe fazendo cócegas no céu da boca – por onde, como se sabe, passa todo o mal conhecido e também o imprevisto, quer a palavra estivesse por dentro ou por fora do corpo o mal estaria sim contido na iminência da própria ponte, como se da simples possibilidade se impusesse a presença do obscuro, do oculto, do falso: todo mal deve ser relativizado, porém, pois o que é ruim para outra pessoa pode ser a estrada principal para uma, deve-se então tomar muito cuidado ao se saber que para aquele menino o mal se instilaria na fina verdade de um mero cigarro fumado às escondidas, depois de um jogo de futebol no qual seu time perdera; e que ele, como desculpa para fugir a essa derrota tão infame, a infante ele preferisse o jogo dos adultos e suas mentiras e artifícios, como o gesto de acender um cigarro e fumá-lo, não com seus amigos em uma brincadeira de meninos, mas sozinho à noite, em seu apartamento deserto, jogando à janela um olhar sobre as outras vidas – talvez vindo da vizinha, que talvez seja sua filha, uma mulher que chega carregando livros; talvez do laboratório, um velho que chega cambaleando; talvez do trabalho, um homem que chega carregando uma maleta; talvez do bar, uma velha que chega enxugando as lágrimas do rosto; talvez da faculdade, um menino que chega suado; talvez do namorado, uma menina que chega com os seios duros explodindo sob o vestido, ofegante, as maçãs do rosto muito vermelhas, os cabelos esparsamente caindo até a bunda, e que fecha a porta batendo-a com força, dando duas voltas na chave, encostando-se teatralmente à porta, como que aliviando-se de algum perseguidor, embora ela saiba, no íntimo, que o perseguidor – como aliás ocorre a todos nós – reside dentro dela mesma; entretanto, ela ainda não conhece em todo esplendor a força dessa realidade, e tenta ocultá-la sob a máscara de medos mais plausíveis e talvez não menos intrigantes, quais sejam o temor de ter sido vista fazendo aquilo, ou o temor de ter feito algo errado, ou o temor de ter feito o certo do modo errado, ou o temor de que aquilo a pudesse ter violentado de alguma forma que ela mesma ainda não inferisse, ou o temor bastante débil e dúbio de que algum dia se arrependa de ter feito aquilo que fez – apesar de, como já descobrimos, todos esse temores serem fichinha perto do problema real, que é como um poço tão escuro que não sabemos ser ele um poço de ancestrais águas ou apenas um poço oco –; assim, ela precisa se acalmar, e pensa que um chá talvez resolvesse esse coração que palpita tão rápido, de uma hora para outra seu coração está sempre palpitando tão rápido que ela mesma não sabe o que fazer com ele para que se aquiete, e a deixe pensar em coisas mais amenas, como quando era criança e só se preocupava com o que iria ganhar no natal ou com o enigma dos discos voadores, entanto agora ela cresceu e seu universo perdeu as bordas, e ela quer ainda mais rasgá-las e devorá-las até o limite entre ela e tudo que há em volta, essencialmente, tão violentamente amoroso é esse coração, que no máximo de sua ternura possa ser talvez um leão adormecido, um leão que dorme em um desenho de rembrandt adornando seu criado-mudo, presente que ela ganhou do pai, astrólogo, como um desenvolvimento figurado da metáfora que era ele ter trazido à luz uma filha nascida sob o signo solar de leão com a lua em câncer; assim, é como um leão lunar que seu rosto resplandece quando ela ergue suavemente a xícara de chá de camomila, com as duas mãos, e seus olhos se fecham levando dentro de si aquele sabor que é como um outro lar, uma rede balançando recordações macias e serenas – aquilo que nós chamamos saudade; uma saudade anterior mesmo à própria camomila e ao ato de tomar chá: uma saudade animal de saciar de doce uma sede doce; e ela, suave cristal de pés nus, pela sala passeia segurando a xícara na altura do coração, sentando-se em frente à janela, por onde vê, através da fumaça que redondilha seu rosto desamparado, um velho com uma bengala, uma mulher que chora, um homem vendo TV, uma mulher estranha, um bebê num carrinho, um moleque fumando, pessoas que, na impessoalidade do domingo de últimos ruídos nessa cidade que trouxe as estrelas do céu para o chão e enviou ao céu toda sujeira de seus desejos e suas dúvidas, poderiam ser para ela de um lado a profunda ferida da efemeridade dos tempos, da angústia essencial que contorna a banalidade da vida de todo dia, absurda por igual, e seus seres que se acendem ou apagam conforme a luz de outros seres, mas que, fundamentalmente, sabem na carne que seu fim está próximo, não importe quão largo e sem freios seja seu coração; e, por outra via, sua mera existência seja uma garantia tênue de continuidade, esperança e apoio – talvez até por conformismo, em sua beleza simples de seres que funcionam como brinquedos de algum deus distraído, funcionando tão perfeitos, cada um em seu papel, que só essa mera existência já seja um bom augúrio; ou, ainda, e quem sabe mais próximo da delicada realidade, fossem essas pessoas uma forma de dissipar outras imagens, de outras eras, desiguais, que vão se aquietando mansamente, feito um pecado que de proibido passasse a comum e aceito, de uma chuva que se tornasse cheiro de terra molhada, de um jogo perdido que esquecida a tragédia se convertesse em anedota – algo de que se precise fugir para reencontrar, do outro lado, refeito em outra linguagem, essa sim mais preciosa porque útil para refazer um mundo: entretanto, antes disso, para formular esse pedido, talvez fosse necessário descer entre uma realidade e outra o véu de uma fumaça

ou ainda porque quisesse pensar em outra coisa que fosse exatamente isso), pega o baseado aceso, leva-o à boca, puxa a fumaça que a completa – mas então é só um instante dentro – para daí jogá-la, verde fumaça densa, à sua frente; desfeita, dela faz-se ao seu redor a cidade de neblina, em prédios noturnos que acendem por trás de enevoadas luzes o infinito de enormes vidas: dissecá-las: rasgar o mistério que rege as luzes que se explodem tragando os mínimos gestos dessa noite – um velho que chega cambaleando, talvez da faculdade; uma velha que chega enxugando as lágrimas do rosto, talvez enraivecida; uma mulher que chega carregando livros, talvez da vizinha, que talvez seja sua filha; um menino que chega suado, talvez do trabalho; uma criança que chega enrolada numa toalha, talvez do futebol; uma mulher que chega já abrindo sua bolsa, talvez do laboratório; um homem que chega carregando uma maleta, talvez vindo do bar: ele tropeça no tapete e cai, deixando cair a maleta, que se abre, mas então ele a fecha rapidamente, com estrépito passando-lhe trincos e cadeados com segredos, como se não quisesse que se abrisse jamais, e a empurra para longe de si, perto da parede, ainda no chão, contemplando-a como se fosse uma jaula que contivesse uma serpente venenosa de obscuro país interior; na parede há um pôster gigante em que se vêem, em p&b, os rostos de john lennon, de perfil, e de david bowie, de chapéu, o que o faz sentir uma gigante necessidade de ouvir música, pois se sente sozinho após a noitada que teve, e agora, bêbado, a solidão lhe pese mais nos ombros, como uma canga ou uma mochila de exército quando em guerra vadeando por algum charco vietnamita, e assim ele quer ouvir tomorrow never knows ou warszawa (músicas que parecem não ter fim, depois dessa noitada tudo o que ele quer é escutar algo que não tenha juízo final); procura os cds pela bagunça da vasta sala em que móveis se espalham como bois no pasto mas não consegue encontrar, preso que ficou por um quadro impresso na página de um livro sobre veneza, mostrando, em tons esmaecidos – luz matinal encobrindo a ilha povoada de alvos edifícios mouriscos –, a triangular e perfeita ponte de rialto, por baixo de onde ondulam gôndolas e barcos mercantes, e por cima de que uma sombra viceja em plena luz do dia de veneza, uma sombra que está ali talvez como uma marca da noite que se foi há tão pouco tempo, uma sombra que chega tremulando como uma bandeira de luto talvez vinda da terra das sombras, pois que seja um homem de chapéu preto e vestes também negras que está ali debruçado no parapeito desde a noite anterior, quem sabe desde que o mundo é mundo, olhando para as águas de rialto e segurando uma foto na mão, com fome, frio, sede e uma foto na mão a levá-lo para um lugar muito distante, aliás a dois, essa foto é uma ponte que o leva da noite anterior a esse lugar colorido e cinzento ao mesmo tempo, pois respira uma atmosfera verde e suja, a paisagem de um grande parque em uma cidade grande, gigantesca e gris urbe fazendo skyline a um parque cortado por imensas avenidas em que desliza uma quantidade absurda de pessoas, um parque cheio de árvores, ele que as vê tão pouco, já que em veneza quase não se vê vegetação a não ser em alguns jardins interiores ou no parque próximo à piazza san marco, mas não é exatamente isso que lhe chama a atenção e sim um detalhe: um homem solitário sobre o viaduto que adorna as avenidas feito formasse um túnel, olhando para os automóveis que passeiam como se fossem barcos, pessoas indo e vindo para seus destinos concretos do dia-a-dia ou não, pessoas que vagueiam sem direção, ou na direção de alguém que as comanda, de um lado para o outro, como fantoches – e ele, o homem solitário do viaduto, sente-se ao mesmo tempo assim, manipulador de bonecos, e muito cansado, tão cansado que muito provavelmente sem a menor complacência se jogaria em meio a seus carros-barcos-bonecos e misturaria sua matéria a eles, sangue e ferros retorcidos, músculos e óleos ferventes, miolos e fluidos de freio, linfas e vidros, e mesmo seu corpo destroçado em meio a outros corpos destroçados, conjugando-se novamente ao sabor primordial da unidade do ser, num híbrido homem-máquina, minotauro cujo corpo fosse um trem e a locomotiva uma cabeça, vagando por um labirinto infindável até que alguém de fora pusesse ver e, em uma mão um frio fio de ariadne, em outro uma espada de exata lâmina, penetrasse no mistério da noite labiríntica e o pudesse tocar, libertando-o de sua aparência monstruosa, e o fizesse finalmente uma unidade divina, canonizado, crucificado por perseu em um altar pervertido – mas ninguém chegaria, jamais, e o homem, depois de horas no viaduto que leva ao parque do ibirapuera, na cidade de são paulo, caminharia horas noite adentro parando de bar em bar, levando sempre sua maleta ensebada e pesada contendo um segredo inviolável e venenoso, até chegar em sua casa e jogar-se no chão atrás da música que o completasse como uma mulher fiel, como uma gentil e amorosa namorada: sem encontrar o som, porém, ele decide com todas as forças que ainda lhe restam abrir a maleta; puxa-a, rastejando, até a mesa próxima à janela, onde irá parar, fascinado com as luzes da cidade – talvez vindo da vizinha, que talvez seja sua filha, um velho que chega cambaleando; talvez do laboratório, uma mulher que chega carregando livros; talvez do namorado, um homem que chega carregando uma maleta; talvez do trabalho, uma velha que chega enxugando as lágrimas do rosto; talvez do futebol, uma criança que chega enrolada numa toalha; talvez do bar, um menino que chega suado; talvez da faculdade, uma menina que chega com os seios duros explodindo sob o vestido – talvez ele se mate, talvez não – pois talvez o homem sobre a ponte não creia em pontes para sonhos, talvez sim; ele abre a maleta, contempla-a eufórico, e dela aos poucos se evanesce um estranho vapor iluminado – seu rosto resplandece – e então é só um momento dentro – que ele lança, cinzenta fumaça maravilhosa, à frente da menina: desfeita, dela faz-se ao redor a cidade, em prédios noturnos que acendem por trás de pequenas luzes a imensidão de muitas vidas, que se acendem ocultando os mínimos movimentos dessa noite, dessa noite de neblina em que, pensa ela, poderiam haver pontes que a levassem para longe dali, que fosse ao lado de quem queria, e, porque ela precisa no mínimo inventar, e também porque estivesse sozinha em casa, e de vestido, e com os seios duros, ela enrola um baseado (no entanto, talvez não quisesse pensar nisso, nessa noite de vestes claras, ou quisesse fazer outra coisa

ou talvez não, por isso pego o cigarro aceso, levo-o à boca, puxo a fumaça que me enche – e então é só um momento dentro – para daí devolvê-la, azul fumaça corpórea, à minha frente; desfeita, dela faz-se ao meu redor a cidade, em prédios noturnos que acendem por trás de pequenas luzes a imensidão de muitas vidas: devassá-las: penetrar no segredo regendo as luzes que se acendem ocultando os mínimos movimentos dessa noite – um velho que chega cambaleando, talvez vindo do bar; uma velha que chega enxugando as lágrimas do rosto, talvez da vizinha, que talvez seja sua filha; um homem que chega carregando uma maleta, talvez do trabalho; uma mulher que chega carregando livros, talvez da faculdade; uma menina que chega com os seios duros por trás do vestido, talvez do namorado; um menino que chega suado, talvez do futebol; uma criança que chega enrolada numa toalha, talvez do laboratório; uma mulher que chega já abrindo sua bolsa, que talvez contenha um envelope palpitando dentro: abre-a, vê surgirem um espelho, um batom, uma caneta, uma câmera fotográfica, uma agenda, um perfume, (eu sempre gostei de vasculhar o conteúdo das bolsas femininas) um walkman – dentro dele uma fita de john coltrane, dentro dela uma música que tenta apreender o universo, dentro dele alguém que escreve tentando apreender um instante –, um pente (ela tem cabelos loiros, longos, largados), uma calcinha preta, um livro de cortázar chamado manual de cronopios, em espanhol (ciosa desse silêncio, ela lê com os lábios o nome de julio na lombada, várias vezes, como num mantra supersticioso), um tíquete-refeição, um tíquete para um show a que ela não foi ainda ou nunca, uma embalagem de batatas fritas pela metade, uma carteira em que há uma nota de um dólar para dar sorte, e dois micropontos de lsd e uma foto de seu pai e um cheque sem fundos que regressou ao lar, um desodorante sem perfume, uma escova e uma pasta de dentes num kit de avião (cortesia jal), um cartão-postal em que se vê, em p&b, um portal coberto de hera, e por trás dele um miúdo barco singrando um oceano cinzento e revolto, e por trás da figura escrito em letras velozes e azuis *o tempo é um automóvel contra o muro // olha, júlia, não sei se poderei continuar por muito tempo aqui // talvez volte para são paulo para continuar a dar aulas de violão // talvez volte para o sertão // talvez vá para paris // talvez é uma palavra deliciosa // não acha? // beijos, júlio // saudade mata a gente @morro de são paulo, março de 1998*, e após contemplar essas letras furiosas, júlio olha para um envelope azul à sua frente, coloca o postal dentro dele mas logo o retira, guardando na gaveta do criado-mudo o envelope, e em seguida olhando para a cama suas roupas amassadas que logo se enfiarão dentro de uma mochila velha verde do exército ele coloca o postal no bolso da camisa branca e os óculos escuros na cara bronzeada e a mochila sobre os ombros e sai do quarto, sem dirigir nenhum olhar para trás (superstição sua, de muitos anos, centenas de viagens), mas, contrariando sua mania, retorna para pegar de dentro da gaveta o envelope fechado, e só então caminha lentamente até a recepção da pousada com a chave do quarto 107 na mão, para daí depositar uma rota nota de cinqüenta nas mãos da recepcionista que lhe devota um olhar úmido e fervoroso, como de última amante, mas ele nem liga para esse olhar e segue pelas ruas de areia e terra da ilha para chegar logo à pequena agência dos correios aos cuidados de que deixa o postal por alguns centavos, já completamente suado por causa do sol ofuscante das duas da tarde (conforme ele olha no seu relógio de bolso prateado) e por causa da mochila que, pesada, dói-lhe profundamente nas costas, mas talvez não, não seja somente essa dor que júlio sente, ainda não sabemos (talvez nunca), só pressentimos e ele também que essa dor é exageradamente funda e tão sutil que ele mesmo ainda não a percebe, como se fosse uma semente que acaba de soltar suas raízes, raízes que embora ele sempre tenha cortado, de qualquer lugar ou qualquer situação, rodeavam-lhe o corpo como misteriosas plantas carnívoras ou serpentes de obscuro país interior, e é por isso que ele caminha muito rápido até o porto que o levará de volta ao continente, não tão cedo quanto ele imaginava, pois o menino de dentes podres pelo guichê lhe anuncia solene que os barcos só partirão amanhã, às seis da manhã portanto júlio deverá retornar ao porto, por enquanto ele pensa em ir à praia, uma vez que já pagou a pousada, e deixar-se ficar na areia à sombra de um coqueiro, até dormir, sem sonhar, tonto de calor, despertando com o som grosso das marés que sobem lambendo seus tênis rasgados e fazendo com que ele olhe espantado para o céu constelado e veja uma estrela cadente, e tão espantado, até assustado e com um pouco de terror ele fique, que tenha uma vontade louca de fumar um cigarro, desafiando ao atlântico bravio e à via láctea com a fumaça que sai dentro dele formando estranha ou quem sabe conscientemente a letra j, fazendo com que ele, a despeito do vento quente e da maré cheia e das estrelas cadentes para as quais não formulou nenhum pedido, pense em júlia, que encontra finalmente o envelope azul: antes de abri-lo, porém, ela envolve os ouvidos com um saxofone e fecha os olhos, dançando sozinha pela sala branca, rodopiando uma valsa torta (não podemos ver se sorri ou se tem a garganta presa), parando de repente em frente à janela, escancarando o olhar para as luzes da cidade – talvez vinda do bar, uma mulher que chega carregando livros; talvez do namorado, uma velha que chega enxugando as lágrimas do rosto; talvez do laboratório, um menino que chega suado; talvez da vizinha, que talvez seja sua filha, um velho que chega cambaleando; talvez do futebol, um homem que chega carregando uma maleta; talvez do trabalho, uma menina que chega com os seios duros explodindo sob o vestido; talvez da faculdade, uma criança que chega enrolada num cobertor – talvez júlia pense em júlio, talvez não – júlio talvez nem esteja pensando nela, e talvez sim; sem tirar o jazz dos sentidos, júlia tira da bolsa um isqueiro e põe fogo no envelope – seu rosto ilumina-se à luz das chamas que se deliciam sobre letras azuis –, aproximando em seguida dos lábios o cigarro que retira da bolsa e do fogo o cigarro que de fumaça a preenche – e então é só um momento dentro – para daí devolvê-la, azul fumaça corpórea, à nossa frente: desfeita, dela faz-se ao redor a cidade, em prédios noturnos que acendem por trás de pequenas luzes a imensidão de muitas vidas, que se acendem ocultando os mínimos movimentos dessa noite, dessa noite nebulosa que talvez não traga estrelas cadentes, ou talvez sim

, entanto, nada é muito seguro nesse porto do mundo, menos ainda nesse atual ponto a que chegamos, e onde chegamos? a um apartamento vazio de calores, como se eu habitasse, ao invés de um edifício, uma gilete, o topo de uma lâmina a qual me agarro na esperança de dividir o mundo em dois, antes e depois de mim, e depois de mim, o que é que pode existir? garotos no posto em frente, dez andares abaixo, às três da manhã de domingo passeando por entre bombas de gasolina desequilibrados sobre seus skates, voando e se arrebentando no solo liso oleoso, para quê? eu pergunto, nervos e vozes e músculos aflorando numa agitação inútil, daqui do alto dá pra ver o que vai acontecer a eles, vão se apagar – como martela em meus olhos a insônia – naquelas estrelas que se encerram nos prédios ao redor, que entreperscruto, sentando-se em frente à janela da sala, através da fumaça tímida soprada pela vela vermelha que acendi (superstição minha de todo domingo de que já nem me lembro o sentido mas ninguém tem nada com isso) a arrodear meu rosto descarnado: uma garota fumando, um homem que chora, uma mulher numa cadeira de rodas espiando pela janela, um bebê estranho, um moleque vendo TV, uma velha tomando um chá, um velho cambaleando com uma bengala na mão, uma bengala que queria que fosse uma muleta, mas não, é um pão que ele traz debaixo do braço em formato de bengala, deve estar duro afinal ele comprou da padaria 24 horas da esquina, que só faz pães novos daqui a duas horas, não importa, esse homem irá até o final nessa empreitada bêbada de aplacar sua fome madrugada, vai até a cozinha, tira seu chapéu e seu casaco marrom e seu cachecol preto e os joga sobre o espaldar da solitária cadeira (é um homem solitário, eu já percebi de outros carnavais), dispondo à mesa o pão, o azeite, o prato, talheres, presunto, queijo e ovos, em seguida retirando do forno a frigideira a que lançará um fio de óleo, duas fatias de frios e estabanados ovos, ao mesmo tempo em que prepara um café numa dessas cafeteiras modernas (o que definitivamente não combina com esse velho boêmio), acendendo dois fogos de uma vez, inclinando-se desajeitado iluminando um cigarro que faz uma estranha ponte entre a boca do fogão e a sua boca faminta que logo estará espalhando fumaça por todo o apartamento, e o que importa, ele mora sozinho mesmo, já deve ter sido há anos abandonado pela mulher (sempre há alguma mulher nessas histórias), não é à toa que ele assobia – homens solitários sempre assobiam, vejam o exemplo dos guardas noturnos – uma bossanova, talvez mesmo eu sei que eu vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar e o mexido de ovos e frios asperge óleo fervente em sua mão, assustando-o e fazendo perder o assobio e cair o cigarro, lavando a mão machucada na pia, e a cada despedida eu vou te amar, desesperadamente eu nunca vi ninguém cantar essa música com tanta alegria, incrível mas o tipo sorri, sorri para o café que colocará uma pausa em sua canção e cada gesto meu será pra te dizer que o velho aprova a bebida que o manterá acordado talvez até bem depois da minha insônia, já quietinho no cinzeiro o cigarro deve ser a única coisa reta desse apartamento cheirando a comida noturna sobre a mesa a que o velho senta-se para degustar sua impressionante refeição, partindo o pão em vários pedaços, espalhando azeite pelo miolo em que junta ovos, presunto e queijo gordurosos sem deixar ao menos de fumar e tomar café enquanto come esfiapando a comida lambuzada pelo queixo, sem deixar mesmo de cantar e assobiar, até sentar-se para ele vira um incômodo pois logo põe-se de pé vagando pra lá com o pão e pra cá em uma mão e o café e o cigarro em outra, dirigindo um olhar pela janela à cidade negra reluzente, será pra te dizer que eu sempre vou te amar por toda a minha vida? incrível como já comeu e bebeu e fumou tudo e a música continua no meio, não adianta, ele quer fugir mas eu sei, eu sei que vai chorar, nesse verso da canção ninguém agüenta, um soluço e lá vem a choradeira, talvez seja por isso que ele tenha parado os lábios observando lá embaixo na rua algo que o leva mais para longe dentro de si mesmo, quem sabe os garotos no skate, que a mim não dizem nada, a esse velho manco impressionem :– tudo é possível –: agora ele dá as costas a mim, entra no quarto, que, ao contrário do que disse, não é o quarto de um homem só, ou de alguém que foi abandonado, ou pelo menos é o quarto de um solitário que ainda conserva a esperança de reparir sua vida com alguém, pois tudo se dispõe aos pares, cadeiras, travesseiros, copos nos criados-mudos, quadros, um deles mostrando alguma paisagem urbana de casarios coloridos, que ele observa atento como fez com os skatistas, e de debaixo da cama retira um objeto cilíndrico, talvez uma vassoura, não, é outra bengala, pequena, que leva até a sala, entretanto talvez não seja uma bengala, assim como aquela bengala era na verdade uma baguette essa bem pode ser um guardachuva, guardachuva não porque é colorido, é uma sombrinha, uma sombrinha colorida aberta no meio da sala (isso dá um azar), suspensa no ar girando e girando sobre a cabeça do velho, que a passa pelo meio das pernas quase caindo e já entoando outra canção, voltei, recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço, parece um caranguejo dançando, abrindo desbragado os braços trêmulos, quero ver novamente vassouras nas ruas abafando, eixo de si circula e rodopia e gira novamente três vezes e ensaia um pulinho ridículo, tomar umas e outras e cair no passo até cair estatelado no sofá de preto couro velho, a sombrinha meio de lado, gargalhando gargalhando gargalhando, procurando no bolso do paletó outro cigarro aceso como acesos são seus olhos, felizes estelares, negros, fundos, caminhando a largos passos para as paisagens úmidas de seu passado que lhe congela na boca o sorriso de um carnaval distante demais para que eu possa apreender da minha insônia martelando em meus olhos moleques caindo de skates, uma garota vendo TV, um homem estranho como uma criança, uma mulher tomando um chá, um bebê que chora, um moleque fumando um baseado, com um lápis na boca esta velha aqui numa cadeira de rodas espiando os outros apartamentos pela janela, uma vela vermelha já no pavio inflando meu lúcido apartamento com esse cheiro de cera queimada que me emoldura enquanto eu sigo velando o sono da cidade, como se ela fosse minha, como se pudesse dizer que possuo alguma coisa, como se pudesse saber que não são as imagens exteriores que me possuem, porque nada pode ser mais seguro nesse mundo que esse ponto de observação dez andares acima do bem e do mal – e eu pergunto: o que pode ser melhor do que estar ao abrigo da noite e das estrelas?

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Inverno, 1998.

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