Road movie noir

para as mulheres do Recife, Vila Madalena e alhures

mas acho que eu vou me sentir mal depois, dissipa a Gabi, enquanto exploro as molhadas camadas de sua vulva, debaixo do vestido de tricô laranja aqui fora e das dúzias de contratempos e guitarras desafinadas e baixos e couros se espatifando lá dentro da festa. Há muito liguei o foda-se para as belas letras, as belas roupas e as belas fêmeas que colocam s no final de todos os plurais, mas, porra, quando Gabi me disse que gostava de participar de sarais sinceramente meu pau baixou quinze grais, digo, graus. De resto, nada a fazer: beber, dançar, brincar e aguardar que a Loira me violente o nariz com seus algodões, no banheiro em que estiver vomitando minhas cruzes. Prosseguir é conseguir. Ai, que gostoso… então, não é bom? Por que não vamos para minha casa? Moro três ruas para cima desse bar, aqui mesmo na Vila Madalena. Meus dedos vibram ora leves ora rápidos; será que a Loira pode escutar o tesão que eu tenho por ela, semeado por minha língua nos mais íntimos pavilhões e labirintos desta garota? Garanto que lá é bem mais confortável que esse jardim de inverno cheirando a cocô de cachorro, menina. Hummm, tá, mas espera um pouquinho que eu vou ao banheiro. Não, definitivamente não concordo com aquele cara: a palavra tesão é impositivamente masculina, quem tiver alguma dúvida é só pegar no meu pau agora. No claro escuro da festa, escuto uma voz lambendo meu ouvido. Hein? Foi vista onde? Tem certeza que era a Loira? Certeza? A sussurrante sombra soçobra entre as outras. E outro cigarro. Outra tosse. Outro mal-estar no peito, que dissimulo para agir a noite toda sem preocupações. Só. Para onde agora? Sim, a cobertura do Pina de Copacabana.

Ah, que essa morenidade me mata, nada melhor que a morenidade pernambucana, tu conhece o Beco do Vento?, pois então, meu amigo – meu amigo Xisto empurra os óculos amarelos para cima do nariz, espalhando suas consoantes fortes pelo alto do bar, abraçando trôpego sua morena namorada –, tu precisas ver, dá seis horas da tarde, chegam os ônibus e elas partem em revoada, suor vazando pelos cotovelos que dá vontade de deixar ali a boca aberta e lhes captar o moreno sumo diretamente para a língua, ah, caixas de supermercado, domésticas, vendedoras, secretárias, assistentes de telemarketing, todas com seus afazeres avatares duma existência simples em noites brancas e nas longas horas do dia olhadas pela janela, vez em quando no meio de uma mijadinha no wc da firma elas percebem que a vida jamais lhes sorrirá – meu deus, como esses pernambucanos são gregários e verborrágicos, assim cercado de amigos falantes eu não conseguirei jamais achar a Loira – , e é por isso que eu lhes sorrio quando o vento do Beco do Vento abençoa suas machucadas pernas, apaziguando as tenebrosas chicotadas do cotidiano que deposita seu bálsamo mentiroso nas dobras generosas de seus corpos macios, ou então, para minha maravilha, suspendendo tecidos ao léu dos meus olhos, um entrecho de seio, uma vaga calcinha, umbigos, nucas, esse sim o meu Liso do Sussuarão particular; mas tu, mano velho, queres explicações para a morenidade enquanto procura por loiras? Tome um pedaço desse azulzinho aqui: é só colocar embaixo da língua e esperar. Loira? Não, mano velho, entendesse nada, estou a lhe falar da morenidade e vens com essa de Loira? Só a que conheço é Comadre Fulôzinha, que habita as enconsas do sertão e da zona da mata, e sempre que aparece do nada lhe pedirá um cigarro, tens um cigarro? Tenho, mas você nessa idade já fuma?

Tenho dezesseis e fumo desde os doze, fabula a menina na Prainha, beira da Avenida Paulista: você realmente acredita que o mundo se divide entre elaborados e espontâneos? Menina, eu não acredito em nada, esta vida é um grande supermercado e eu queria apenas que você fosse a cereja do meu bolo comprado a 14,99 reais. Garçom, mais uma! Eu detesto esse lugar, não sei por que vim aqui, odeio esse pagode mauricinho que tocam e por outro lado odeio as pessoas que odeiam pagode mauricinho porque é música de ralé, ahhhhhh, não há como escapar dessa cruel transformação do mundo em logotipo – você veio aqui porque está atrás de alguma coisa, todos nessa noite estão atrás de alguma coisa. Ah, é, sabidinha, e você, o que procura? Quantos cílios, ó, quanta alegria. Ela se senta no meu colo, sua mãozinha no meu pescoço é tão suave, toda ela tão suave, suave, suave, quando você não tinha nascido essa palavra ainda não existia, meu amor. Luana murmura sempre gentil: o que eu preciso é de segurança, não de alguém que fique dividindo o mundo em apocalípticos ou integrados, quem assistiu ou não a Apocalipse now, quem lê ou não a Folha, quem foi ou não a Trancoso, quem tem ou não barriga de cerveja. Garçom, mais uma! Bem, só posso te dar um beijo – me deixa lamber teus dentes? Li isso num livro e fiquei com vontade de fazer, deixa? Ela se senta no meu colo e Carô, sua amiga, fica nos observando de fora, nós dentro desse bisonho ritual nos sorrimos os três, os dentes de Luana na minha língua um arabesco de movimentos retilíneos uniformes; docemente, uma umidade se asperge de sua bundinha em meu joelho. Preciso ir ao banheiro, já volto, não fujam, vocês fiquem quietinhas aí ou vou comer vocês duas e palitar os dentes com os ossinhos de suas lívidas falanginhas.

Ora, para que escrever como quem faz um organograma? A pura vida, a pura vida, cansei de tomar vodca batizada, cansei de fumar erva malhada, meu cartão de crédito venceu, quero que se decrete o carnaval os trezentos e sessenta e cinco dias, meus olhos jamais serão de novo funestas fenestras mas sim sacasacasacasacarolhas, arados, bolsas de aeromoça, girassóis e espadas e hóstias, meu olho direito será uma vulva e o esquerdo o Wolverine, Loira, aqui vou eu! Subindo as escadas até o wc, fios desencapados e inscrições como aqui nasceu e viveu vovô ou júlia e júlio natal de 1997 ou celacanto provoca maremoto me lembram das paredes da Soparia, que depois Roger levou para a Rua da Moeda no Recife Antigo, se transformando no Pina de Copacabana, você tem um cigarro? Me desculpem pela chinelice, mas se tem algo que detesto é dar cigarro a mauricinho, ora, meu filho, venda um pé desse seu tênis importado que mais parece um jacaré e compre quantos marlboros o seu câncer no pulmão lhe permitir! Eu, hein – o cara vai escapando pela tangente. Mas, peraí, acho, não é estranho um sujeito me pedir cigarro no banheiro? Não será um sinal? Volto-me, puxo o fulano pela gola da camisa florida, escuta aqui, cara, qual é a tua? Pode me falando tudo o que sabe da Loira! Me solta, porra, tá louco, meu? Não me resta alternativa que puxar a arma do bolso e grudá-la à têmpora direita do mauricinho, vamos, meu rapaz, sabe o nome da minha pistola aqui? É Luana, e sabe por quê? Sabe por quê? Nnnnnnnão – ah, porque será que ainda tem neguinho que se impressiona tanto com uma porra de um revólver a ponto de gaguejar? Será que já não estão bem acostumados com a violência exposta ao útero nos filmes que a Globo passa toda segundona? Escuta aqui, seu bundão, Luana é a mulher mais linda do mundo, está lá embaixo me esperando com sua amiga Carô, e se tem uma coisa que ela detesta, meu rapaz, é esperar. Portanto, vá dando logo a letra e me diga tudo que sabe sobre a Loira! Nnnnnnada, eu não sei nnnnnnnnnada – olha só, meu rapaz, mais uma gaguejada dessas e seus miolos vão virar decoração de azulejo. E no que digo azulejo, ele já está olhando por trás de mim: viro-me e consigo a tempo ver uma mecha de cabelos loiros escapando pela janela do banheiro, filha da puta! Largo o mauricinho e quebro os vidros da janela, pulando para o quintal. Ahhh. Mais uma festa.

Essa Loira quer me enganar, mas não tem como, eu vou pegá-la de qualquer jeito. Estou na sua captura desde que sou pequeno; entretanto, ultimamente, tenho-a pressentido cada vez mais perto – a cada bar, a cada balcão, cada festa e cada banheiro sua presença mais próxima, nunca tão próxima quanto hoje. Mas que noite é esta? 31 de fevereiro de 2000, sim senhor, Dia de Todos os Fugitivos, ontem, agora e sempre, amém. Perto de um pequeno chafariz, golfinhos de pedra cospem água e espumas em louvor às mulheres finas que circulam pelo jardim em vestidos de vinil dourado, azul royal, laranja, amarelo, negro. As pessoas desfilam nesse bar como se fossem peixes. Vivem como num aquário, parece que já nasceram numa vitrine. Eu não. Eu sou um felino à caça de peixes, hei de enfiar nessa água doente todas as minhas patas, sem medo de tubarões ou polvos. Somente há o risco de ser hipnotizado pelos olhos insones desses peixes coloridos, o risco de acreditar em suas poses e em suas roupas compradas numa liquidação da Oscar Freire. Tomorrow! Talvez poderia ter sido ontem! À distância, reconheço o aboio: é o Agente Sorall. Um dos nossos. Ele trabalha na Divisão dos Não-Lineares. Camaleões que fingem que não são o que na verdade não são. Canta alto e bate no chão o pé com força de trezentes caruaruenses, a batida embolada do solado de seu 752 mais alta que o putz-putz-putz-putz-putz-putz da muzaquinha estroboscópica. Yesterday é claro! Tomorrow talvez poderia ter sido ontem! As pessoas se afastam dele, constrangidas. Ninguém entende os Não-Lineares. Outro cigarro. Outra tosse. Sorall, que bom encontrar você! Viu a Loira? Meu irmão, olhe só, nunca vi um negócio desse não, que mulher gata do caralho… não, Sorall, não é daquela, estou falando da outra, a Loira, não viu não? – tu já tá empenado, é? Não, tou bonzinho que só a porra, tás percebendo não? Vira-se de lado e vomita. Sorall é uma das poucas pessoas que conheço que conseguem vomitar de lado, enquanto conversam com você, sem que você perceba. Tem muita classe, mesmo, além de dançar feito um Barishnikov do sertão, ou quase, um quase artista. O mundo se divide entre os que fazem e os que aplaudem. Sorall é um ser limítrofe entre esses mundos, o que lhe dá um certo ar esquizofrênico, o que lhe garantiu um emprego certo na divisão dos Não-Lineares; onde já trabalhei, inclusive. Olhe, tem uma coisinha pra ti, pegue; era um bilhete – notei imediatamente a caligrafia enviesada da Loira.

[sim, meu querido Agente Especial, você tem razão: enquanto uns dormem, outros desarrumam a cama. Só existem dois tipos de jogos no mundo: os finitos e os infinitos. Os finitos são jogados para se ganhar, e os infinitos, para que continuem. Ou seja – ou se joga tênis ou se joga frescobol; por isso, os jogadores infinitos jogam esperando por um dia serem surpreendidos. É por isso que eu só tenho saudade do que eu já não lembro. E é bom que você entenda – apesar desta ser a hora dos pântanos lilases, toda mulher é inquietação e espera. Você nunca vai me pegar. Mas pode esperar: eu vou pegar você. Beijos, Loira]

Maldita, cuspo para Sorall. Como isso foi parar no seu bolso? Não sei, menino, só que uma hora eu desmaiei e quando vi já estava ali. Como vou encontrá-la? Alguma pista? Não, menino, só lhe digo isso que acabei de descobrir: óbvio é aquilo que você sempre não sabia! E o óbvio da vontade é aquilo que você não pensou, você fez! Entendesse? Entendesse? Yesterday é claro! Tomorrow talvez poderia ter sido ontem! Diabos, por que será que as pessoas duma hora pra outra deram para falar como num espelho em enigma? Nunca nos veremos face a face – despeço-me de Sorall e vou para o balcão. Enquanto procuro formular uma sentença qualquer tipo assim vovó viu a uva, procurando me recobrar de meu assombro, feito uma formiga que circula pelas peças de um quebra-cabeça, chamo o garçom: um road movie noir sem motor e sem gelo, por favor! E aí, mano, tá sumido, nunca mais piou aqui no Matrix, que é que tá rolando? Muito trampo? Relaxo no balcão, viro o sal na mão, o limão na boca e a tequila e tudo pra garganta. E, lentamente, contemplo o pôster de Elvis Presley rebolando em Jailhouse Rock na parede, ao lado de dois índios navajos e uma foto de Marylin Monroe. 1977. O quanto chorei por aquele balofo entupido de drogas e cassinos e hinos evangélicos. Hoje sei: Elvis não morreu, porque sempre foi uma mentira. Já sei. É buceta, né, irmão? Buceta é foda, me sibila Rodolfo, o garçom, mandando outro chorinho de road movie noir pro meu copinho. Buceta transtorna a vida do cidadão. Que é que rola? Ela te largou ou tu que deu um pé nela? Ah, mano – eu resvalo – é uma merda essas meninas de hoje. Tão moderninhas quanto puras. Agora mesmo estava com uma do tipo que não fode nem sai de cima. Toda noite é assim, essa noite não parece ter fim… Se tem papo, não tem papeiro; se tem papeiro, não tem papo; se tem os dois, estou bêbado demais pra saber o que é o quê. Se pelo menos eu conseguisse encontrar a Loira… A Loira, mano, tá maluco? A Loira já era. Debaixo de sete palmo agora. O Rodolfo tem um nariz enorme, nunca vi, o cara a dez passos de você parece que funga o teu cangote. Gente boa, pena que é palmeirense. Seguinte. Eu não posso falar agora sobre a Loira, tá ligado? Olha para os lados. Esquerdo: os olhos atentos de Gighia, o dono do bar, um pitbull com o emblema do Corinthians tatuado no coração e topete endurecido com sabão se estendendo a vinte centímetros da testa permanentemente frisada na falta de humor. Direito: os olhos atentos de Léa, a garçonete mais assediada em todos os tempos, sua calça jeans suja abaixo da cintura, sua camiseta suada, seus ombros bons de morder, seu rabo-de-cavalo suspenso sobre a tatuagem de sol na nuca, seus seios celestes e carnudos, seu jeito solícito e altivo – serviçal a quem muito gostaria de servir. O mundo se divide entre patrões estúpidos e gentis princesas. Outro cigarro. Outra tosse. Fala, Rodolfo, qual é? Vai negar essa história pro teu camarada? Quê que o Gighia e a Léo têm a ver com a Loira? Eles viram tudo, mano, me cochicha o narigudo. Foram catar uma doida que tava distribuindo pó e punheta no banheiro das mulheres e viram a Loira lá. Velho, o que eles me contaram… mas fala, porra, o que é que eles viram? Como foi que a Loira morreu? Ela tava incorporada nessa mina, mano, nessa mina louca de pó, cara! Quando o Gighia e a Léa abriram a porta do banheiro, a mina, que era loira, ficou morena, e caíram uns algodões de seu nariz, uns algodões com sangue. A mina tava morta! Ah, Rodolfo, e tu quer me dizer que a mina tava possuída pela Loira? Quer dizer que a Loira morreu de over de pó? Quer dizer que uma loira virou morena? Brincadeira, maluco. Achei que tava falando com um profissional. Morena ficar loira vá lá, mas o contrário… Assim, você nunca vai acertar tua promoção pra Agente. Já que você diz que ela morreu, o que me diz disso aqui? Tiro do bolso da jaqueta de couro o bilhete que o Sorall tinha me dado. Mas, quando o mostro pro Rodolfo, o bilhete já não é um bilhete, é um flyer de uma rave numa ilha na Represa do Guarapiranga.

O flyer anuncia a Era de Aquário ao som de um dj com nome de sueco mas que eu sabia que tinha nascido na Vila Maria: pelo jeitão do convite, a festa vai ser o máximo. Estrobos, malabares, caras metidos a besta, pirofagistas, óculos escuros, ninfetas perdidas, lurex, drag queens, poseurs, luz fluorescente e batidas regularmente hipnóticas, crescentes, circulares. Uma menina pequena e muito loira se aproxima de mim enquanto eu estou distraído e me enfia um comprimido na boca. Are you experienced? are you? you? ela ecoa, montando de novo em sua bicicleta cor-de-rosa e saindo toda elegante pelo bosque. Onde estaria a Loira? Diabos, estou de saco cheio desse narrador off. Alguém sabe onde é que desliga essa porra? Danem-se as hermenêuticas, a sociedade do espetáculo, os atos falhos, os simulacros e principalmente a Escola de Frankfurt. Quando eu preciso, esses caras nunca me ajudam, como por exemplo agora, em que tenteio um percurso minimamente satisfatório entre transes de Bali e tranças holandesas, mas simplesmente me lanço à pista de olhos fechados – já que ninguém dança com ninguém mesmo, vou aproveitar esse momento para tentar abstrair o paradeiro da Loira. Ainda sinto a mão úmida de resvalar nos lábios internos da Gabi – por onde andará? Superfícies, superfícies: le Poète se fait voyant par un long immense et raisonné dérèglement de tous les sens, e ainda vêm me dizer de densidades psicológicas, stream of consciousness, linguagem-código, filologia românica, a Semana de 22, plano e contraplano, a influência dos jesuítas sobre o barroco e os 12 Pares de Carlos Magno – isso é nada perto do sorriso da morena no balcão. Densidade psicológica? Para que psicologia se temos a revista Caras? O mundo agora são derivativos na Bolsa de Valores, a alma acabou, meu caro amigo, Dostoiévski sim era feliz, por pior que tenha sido ser gago e sifilítico, por pior que tenha sido ir para o paredón e escutar dos fuzileiros enganei um bobo na casca do ovo quando as metralhadoras se silenciaram e aí ficar para sempre marcado por esse patético episódio, por pior que tenha sido testemunhar a tortura de Raskolnikov entre ser e não ser e por fim covardemente abraçar o Evangelho – nada será pior do que este purgatório de plástico colorido sem esperança de redenção, esse risonho parque de diversões eletrônicas em que se costura nossa existência sem juízo final: minha alma, lembro-me bem dela quando caiu de meu bolso e se confessou para dentro de uma jukebox. Que então fiquemos com o puramente narrável: corta/ corta/ corta. Vou buscar uma cerveja.

Se eu venho sempre por aqui? Claro, eu vivo aqui, me devolve Jade, a garçonete que mais parece um pássaro de silicone, com quantos dentes se faz um sorriso perfeito? Eu nasci aqui, antigamente tinha uma hípica na ilha, meu pai cuidava dos cavalos, eu vivia solta no meio deles… Aí comecei a andar de patins. Seus patins não funcionam na grama e ela me pede para que eu os tire, está na hora de ir para a pista. Tiro também suas meias, e logo estou deitado no mato beijando seus pés moreno-claros. – Seu filho… bem… seu filho nasceu sem alma. Sinto informá-la. A senhora pode conferir aqui na radiografia. Por favor, assine aqui. – Foi o que me disse o médico que fez o parto, Jade me gorjeia os olhos verdes, tristemente, ao mesmo tempo em que mostrava a breve cicatriz na barriga. Ei, mas o que é isso, você não tem umbigo?! Pois é, depois que o meu filho nasceu e o médico disse que ele não tinha alma eu achei melhor fazer uma cirurgia plástica, sobrou só essa cicatrizinha, uma mulher que dá à luz um filho sem alma não pode ter umbigo, acho que eu vou fazer uma tatuagem, o que você acha de uma tatuagem balinesa, ou tribal? Celta? Maori? Eu acho que você não precisa disso, você tem a barriga mais linda do universo, respondo, e é verdade, ao mesmo tempo dura e macia aos meus beijos, le vrai est toujours beau et le beau est toujours bizarre. Ei, o que você acha de irmos ali no universo paralelo? O que é isso, moça? Eu sou um rapaz de família! Vamos, você vai gostar, ela ri. Cerco: onde está seu filho? Ah, não sei, vendi para a ciência, estava sem grana e precisava pagar o aluguel e o convênio médico e o crediário das Casas Bahia. Você não sente saudades dele? O universo paralelo é uma tenda debaixo da qual nos instalamos num sofá de veludo vermelho; em volta, noturnamente alguns casais de diversos feitios fazem a festa. De vez em quando sinto uma saudadinha, mas acho que foi melhor assim, eu não saberia o que fazer com um menino sem alma, imagine se ele resolve atravessar a rua sem olhar? Se ele decide ficar explorando as tomadas da casa? Se ele começa a se atirar do décimo andar? Que educação eu poderia dar ao garoto? Você tem razão, cicio, obsevando seus pequenos mamilos, beges círculos de onde com certeza se extraiu o primeiro número pi. Mas e o pai, o que acha disso? Ah, o pai… eu nunca soube quem era o pai. Na época eu saía com três caras, um não sabia do outro, e nenhum soube que eu estava grávida, porque eu fugi para o Recife e com a grana que ganhei na venda do moleque fui para a Índia. Só lá é que eu recuperei minha paz de espírito. Seus cabelos tão preto sheherazade aliso aliso aliso, pedindo mais histórias. Voltando ao Brasil, passei pelo Marrocos e fiz a cirurgia. Mas antes de chegar em São Paulo desci em Recife e conheci uma garota chamada Comadre Fulôzinha.

Como é? me arregalo. Repita esse nome. Sim, Comadre Fulôzinha, uma princesa de maracatu. Foi ela que me iniciou nos mistérios de Elêusis, nos enigmas de Lilith e nas pedras dos orixás, Jade me assopra; seus dedos deslizam pelo meu pescoço, sua boca tão próxima de meu ouvido que acho que sua voz nasceu lá dentro. Me conte mais sobre a Comadre – por acaso ela era loira? Sim, loira sim, galega, descendente de holandeses, mas sua mãe foi para o canavial ainda pequena e lá conheceu os Salustianos. No meio da mata, Fulô menina levava uma flor na boca, quando surgiu Mestre Salu e lhe tomou a flor com os dentes. Salu estava preocupado com a guerra entre seu maracatu e um maracatu inimigo, que já tinha matado dez caboclos de lança. Lá fora enfiam cada vez mais batidas dentro de cada minuto, surdas, sujas; meu coração busca acompanhá-las e dói. Aí Fulô preparou, com ervas secretas, uma bebida que leva o nome de azougue. Mestre Salu venceu a guerra, mas antes que se casasse com ele Fulô foi morta afogada, numa lagoa salobra; desde então, todos os guerreiros de maracatu, antes de se apresentar no Carnaval, tomam azougue e põem uma flor na boca. Segredos. Sim, vou me deixando levar pelo estuário cristalino que é a voz de Jade, seus dentes me puxam e repuxam a pele da nuca; suas pernas envolvem-me a cintura como duas serpentes. Ela não usa calcinha. Mas você já conheceu alguma mulher interessante que use? Mas espere aí, essa história está malcontada: como é que você conheceu a Fulô se ela já morreu? Ahhhhhhh – Jade enfia todos os seus caninos no meu pescoço, furiosamente; tento me desvencilhar, mas ela é muito forte e suas mandíbulas não saem de mim, empurro suas mãos que se enterram nas minhas costas, procurando saída, grito, os casais continuam trepando, não me ouvem no meio do transe dessa música, ninguém me vê, e os dentes crescendo milímetro a milímetro dentro da minha carne, a música cresce, estremece, parece que vai explodir, ouço da pista todos gritarem, o corpo de Jade é feito pedra, meu revólver, meu revólver – bang! Jade estrebucha cascavel no chão, acertei bem no meio de sua barriga sem umbigo, pronto, já voltou a ser uma mulher normal; logo logo se levanta, vem atrás de mim: preciso fugir dela, tropeço, ela me pega uma perna, não devo olhar para trás, somente uma saída, uma saída, um homem de cartola e bengala, tranco a porta, cheiro de pinho sol mijo azulejos brancos meu pescoço uma paçoca de sangue e agulhas correm por minhas artérias, avanço para dentro de um reservado escutando as batidas de Jade na porta do banheiro, ou serão os tambores modais os ritmos eletrônicos os baques soltos?

Abro a tampa da privada e sem pensar vomito todo o pente de meu revólver no vaso: agora não há mais tempo para mistificações bang monólogos bang interiores bang citações bang em francês discursos livres bang indiretos bang flashbacks bang falsas memórias bang futuro do presente, pois do reflexo nas águas turvas do vaso metralhado surge Ela – a Loira do Banheiro – a assombração que persigo desde pequeno, vestida de noiva longos cabelos brancos olhos pretos de caveira narinas lotadas de algodão, beija-me a boca, amor, com sua boca vermelha, agora você não me escapa – mas não, não é ela quem diz isso, sou eu mesmo, aqui dentro do vaso preso aos fatos enquanto a Loira me observa irônica do lado de fora, sua imagem se borrando líquida e incerta nos meus olhos, outra tosse, outra dor no peito, a pura vida na flor rubra regurgitada de minha boca à sua e nos tambores silenciosos avançando para dentro da carne da primeira e última mulher que me envolve com todas suas águas em busca da próxima viagem

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Outono, 2000.

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Os açoites dos anjos

for no one

Você não me deixou te beijar os pés. Eu ali parado enquanto as sombras passavam pelo céu anunciando o meu ridículo. E os açoites dos anjos. O frio pegajoso me entrava pelas roupas adentro: o frio da Vila Mariana, o frio das linhas telefônicas que traziam mal-entendidos. Teus pés inteiros, claramente meu caminho. Hoje, o deserto das estradas vicinais. Há quanto tempo escuto o inverno desse som de motor? Minhas veias geam. Você de vestido vermelho. Sem calcinha, sem sutiã. Fada safada. Depois, as fardas. Antes, porém, de baixo, eu, ajoelhado, via claramente – você era a planície que sempre surgia antes dos meus pesadelos. Ontem eu estava remexendo nos meus guardados e encontrei meu passaporte. Entanto, nele não se fotografava o susto dos meus olhos. Quem era aquele homem por trás das sombras? Era um tempo em que eu me sentia ultrapassado por minha sombra toda vez que saía do cinema. Eu parava e esperava a sombra passar para o outro lado da calçada; um vento em dentes doía na carne da nuca. Sempre a garoa. E o frio das pedras de gelo na vodca, na testa, nos pés. Nos teus pés que caminhavam, pés que nem tinham nascido, continuavam adormecidos num sonho de histórias em quadrinhos, lençóis brancos, guardanapos com recados e ilusões de ótica nas paredes. Teus pés tinham cheiro de terra, alecrim e chiclete tuttifrutti. Tuas pernas não. Tuas pernas já sabiam a manjedouras, cavernas, apocalipses. Do lado de um fliperama, você olhava para uma garota; sorria, dançava, ondulava dentro de um vestido preto, e os cabelos estavam irremediavelmente perdidos para a maconha e os shampoos e os estrobos. Naquela festa. Por quantas luas te esperei uivar? Acredita: estes grãos de areia que trago na mão esquerda formam a soma das nossas noites, em todos os milkshakes. Aí, a tal fase em que ouvíamos o pôr-do-sol. Na nossa cama azul, olhos cerrados, mãos unidas, fingíamos que mortos. Que trespassávamos o portal de marfim nadando num rio negro cujos tubarões de neve falavam: tenham muito cuidado com os dinossauros que balançam nas redes, perto do jardim dos perdidos atalhos. Gasolina, vaselina – quantas e quantas cédulas rasgadas, bilhetes de despedida, hotéis fugidos, polaróides mordidas, golpes mal-sucedidos! [E a fome. E as grades.]

Do lado do fliperama, você se aproximava da garota, uma garota tão parecida com você que eu acreditava ser eu: e lá dentro dela, como um baleiro, havia aqueles doces coloridos de que precisávamos para prosseguir vivos. Teus pequenos e únicos seios – quase só mamilos – leitosos e cheios de pintas, de dentro do vestido preto tocaram os seios da outra menina – eu podia sentir os seios se tocando, pois você era como eu: era eu. Encostaram-se – maldita, de novo minha sombra cai pelo bolso e vem me pedir fogo para um cigarro. Eu não tenho fogo! eu tenho apenas mil novecentos e noventa e nove grãos de areia ainda quentes pelas pegadas do sol. Sua mão na minha, o sol se punha. Quando as noites enfiavam postais na tua pele, você pedia para que eu te batesse na bunda. Espalmadas mãos, os açoites dos anjos. Quando sua bunda estava vermelha, o sol nascia e nós dormíamos com tanta fome e sede que talvez até mesmo morrido por alguns dias seguidos. Eu sentia a língua da menina em minha boca, líquida língua de espelhos. Aquela língua era fria, eu lembrava, enquanto procurava dirigir o carro somente com uma mão, para não perder os grãos de areia cerrados na outra. Um tempo em que as carnes todas se sabiam, e todas pílulas eram bebidas. Onde foi que nós três nos perdemos? Antes ou depois dos doces? Havia muita gente em volta, e a última coisa que me lembro é do fliperama. Impossível determinar nossa conversa com justificativas, desconfianças e pontos de fuga. Não, não, isso tudo foi mentira, confesso – desculpe, tudo eram invenções, coisas que eu imaginava, nós dois nunca nos havíamos nos visto antes da festa. Foi a primeira vez, eu, você; ela.

[Os limites.]

Havia um rio ali perto, com uma sombra que parecia um urso enorme. E muita eletricidade. Agora, não. Tentei beijar teus pés, como havia beijado os pés dela, passando minha língua áspide em volta dos pequenos dedos morenos que sabiam a teus mamilos, que sabiam ao meu pau, aos teus cabelos, à buceta dela, à tua língua, aos meus olhos – meus olhos vasculhando cada poro daquela noite.

[Tilt.]

Quando viriam os homens de farda, onde estávamos? Um urso debaixo da árvore – para sempre em teus pesadelos eu queria criar raízes. E os três procurariam no céu estrelas que nos dessem outra direção, outros nomes, outras vidas. Mas não encontrávamos, por mais que nos ajudassem os tubarões de neve. Por que choras? Porque isso é tão bonito, diz você; ou digo eu, ou diz ela. Então, ela, a outra, se vai, com flores nos cabelos e os olhos abertos: rio abaixo, lenta como uma procissão. Nessa noite, sua bunda estava rosada como esmalte; gelava sob o orvalho no meio da floresta. Eu gritaria: alguém me ajuda? Ainda sentia meu pau dentro da sua boca, quando subitamente me dei conta dos grãos de areia. O som do motor do carro, continuamente. E do outro lado do fim da estrada, a morada da minha sombra. Sinto os açoites dos anjos nas veias. Mas teus pés, estes sempre irão iluminar o meu colo.

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Outono, 2000.

Let’s go to bananas

novos agradecimentos ao amigo Ortinho

Acelga, kenny g e música new age acabaram com meu casamento, determino, enquanto reparto o bigode ao espelho e lembro-me das manhãs felizes em que não via barbeadores mas o palhaço Arrelia. Não acredito como vim parar nessa situação de quinta. Por exemplo, hoje é sexta de manhã, acabo de despertar da segunda balada da semana e já procuro por terceiras mulheres na agenda, já expectorando vontades por todos os pênis nos quais se transformará meu corpo debaixo da próxima lua cheia. Não, o espelho que não é o meu me diz: sou infeliz. Pois sim – new age ainda somente provoca asmas, hipóteses e tédio, vá lá; mas não posso com acelga, trazem-me pústulas à pele e epístolas à língua; e kenny g, então, esse, argh, cruéis ipsilones e arrotos nas virilhas. Que saco – já antevia minha chegada em casa, pegando Lúcia em posição de lótus escutando aquele sax de plástico, aquele cheiro de acelga com molho de alpiste e sementes de girassol no ar, ora vá tomar no cu e se lascar. Que puta saco. Meu pau virava um pinto. No ato. Por isso é que desde cedo já saía de casa na caça de outras mulheres. Por isso é que carrego essa mágoa de palhaço, cansada feito um mataborrão.

Toda semana uma mágoa diferente. Chegava em casa com trezentos perfumes no meio das pernas – perfumes que, não sei como, sempre eram vencidos pelo cheiro da acelga e por qualquer bosta new age. Porra, como é que isso foi acontecer, era o que eu me perguntava, arrancando meleca do nariz e grudando na lâmpada do abajur azul da nossa salinha-decorada-como-na-Revista-da-Folha. Porra, alguma coisa tinha que ter cheiro, como é que pode um negócio desse, nem meleca queimando arranca de nosso arredor esse imundo mausoléu de incensos indianos que ela compra toda semana na maldita feirinha da Benedito Calixto. Está certo que desde o começo estranhei o cheiro da sua buceta [isso na época em que ela ainda deixava eu chupá-la]. Só que então era trilha de lençóis, susto, medo e maravilha. Ficava horas por ali, o queixo doendo como se eu estivesse no dentista, o maxilar duro, minha cara toda babada nos líquidos que dela escorriam. Incrível. Nunca tinha sentido isso. Uma buceta em branco.

Tinha conhecido essa mulher debaixo duma chuva. Seu carro estava quase se atolando na frente do meu – numa chuvinha normal de fim de tarde em São Paulo – quando eu percebi seu desespero por não conseguir tirar o cinto de segurança e pulei de meu gol. Ao retirá-la do seu uno, notei que meu carro tinha sido levado pela enxurrada. E por pouco nós também não fomos. O caos e a lama. Dali em diante houve um espasmo na nossa relação, até nos reencontrarmos no mesmo hospital, para onde nos levaram depois que o Corpo de Bombeiros nos recolheu de dentro de um bueiro [onde havíamos ido parar, assim que a enxurrada levou nossos carros]. E se passaram três meses para eu finalmente ver-me verme, com pantufas de coelho, numa cadeira de rodas, saindo da sala de raio-X. Meu corpo estava completamente alvo.

Contaram-me os gentis doutores da nossa gaia ciência que nos deram banhos de cândida e leite condensado para nos retirar toda a sujeira que se colara em nossa pele, toda aquele maremoto de imundícies do meditabundo Tietê. Excelente tratamento, breve estaria na rua. Antes, entanto, conheci, ou melhor, reconheci Lúcia. Lembro-me como se fosse hoje – nunca havia visto mulher tão resplandecente. Fiquei totalmente apaixonado. Na esquina da alameda dos desgraçados com a rua dos desvalidos, entre UTI e raio-X, gritei para o enfermeiro: – siga aquela cadeira de rodas! Ah. A vi ave venérea, neve, nuvem, lembrei de tudo e esqueci mesmo o meu nome – feito macaco, estrambotei-me de joelhos no chão, o pau surgindo debaixo do avental, e lhe beijei os pés de asas. Guinchei – enquanto os doutores tentavam me retirar dali – que faria um templo de espelhos para vivermos juntos, por todo o sempre, e que teríamos um colchão d’água e dentro dele peixes coloridos, polvos e conchas e pequenos tubarões, quem sabe. Lúcia imediatamente viu em mim seu salvador da tempestade, por todos os corcéis brancos de Napoleão, e desmaiou nos lírios de sua cadeira de rodas.

Naquela noite, deixou aberta a porta do seu quarto. Penetrei nele feito peixe que reconhece seu aquário: de olhos cegos e nadadeiras precisas – no entanto, depiladas de liberdade. Seus olhos, negros antes da chuva, haviam ficado azuis, quase cinza-claros. Estava nua, com os joelhos regiamente flexionados, tipo assim o símbolo do MacDonald’s. E brilhava no escuro sua buceta. Nadei até ali espadanando feliz. Após algum tempo deslizando pelas ondas do seu aquário, notei-lhe o gosto – não de ostra, mas de pérola. Fiquei absolutamente maluco. Não podia acreditar: era o próprio white noise dos gostos. O Gosto Absoluto. Invadi aquele aquário com todos os meus líquidos. No dia seguinte mesmo, nos mudamos para um apê bacana ali no Sumaré.

Sou – sempre fui – um cara que preza a diversidade. Não é comigo essa história de monocultura, feijão, arroz, charque e farinha e cana. É por isso que me estranhei, assim, sem mais nem menos, quando me vi pela primeira vez comendo aquele negócio desgostoso. Talvez no meio dessa primeira saladinha de alpiste, semente de girassol e acelga acompanhado por um sensalúcido sorriso “não está gostoso, Wharton?” é que caiu pela primeira vez a ficha do que eu ia fazer – mas, engraçado, acho que meu aparelho já não funcionava, minha cabeça já não operava, eu era movido pelos delírios do meu pau dentro da Grande Buceta Branca. E fui comendo daquela salada e daquela xoxota por vários meses. Interessante notar que foi meu pau mesmo quem foi fazendo, aos poucos, ressair de mim um cérebro, e dele, sentidos – que, acho, me haviam sido castrados naquele hospital.

Aconteceu numa noite em que Lúcia repeliu-me “pois estava meditando”. Levantei-me, acendi um cigarro no escuro da sala. Observando os círculos de fumaça, lesmamente eu ressurgia por trás dos meus castos poros de leite, cândida e madrepérola medicamentosos. Tive uma aflição. Suei frio e pensei que fosse botar um ovo. Comecei a ouvir. Tocar. Sentir. Cheirar. Saber. Então compreendi o absurdo que havia feito: estava há um ano casado com uma mulher que conhecera num hospital, uma mulher que gostava de new age, kenny g e acelga. Puta que pariu!

Refleti que essa era a sina dos relacionamentos modernos. Numa festa, você conhece alguém que parece ser muito legal, mas que quando você menos espera, assim no meio de um jogo de futebol num domingo oco, ela coça o nariz e fala pobrema e menas e adevogado e imbigo e conta que votou no Collor. Mais ou menos assim que eu me sentia: um consumidor batendo na porta do Procon. Não sei como diabos consegui me enfiar num buraco tão fundo, só podia mesmo tê-la conhecido num bueiro que dava para o rio Tietê. Entretanto, apesar do alumbramento na sala, demorei a fazer alguma coisa para limpar a grande cagada. Quantos dias me desesperei tentando encontrar em seus olhos nublados aqueles brilhos de peixe elétrico abissal, retornado de suas virilhas banhado em lágrimas… só encontrava cheiro de acelga. Então, como todos os homens que perdem a fé, quis disfarçar e ser um impostor para mim mesmo. Como eu trabalho fora e ela quase não sai da sala de casa – onde atende como terapeuta corporal e taróloga, o que, para qualquer um mais imaginoso poderia transpirar a delírio e putaria, mas que, no seu caso, era só isso mesmo [e olha, “superprofissional”, ela dizia sensalícia, em seu sotaque da Vila Mariana] –, fui espreitá-la em outras mulheres. Todas iguais: olhos azuis, pele branca, cabelos cor de outono, pentelheira vermelha. Onde termina a vingança e começa a saudade? Andava de carro devagar, lupinamente passava por videolocadoras, colégios, confeitarias e cabeleireiras, procurando fêmeas que se lhe assemelhassem do lado de fora. Felizmente, do lado de dentro, todas elas com cheiros e gostos tão diversos quanto as paletas de um impressionista. Cada buceta uma boca que exalava a próxima fome.

Mesmo assim, com tanta sacanagem fora de casa, eu ainda voltava para ela de pau em riste, todas as noites, todos os dias, todas as tardes – sempre tarde demais, e no entanto o vazio entre nós era cada vez mais aumentado pelas músicas novas do kenny g [me recuso a grafar em caixa alta o nome desse anão musical], da new age e das cartas de tarô e das sessões de massagem em velhas gordas com bico-de-papagaio e saladas de acelga temperadas com óleo de girassol. Quanta tristeza, meu deus, eu sentia. Porque sempre, em cada mulher diferente, havia sempre a mesma mulher igual, aquela assombração que se acupunturava à pele. Foi nessa época, quando passei no médico para tratar de uma gonorréia, é que descobri que, nas águas pestilentas do mesmo rio que me dera minha esposa, tinha ganho uma estranha doença. Feito um terceiro olho. O que me desperta, hoje, uma nova esperança de dentro da minha prisão insípida e inodora.

Esta manhã. Observo a mulher com quem passara a noite vestir-se nesse quarto pobre de hotel – já nem procurava disfarçar minhas infidelidades, Lúcia se despreocupava de minhas ausências. A luz do sol rebatia em seus pentelhos ruivos, desaparecendo por trás da negra meia-calça. Uma mulher despida de todas as vaidades do mundo quando abaixa-se para pegar, do cesto de frutas que caíra no chão, uma mísera maçã. Um animal esfomeado, matando outra fome, pensei; pois uma fome leva a outra – assim como uma mulher a outra. Mas esta aqui parece uma fêmea intensamente simples, o que me comove até dar vontade de morder os cotovelos. Enquanto Lígia, não sei, talvez Lucrécia – todas as mulheres são iguais, todas iguais à minha mulher de acelga – arruma suas roupas na bolsa, lembro-me de Lúcia, antes de viajarmos em lua-de-mel para Puerto Vallarta, no México. A última – única – viagem que fizemos. Suas calcinhas e caleçons escapando pelos buracos da mala como línguas brincalhonas. Não, não há nostalgia: há apenas um grande cansaço. Pois antes houvera uma esperança – e toda esperança cobra por seus odores, e cobra caro.

Eu medito, na despedida alta e vaga da mulher sem nome, que o motivo de as mulheres sempre fazerem uma mala com muito mais roupas do que realmente vão usar é porque elas precisam levar muitas roupas para terem muitas escolhas, muito mais chances de decidir sobre seu destino – destino que, nas mulheres, é muito influenciado por aquilo que ela veste. Súbito, vem a recordação da voz de Lúcia no hospital, após nossa primeira noite de amor: em seu carro estavam as malas que preparara no propósito de fugir e mudar de vida. Só então percebo que, enquanto que eu era um pobre corretor de seguros indo trabalhar maldizendo a chuva, Lúcia fugia. Maldita coincidência. Eu fora a fuga. Por isso, sempre que fugia dela, para ela voltava – o bode que expiaria o pecado de uma mulher sem cheiro original.

Não posso com potássio. O tratamento no hospital me trouxera essa alergia, foi o que disse o médico. Fatal. Assim, dirijo-me à mesma cesta de frutas de onde Lígia ou Lucrécia retirou a maçã e descasco uma dúzia de bananas. Corto-as em rodelinhas, jogo um whisky vagabundo por cima e religiosamente como tudo. Ao espelho, olho meu bigode. Ah, de quantos sabores se tingiram esses pêlos… Cruzo as mãos no peito, espero. No rádio toca uma esquecida música de Carnaval. Graças a deus ainda posso sentir o gosto das bananas, penso, quando vejo pela última vez o vulto pálido de Lúcia vindo me buscar.

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Verão, 2000.

Ciência e arte

com os agradecimentos ao amigo Ortinho

Nessa época, eu namorava uma garota com o nome de Maria Madá que era completamente louca. Na Soparia, um dia deu pra gritar que graças ao diu eu não era pai. Dio, como ti amo, cantou meu amigo W, lá do balcão – e vários outros o seguiram. Ela dava de levantar a saia vermelha pelas ruas do Pina. Arretei-me. O povo todo se abria, a molecada pedia: mostra a periquita de novo, mostra, mostra, mostra! Não se fazia de rogada. Galega pentelheira, olhos pretos, pele branquinha, seios recurvos pro céu e uma bunda de voltar a acreditar em Deus. Rica, família de Apipucos, subúrbio de Recife, pai cirurgião, avô senador, bisavô coronel. Todo dia no colégio um escândalo diferente – Maria Madá não curtia os remédios que o pai lhe entuchava, ou então misturava tudo, fumava maconha junto, descia com jurubeba. Ficava boazinha. E enquanto meus amigos tiravam o maior sarro da minha cara, eu só queria saber de tirar a maior onda com ela – porque, no fundo, queria desentender aquela cabeça aquele corpo possuído pelo diabo: e só conseguia ficar ainda mais louco pela louca. E ria, ria, ria. Belo dia, pruma casa de repouso o pai mandou a garota – tinha ido comprar pão nua de novo; chega.

Visitei-a. Contou-me que a vizinha de quarto tinha um vibrador. A noite inteira – Maria Madá ria. De vez em quando ela me empresta, piscou o olho pra mim. Chupei sua buceta detrás duma árvore do jardim zuado com umas esculturas de Brennand; alguns loucos ficaram olhando e socando uma. Nem liguei, amoroso que estava; e era. Ia saindo sorrindo, enxugando meu suor e minhas lágrimas, quando topei com a psicóloga que lhe atendia. És o namorado dela? Sou sim senhora. A trintona tinha coxas grossas e maneiras finas: prazer. Sempre quis lhe conhecer. Olhava-me serpente debaixo do óculos, a morena psicóloga. Tu, o que fazes? Sou roqueiro, toco numa banda. É mesmo? E usa drogas? Pirei nos peitos vesgos da psicóloga, não parava de olhar pra lá não. Todas. Fui ficando troncho. Quais? Clareou: do escuro da saia, a calcinha branca. Pó, maconha, cachaça. E me garanto. Mas é isso o que está enlouquecendo sua namorada, ela lascou, enquanto abria a blusa. Você precisa participar de nossa terapia de grupo, ela gemia, severa, enquanto eu lhe metia no papeiro. Sinto muito – arretei-me, devolvendo o pau à cueca. Fodo louca e psicóloga, mas de terapia de grupo eu não participo.

Maria Madá saiu uma semana antes do prazo. A psicóloga achava que a alegria do Carnaval poderia curar a loucura. Ciência de merda. A garota tinha que tomar duas cápsulas por dia, nem lembro que porra de remédio era, só que via sabores e comia cores. Chegamos no meio do Sábado de Zé Pereira. Já dois blocos depois perdi a garota. Fui reencontrá-la em casa, cheirando cola com meu amigo W, vestido de pierrô ele e ela de colombina. Não me restou outra alternativa que cochichar para W que eu tinha visto a Perna Cabeluda subindo pela Ladeira da Misericórdia. Ele entendeu a mensagem e se mandou. Aí mandamos as cápsulas pra dentro, ela com água eu com caninha Pitu. Fodemos a noite por quinhentas Vassourinhas. Ela gozava com os olhos no teto, suor frio e estremeliques. O domingo todo conversamos e transamos. Uma das coisas que Maria Madá me contou era que a louca vizinha de quarto tinha se matado com o vibrador na banheira. Encontrada com o cu frito. Muitas risadas, nessa época.

Segunda-feira o Bloco da Corda entrou em nossa casa na Ladeira da Misericórdia nos acordando e chamando pra ir brincar. Maria Madá pediu pelo amor de Deus que fossem embora, porque eu ia comer sua bundinha só mais uma vez. Quando foi alta noite de Terça-Feira Gorda notei que Maria Madá tinha sumido. Notei também que nós tínhamos tomado todas todas todas cápsulas de remédio. E que meu pau estava ensangüentado. Nele, grudado, um bilhete garatujava que o diu tinha caído e que ela foi buscar outro. Terminava dizendo que ia ver o Bloco do Segura a Coisa – salve o teu Carnaval.

Encontrei a galega no Beco do Mijo. De repente, minha vista ficou toda preta. Cada um num buraco, Maria Madá estava fodendo com três negões vestidos de enfermeiro. Psicodelia ou sacanagem? Argilo, se for logia – com certeza. Antes que eu chegasse perto, entrou no meio um maracatu. Olinda jamais foi a mesma, e nem eu – aluado da cena, degringolei-me de marijuana pau do índio ácido lança e nas Cinzas fui parar no Hospital da Restauração, donde saí um mês depois totalmente liso e desfragmentado. Nisso, perdi de vez a garota – nossa banda estourou uma música e eu vim morar em São Paulo, tudo tão rápido. Dia desses, cruzei na Vila Madalena com meu amigo W, que me contou: Maria Madá tinha casado com um dentista rico de Boa Viagem, chamado doutor Apocalipse, que, apesar de sofrer de hemorróidas, consertou a ela os dentes e os miolos. Agora, parece que a galega borda painéis com motivos sertanejos e os vende na Casa de Cultura. Eu ria, me abria. No Recife, tudo é possível. O que fode é a ciência.

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Verão, 2000.

O país dos sonhos

para A. A.

Depois de ouvir os mais doces argumentos e driblar várias tentativas e enrolar sua própria vontade durante um ano, Flavinha decide finalmente dar a bunda ao Fê. Para degustar com toda pompa e circunstância o grande momento, o jovem casalzinho, que se conhecera via internet, cria um pequeno ritual, à base de velas, incensos, blues e pomadinhas. Pontualmente, ela o esperaria à meia-noite, toda sua, em sua casa – limpeza: no mesmo dia, os pais teriam viajado para a praia. Deixaria a porta aberta e prepararia uma surpresa, longamente antegozada em e-mails que combinavam romântica e milimetricamente a cena – Fê: de tudo ao meu amor serei atento; Flavinha: promete que vai pôr devagarzinho; Fê: como é uma noite especial não vou usar camisinha; Flavinha: antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto; Fê: vou te dar uns tapas na bunda; Flavinha: não esquece de pegar forte na minha cintura; Fê: mas que seja eterno enquanto dure; Flavinha: antes, quero que você passe sua língua no meu cuzinho. No caminho para a grande noite, o poderoso Audi de Fê morre numa esquina esquisita.

Na mesma noite, depois de jogar no cesto de lixo a última Playboy, seu Vavá, o zelador, enlouquecido por uma insônia que não o deixa dormir há duas semanas, resolve sair do quartinho e rondar o prédio. Flavinha liga o som, acende todas as velas e incensos e confere a lingerie Victoria Secret’s. Andar por andar seu Vavá anda alucinado, buscando cansar-se e dormir; talvez, sonhar. O capô do carro aberto, Fê não entende nada; pra piorar, a bateria do celular zerou. Flavinha ao espelho: mais gostosa que a Tiazinha. Muito melhor, pensa – falar inglês, decorar a tabela periódica e a programação de desfiles do FashionWeek não é pra qualquer putinha. O primeiro andar não oferece a seu Vavá nenhum trabalho que não seja retirar o lixo do corredor. Desistindo de ligar para a namorada, Fê caminha por várias ruas, desesperado por imaginar aquela bundinha sonhada dele agora tão próxima e distante.

Duas horas antes mesmo, Flavinha dá uma última olhada naquele site que ensina pompoarismo, pra certificar se seus músculos púbeo-coccígeos já estavam treinados: as milenares artes amorosas prometiam delícias divinas – e nenhum incômodo. Seu Vavá tinha uma hérnia no disco, o nervo ciático estrangulado e sazonais hemorróidas quando o Corinthians perdia, o que lhe despertava a insônia, e não encontra nada especial no terceiro andar. Já o mecânico que Fê encontrou torce para o São Paulo, conforme revela o pôster do lado de uma enorme foto da Tiazinha na oficina, e lhe diz que cobra quinze reais só pra dar uma olhada. Para garantir, Flavinha abre o tubinho importado de pomada à base de água – que custou cinqüenta paus no sex shop para onde enviou sua melhor amiga Alê, pedindo pelo amor de deus que não contasse para ninguém na turma o que ia fazer; o que, na verdade, queria que a amiga fizesse –, lambuza a pomada no dedo médio, e, sorrindo, pensa no pau de Fê. Nada, acho que o Alex joga muito mais que o Marcelinho – é a discussão de Fê com o mecânico, antes de chegar ao carro. As hemorróidas estão particularmente febris hoje, quando seu Vavá testemunhou a derrota do Corinthians por cinco a zero; nada também no quinto andar. A lanterna acesa, o mecânico profere o veredicto: velas sujas. Faltando cinco minutos para o horário preestabelecido, Flavinha abre de leve a porta da sala, volta para o quarto e deita-se de bruços sobre o edredom azul – estrategicamente esquecida ao pé da cama, uma foto de Brad Pitt. No corredor escuro do sétimo andar, seu Vavá nota uma língua luminosa saindo por uma fresta. Estranho – pensa o zelador –, os Valadares são tão precavidos, não iam deixar a porta aberta antes de viajar; um assalto? Fumaça de incenso no ar: devagar, a porta é empurrada. Velas ardem, em vários odores e cores, e uma música muito estranha toca no cdplayer. Fê olha o relógio enquanto o mecânico troca as velas: meia-noite. No quarto, Flavinha se masturba, expandindo e comprimindo os músculos púbeo-coccígeos cientificamente.

Girando no ar difuso do quarto ao fim do corredor, um pé dentro de uma meia negra é a primeira coisa que seu Vavá vê quando entra na sala. Aproxima-se lentamente e vê Flavinha com a bundinha redondamente para cima, vestida com cinta-liga e luvas pretas, rebolando insistente sobre as mãos.

Mas o mecânico não aceita cheque, assim Fê tem de procurar um caixa eletrônico. Em transe, o insone Vavá tira as calças e remexe no grisalho pau: incrível como vai ficando duro, depois de tantos anos. Por sorte tem um 24horas na esquina, e Fê consegue finalmente disparar a cem por hora no seu Audi. Vavá puxa Flavinha pelas ancas e abre sua bunda como uma flor – dela todos os poros agradecem e suspiram. De olhos fechados, arrepiada, Flavinha delicia-se com a barba meio malfeita que o namorado teria deixado – ai, como vai ser selvagem, e ele nem fala nada comigo, parece um estranho, igualzinho o que combinamos; Vavá abaixa-se e lambe entre as nádegas vagaroso, até chegar, em suaves e comovidos beijos, ao pequenino orifício, rosado, liso, brilhante como um pisca-pisca – assim, apruma-se, coloca seu pau exatamente em frente às nádegas; e, como Flavinha pedira, pega firme naquelas ancas malhadas em academia. Fê estaciona o carro em frente ao prédio da namorada. E então uma violenta palmada é desferida na nádega direita da Flavinha, que geme ai, Fê, enquanto Vavá irrompe subitamente pelas dobras de seu cu, ai Fê, seu animal – cada andar que Fê conta no elevador é uma estocada que o insolente pau do insone arremete por dentro da bunda de Flavinha, ai Fê, vai, mais forte, assim, isso, me fode forte assim, eu sou sua putinha – tensa, ela tenta lembrar-se de todas as frases que leu na Nova. No momento em que Fê, aliviado, percebe no apartamento os aromas e sons combinados, seu Vavá sua, bufa e goza; Flavinha, sentindo-se mais molhada, e também com um conhecido incômodo, percebe que é o momento certo para gritar: Fêêê! – então há um momento confuso, em que surgem uma bola chutada no ângulo de um gol, vozes de mulheres perguntando e aí conta como foi e uma dúzia de orelhas vermelhas – um momento infelizmente breve demais.

Lânguida, Flavinha vai se virando na cama gemendo e sorrindo – para daí o susto: Fê não está sobre ela, mas lívido na entrada do quarto, observando o pau – um pouco sujo – de um sujeito de uniforme saindo do cu de sua namorada, vestida de Tiazinha. No hall, outro elevador estaciona, ouvem-se vozes – que coisa, tinha que esquecer as chaves, a gente já estava na Imigrantes, olhaí, Flavinha, só porque você não quis ir com a gente; mas quê isso, que são essas velas? Seu Vavá arfa, Fê arregala-se, Flavinha leva a mão ao ânus dolorido; os pais entram no quarto. Então, observando ainda a inacreditável bunda que acabou de comer, seu Vavá cai duro na cama. Direto para o país dos sonhos.

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Verão, 2000.

Sangue do meu sangue

com os agradecimentos a Gílson Rampazzo,
que me ofereceu mais este argumento

1: um homem mais homem que homem

– Nem. Você me pergunta isso; fosse simples. Na verdade, seja. Diabo que a verdade sempre diminui no que se crê. Mas você conhece esse troço do que é real muito mais do que eu. Muito mais que um reles lixeiro. Lixeiro reles, declarei? Costume de superadjetivar tudo, culpa do meu ofício. Hein? Os fogos lá fora? Não ligue pra essas explosões. Não chegam até nós. Não se fale disso: vou te contar agora desses estouros a centelha. A dinamite que inventou essa tempestade ao redor. Confie, eu sei de tudo. Confie: não há o que temer, isso lá fora não nos atinge, fique certa.

Contava: eu, como o que sou, ainda que no atual não exercendo, como você bem sabe – liso lixeiro, sinistro zero –, minha árvore genealógica não se enraíza no natural, o que, contrariando seu parecer, me gosta, posto que me livra. Compare meu fazer ao de qualquer animal: mais fácil uma galinha botar um cubo mágico. Nem foi mais longe gambá, hiena, urubu – ou mais perto – no mundo do imundo. Também você, embora de diverso jeito. O que tenho pra contar, acho, faz espantos e cria nojos, e desde já me menciono em desculpa se ofender – é que sem querer a gente pisa na casca de banana. Portanto. Crie na sua testa um animal humano, legítimo, um homem mais homem que homem: logrará o lixeiro, o catador, o faxina, o gari. Resolvesse o homem brincar de deus inventando um golem à imagem e semelhança, em vez de ariano boneco em ficção científica o demiurgo fabricaria um lixeiro. Assim, pois, adão de mim, é que me insto em sua imaginação: bem-vinda ao mundo em que audaciosamente ninguém esteve.

Para começo, entenda que esse mundo é distintivo em famílias, gêneros e espécies. E o que você tem vis-à-vis é realmente uma avis rara. Viu? Rapidinho de reles a raro. Intuo ser indivíduo único – pode intentar como seriam meus descendentes? Tripas pra tanto ninguém teria. Pois nosso grotão é todo ele mais grotesco. Desse mangue conheço do primeiro vírus à última hemácia. Não é qualquer um que se chama Nuido.

2: a coisa coisada

Mas desviamo-nos do assunto; mania de lixeiros, dispersos sempre em meio a detritos. Se deixe o biológico de lado. Nós lixeiros somos gregários animais. Pelas ruas das grandes cidades, de manhã, de dia, de tarde, de noite, de madrugada, andando, correndo, jogando, catando, gritando fosforescentes nossos uniformes para nos diferenciarmos do redor – planta, carro, rua, gente, nada nos combina –, à volta da nave-mãe, o Caminhão de Lixo, que barulhenta e geringonçamente vai redeslizando alesmada seu rastro gósmeo, pelo asfalto, grande caracol tarugo invertido no tempo, dois passos à frente um atrás, acostumado, rotineiro ruminando as porcarias, entulhos, restos que lhe atiramos – o que, os técnicos preferem, chama-se processar o lixo – até voltarmos ao fim de tudo, o Depósito de Lixo, Aterro Público, o Outro Mundo das coisas matérias, agarrados pensos nas bordas e corrimãos fétidos do caminhão, suados, encrespos, fedidos à potência de origem. Mesmo que muitos de nós trabalhem de dia ou madrugada, a maioria funciona noturna. Somos assim na decorrência, como aliás tudo em nós: é que de noite o caminhão de lixo em seu lento arrastar e a bagunça dos lixeiros desatrapalham as pessoas comuns, diárias. É um trabalho sujo, mas alguém tem que fazer. Mas melhor não incomodar.

Você até pode deferir: é o trabalho que nos define. Certo, em partes. Que seja o sonho de alguém ser lixeiro quando crescer não é justo: a maioria de nós encara o trabalho tão-só um serviço – não como a profissão que é. Todos afirmam esta circunstância muito da passageira, um dia vão sair para outra melhor, não seja a morte quem sabe motorista de rabecão, fiscal de trânsito, garçom. Tem idéia de que são ex-detentos muitos colegas? Aqui aportam os desajustados: agora tenho um emprego – dizem. Ter um emprego – deixar de coisa para o estágio de coisa insignificante. Assim, de novo adjetivo o demais: o lixeiro é a coisa coisada.

Se o homem é o único animal da realidade modelador, o lixeiro é o único animal humano que domina sobre as últimas do real: as coisas que vão ser jogadas fora. Como uma espécie de coveiros, ou padres que vêm dar às coisas sua extrema-unção. E já que esbarramos neste assunto, me permita falar dele – tudo bem, já vou chegar no meu propriamente-dito, todo esse preparo é sim necessário. Mas: agora: pense, pense no lixo. Tudo aquilo que é inútil, não-aproveitável, indesejável, malvisto, feio, gasto, usado, fedido, medonhento, repugnante, asqueroso, podre, barato, mísero, imprestável, invendável, lamentoso, sujo, nojento, fora-de-moda, brega, amorfo, estragado, doente, velho, irritante, consumido, escartável, passado, pobre: tudo aquilo que é quase nada, uma materialidade reduzida ao estado de coisa, nenhuma consciência, necas de pitibiriba transcendente. Esta é a matéria de nossos dias, de nossas noites. É esta visão que preenche nossos olhos, é seu cheiro que afunda em nossas fossas nasais, de seu consistir cresta-se nossas mãos, a quietude plena de seus barulhos adormecidos se aconchega em nossas orelhas, e, muita vez, é com seu gosto que brinca nossa língua, nossas papilas – de nossa boca o céu.

O lixo. Sua majestade adversamente una. Se o lixo diz do muito que é feita sua civilização, o labor do lixeiro tem tudo a declarar da consciência. Pois o fim de todos nós é o meio do lixeiro. Essa é a história de um homem que viveu intensamente a experiência de ser na mais profunda escória.

3: caraminholar

Porém, de nada desse meu discurso eu tinha consciência quando fui tentar preencher a vaga de lixeiro. E fui na cata desse trampo justamente pra limpar minha barra – veja você. Essa época eu estava numas de avião dum pessoal da Vila Brasilândia. Só leva-e-traz, pé de chinelo que era, sempre no demais bunda-mole, office-boy de traficante, entregava a farinha pra playboyzada dos Jardins. Uma noite, um frio do cacete – a senhora me desculpe a expressão, eu tenho esses arrotos –, estava sentado num boteco da Prainha, na avenida Paulista, tomando um chope, esperando o otário. Distraído infeliz, pensando na palavra caraminholar.

Gosto muito do som dessa palavra. E também de paralelepípedo e antiinconstitucionalissimamente: uma vez na escola me disseram que essa era a maior palavra da língua, e eu imaginei-me como um trem de letras na ferrovia da boca, uma avenida de sons; de noite dispunha de sonhos com a palavra aos deslizes pelo meu corpo, mãos, línguas, pêlos de afagos, passeando pelo meio de minhas pernas, antiinconstitucionalissimamente uma serpente me enroscava e me acordava, suado só no barro do barraco – e uma vez era mesmo uma cobra que por ali esmara subindo pelo meu colchão, dessas cobras d’água que nos córregos nadam, uma branca cobrinha rajada de marrom.

Não, não precisa ficar com nojo; é algo que você simples pega e pela janela joga. Na vida as coisas são um pouco assim: você pega e atira. Não é como as pessoas fazem com as bitucas dos cigarros atiradas pelo vidro dos carrões, os cuspidos do ônibus, os funcionários desfuncionais, os amores mornos, as cartas fora do baralho? Mas tem o seguinte – essas coisas voltam. Ou você acha que o lixo desaparece no ar? Nada se perde, tudo se recicla. A vida é um bumerangue. E quando vem o retorno, se precisa estar atento. Porque o sobretudo nas viagens, o principal, se sabe desde que o mundo é imundo, a ida não é, a vinda sim. E o que te conto é uma história de voltas.

Nisso cogitava a noite aquela no boteco – Prainha, Paulista, São Paulo –, o chope frio no meio da garoa fria, no aguardo do mauricinho. Lhe entregaria a pacoteira de pó, a pacoteira que pegava fogo toda vez que visse um camburão, um uniforme, um quepe. Sempre fui um bundolino. Esse medo não medro confessar. O cagaço me cortava dos dois lados, feito gilete na manteiga, me criava sangue de gelatina, perfazia-me barata vassourada. Temia aquém meus manos – principalmente o Pereba – me manifestar desesquematizado.

Pereba. Medo. Paúra do Pereba. De cortar prego, manja? De trancar o fiofó. E eu ali, sem um açúcar, pensando na palavra caraminholar enquanto desfilava o olhos pelas pernas das meninas, pra lá, pra cá, pra lá, pra cá. Chope frio, noite fria. Gostava de observar as dessemelhanças de formas e volumes – no na frente, no embaixo delas. Acompanhava – lembro, como se hoje – uma ruiva garota, que era, sabe, bem gorduchinha, ali nela, ao quando notei a torre da rádio Jovem Pan, a previsória, que no que o tempo de estar claro acende os neons verdes e no que fechará acende os vermelhos. Nessa noite fria garoenta – termo que lembra agourento –, a torre avermelhada torre. Interpretei um sinal, tipo assim. Sempre fui de mendigar besteiras do pensamento, a mente um cofrinho de vinténs sem destino. E foi pelo fato da antena arruivar-se que eu – solene sóbrio – depositei lento, cinematográfico, bíblico, a pacoteira de farinha e umas moedas últimas na mesa. E caí fora daquela vida. Mal sabia – da panela pro fogo.

4: vento e sol ao mesmo tempo na garoa da noite

Porra! Falando em fogo – esse passou perto, hein? Calma, não chegam aqui. Sério. Seguindo: nessa época devia de ter uns dezoito anos e já era assim grande feito você me vê, o pessoal da Brasilândia até incentivava-me a ser jogador de basquete. Olha só – acabei trocando as cestas das quadras pelas cestas de lixo. Como alego: era alto, e alto estava acima dos colarinhos das pessoas e dos chopes e mais ainda, pela decisão tomada – resoluto fui atrás da mina de sexo gorducho ruivo.

Nunca tinha andado com mulher nenhuma, de todo, solo; declarado bundão, não? – mas a noite aquela era capaz de todas as sagacidades. Fui na seqüência da menina pela Paulista, de longe, o tropico rebolado de suas carnes duras na calça rubra, dessas que levam um nome bacana na nádega direita, um pé na calçada outro no meio-fio. Não sabia, porém, falar o quê com. Vergonha tamanha. Aí que ela parou numa parada de ônibus. Ali também colei. Encarando. Grandes caras – a miséria no meu rosto devia ser uma babaqüera só, fidalgo de favela, conquistador abaixo de custo. Aí, o e-daí: a tal me sorriu, sorriso mole de borracha.

Ah. Quantos sorrisos não devem ter determinado as mais diversas sortes! Quem podia crer que naquele sorriso nascia um lixeiro? Não um: o – e tudo o depois, até agora? Ninguém nem eu, você menos. Veio dali um sorrir meu, e um papo meio besta, aranha, blablado, divagado vagarento que nem lembro mais, mas, você sabe, duas pessoas se encontrando não importa as devidas estaturas em sociedade – querem trepar, procuram a primeira árvore –, lero nos mesmos meio-fios de sempre; mais complexas ou mais róseas, o tom igual. E ela bebinha facilitava a conversinha mole. Pois nosso papear era do tipo pires, e nem precisava mais: ela de mim tava a fim. Me colheu. São sempre as mulheres as optadoras, eu não ou tenha atrás ido: ponto final. A senhora sabe.

Saímos do ponto de ônibus já se os passos enroscando esparsos, paramos de novo, agora frente ao Masp – sentamo-nos à beira do vão-livre. Pouco tempo custou para soar o primeiro round e nos embutirmos simultâneos em luta de dentes, línguas e beiços – isso mesmo, de beijos longe, do desespero perto, uma briga de foice no escuro. Sei lá o que a gente queria. As mãos feito cobras. Aquele cheiro de terra molhada. Escuro, garoa – vizinho, ninguém. Ali se curva um mato, sei lá que nome tinha. Mato pra mim é tudo igual – verde sobre o cinza: de cinzas sim, consigo compreensão, detalhes, nuances. E eu alto, altorreão, vermelho. Puxei no chego a ruiva. Falei: vamos? Mais cor na cara subiu nela, começando – é que… sabe… – É que o quê? – É que estou naqueles dias… – Como assim, que dias são esses, dias de não, impedidos? – Pro lado ela olhava – assim, de menstruação… Arrevesada, de completo.

Aí eu pesquei – o peixe das defendidas mulheres. Não tinha imaginado uma coisa dessa ocorrendo comigo; mas inclusive não tinha no lugar nada imaginado: e me sentia tão confiante que não via erro na situação. Tudo bem, na boa, falei, sem pobremas, a gente assim mesmo, beleza. Certo? Pela ordem! Riu-se ela, sua boca toda menina ruiva, dentes rubros, saliva ruça. Mas um céu da boca meio melancólico, de outono mesmo – rica menina buscando um pau solitário – ops, desculpe. Vento e sol ao mesmo tempo na garoa da noite. Um frio puto, despernado, mas, de saia, ela cooperou nos movimentos. E meias desceram. Bom. Foi. Foi bom. Foi. Foi a primeira vez. Eu não quero que você de um jeito precipite-se sobre os narrados. Nada de errado; pudor só tenho por particular. Como eu digo – tudo muito, muito bom. E só. Mais, não abro. Não me lembro bem muito o se que passou a noite aquela. As maravilhas da vida não são comida de que se guarda receita.

5: absorvente íntimo

Isso mesmo. Não pudorizo o conto por ter respeito ao nariz da senhora, não – minha memória vive negra desses brancos, feito pano de chão usado esgarçado em demasia. É que quando você se continua em longos períodos exercendo um fazer como o de lixeiro você empastela tudo de parafusos e engrenagens, nunca que vê a máquina inteira. Minha memória é esse retrato borrado. Bem. Fato é: acordei atrás de um arbusto desses de jardim com florinhas vermelhas e espinhos que esporram veneno, detrás do Masp, acima da 9 de Julho, enregelado com a calça meio aberta e o sol no coco – estranha mixórdia mal-temperada de sensações. Ela fora embora. Não, porém, despertei com o clarão do céu. Foi com o cheiro.

O cheiro crescendo dentro das narinas, feito uma caranguejeira peluda andada lenta, melados salgados doces pêlos. A caranguejeira suave ia e mole caminhando pelos meus pêlos do nariz, as fossas nasais subindo, seus passos sem nenhum som sussurrar, só ali e aqui pinicando agulhinhas pretas, macias maçãs-do-amor. Devagar, então, a caranguejeira aranha pisou forte-paquiderme, meio que a oitocar suas pernas compridando feito torre horizontal, oitorta, cada duas de vez: aí, a toque-toque na porta da minha caveira, ante-miolo, garrou firme suas presas na maçaneta – e meus olhos inventaram alhos e esbugalhos. E o que eu enxergava semelhava um pedaço de algodão meio cilíndrico meio amassado, com um fiozinho na ponta, manchas partes marrons, partes vermelhas. Um tempo de permanência imóvel, após depois de após, fiquei tentando entender seu tanto de senso. Dali vinha o cheiro – a aranha caranguejeira passeando dentro da minha cabeça.

Assim frente a frente com esse absorvente íntimo, logo vi ser da ruiva: ela referiu o mênstruo. Absorvente íntimo. Simplesmente linda essa conjunção de palavras; a senhora não acha? Fosse um ímã, um buraco negro na pessoa dentro, tudo sugando, auto-aspirador, cobra que engole o próprio rabo. Ao que se me avizinhei das coisas acontecidas, mais lúcido senti o drama que era ficar nessa de mendigo, dormindo no meio do jardim. Não dava. Que se picasse a mula. A começar por me vestir. Puxei as calças e já me subia a cueca quando vi meu pau, vermelho de todo, a suar rosas ocres nele todo. Horizontal torre. Engraçado, não é, mas não deixei de me orgulhar o meu pouco: as meninas, acho, devem de ter seu quinhão de arrogância quando dão a primeira vez.

6: inícios

Já pegava o caminho de casa no que, espontâneo, sacando o absorvente desiludido ali no chão, em gesto sem porquês, o peguei e o guardei em minha pochete, que usava à volta da cintura. Assim, cá fora do jardim, tranqüilo, feliz como um santo do pau cheio, um tanto mais aquecido pelo sol do meio-dia pino. No coração pulava uma criança de um domingo banguela. Fui descendo a Nove de Julho, pelo Bexiga, notando muito aqueles prédios feios, velhos, sujos, de cinza, de poluição, até parece que se fecha ali o céu. Narram mesmo os antigos que no rededor do edifício Joelma, perto da praça das Bandeiras – onde aliás só tem ponto de ônibus e bandeira nenhuma –, existe um campo de força negativa, pra baixo, o pior mais malévolo da cidade; ali redemoinho gira inverso no ralo dos banheiros, diferente de toda a cidade: é onde houve o incêndio que matou oitentas pessoas.

Ou não, coincidência: pregado num poste sujo perto da Câmara dos Vereadores, nas proximidades, vi um cartaz que propagandeava a Empresa, firma idônea de expressão nacional, a recrutar rapazes com o primário completo buscando um salário X, com disposição e dinamismo e ainda mais o belo propósito de importância social que é trabalhar na coleta e processamento sanitário. O salário era evidente uma merda, à altura ou seja, mas fiz rápido as contas: dava pra pular do barracão da Brasilândia e a companhia de vovó Aparecida pro aluguel de um quartinho ou uma cama numa pensão, sobrando quem sabe prumas biritas, ou pra tocar um puteiro, um pagode, um cabaré. Não eram os píncaros da glória mas também não eram os quintos dos infernos. Afinal, só pensava em sair fora do esquemão dos malacos do Pereba, descolar um trampo e me dar bem, viver um qualquer início.

Inícios. Idiota eu era. Fazer o quê. Meia hora depois já eu no depto pessoal da Empresa coletora de lixo, um número suado na mão e cercado de fedidos e fodidos por todos os lados. Duas horas mais veio a minha hora e vez, a minha entrevista, o meu perfil. Todos os documentos em ordem, conjunturei minha pobre situação de arrimar família. Meus braços eram fortes, dele saltavam veias como fios elétricos, meu pescoço era um tronco de poste, minha cara era de fome – e, pra melhorar o pior, meu nome era Nuido da Silva. Já visse? Um saudável suburbano, um descidadão disposto a nada, no geral. Ganhei uma vaga. Virei lixeiro. Simples assim. O depois é que são eu, tu, ele, nós, vós, eles e elas – principalmente elas.

7: sou o invisível

Acho que é melhor fechar as cortinas. Sim, é melhor sim; assim não se ouve tanto os barulhos. É chato, não é? Ficarmos aqui, como cordiais pessoas, conversando, em paz, e lá fora esses gritos, esses estragos, essas detonações. Mas não, fique tranqüila. Eles não vão chegar aqui; não nos acharão. Estamos seguros. Certeza, certeza. A polícia? Ora o que sabe a polícia? Nunca soube de nada, sempre prendeu quem nunca culpa teve. Se acalme. Nós aqui, a meada é nossa. Escute: não nos acharão.

Antes que avance aos fatos logo após ter tomado a segunda decisão mais importante da minha vida, me deixe relacioná-la com a primeira. Como no anunciado, eu perfazia o meio-campo entre os malacos velhos da Brasilândia e os maurícios dos Jardins. Isso quer dizer que os caras botavam a maior fé no meu taco. Significa ainda que eles nunca que iam triscar eu dar pra trás: só nego muito maluco e ponta-firme pra desenrolar um troço desse. Como dizia o Pereba pra mim, nos meus começos: nós é teu truta; truta fortíssimo: mas, no que tu marca com nós, te acho nem que seja pela tua catinga e te acabo com tua raça, faço do teu coco um depósito de azeitona. Palavra de homem racha, mas não volta diferente. E o Pereba não habituava bater palma pra louco não: o sujeito deu uma de malandro pra cima, dançou. Miudinho.

Por exemplo. Foi uma vez o Bagulhinho, um mané chegado num fumo, ser catado e recatado pelos home. O figura, chaparral de maconha, espremido, tido e havido como judas em sábado de pau-de-arara, deu o serviço. Zoou. Que era o Pereba o avalista da mercadoria. Que era o Pereba o contato com uns cabras que traziam a mardita lá de Serra Talhada, Pernambuco. Que todos doidos de São Paulo já puxaram o fumo do Pereba. Por um fio de cabelo o Pereba não rodou bonito; pegaram só o mano dele e uns lóqui que zanzavam pelas bocadas da Vila. E mais nada. Um mês e nada. Dois meses e nada. Parecia até que o Pereba tinha sumido de uma vez, ninguém sabia loisa nenhuma dele. Demorou: um dia janelou-se a cabeça do Bagulhinho, em cima de um orelhão comunitário da Vila – só a cabeça, a língua cortada pelo meio e o olhão aberto. Detalhe: desorelhado, dois buracões de cada lado. Deu até no Notícias Populares, primeira página e o cacete – o fim do boca-mole. Nunca que botaram a mão num fio de cabelo do Pereba. Ele é isso. Fora esse tanto, tem uma lábia legal, jeito de gente boa, curte salão, quadra, Corinthians e não entra em briga nem que você chame ele de viado. Mas vai tirar uma onda com ele, zoar ele na pilantragem, vai aprontar uma trairagem com ele. Me desculpe a gíria: ele te fode. E o que eu tinha aprontado, de certa forma, era desleal – entregar a bola pro zagueiro do outro time. O ruim é que eu sabia demais do esquema, e não via muito jeito em sair fora. E foi desembestado que escapei.

E aí, o lance que ele me declarou faz outro senso: não era à toa escolher ser lixeiro: ia cavar tanto latrina que o Pereba não me achava mais pelo faro; ia, na justa, acabar esquecendo desse pobre que vos fala. Raciocínio símio, né, fazer o quê, é o que girava na minha idéia. Desse modo, não podia nem pensar em voltar pra Vila catar minhas coisas, minhas roupas, dar um beijo na vovó, despedir dos camaradas. Tinha sumido do mundo. Engolido num cano. E ó, que isso nunca que me perturbou: só deu mais gosto naquela coisa de libertação, que eu falei, de ser lixeiro. Porque comigo os troços não se passam muito diretamente, na clara do ovo. Tenho uma máscara, uma parede sem cor que me aparta dos outros objetos, como se nada comigo ocorresse. Até minha cara é isso – tirando o fato de eu ser vermelho, conhece algum mais comum? Que nem eu tem trocentos. Nada me pega. Sou o invisível.

8: um jogo de marionetes pode ser bem o contrário

Pelo menos, ou, era isso que acreditava, dormindo cada dia numa parada diferente, até catar o primeiro salário e conseguir descolar um quarto num moquifo escondido onde só vivia uma viúva. Nesse primeiro mês passei fome, passei sede, não via água a não ser da chuva, nem sei como não peguei doença – a turma me tirava legal, me garravam falando opa sobrou um lixo aqui, tão nojento eu tava. Pra sobreviver nisso só tendo essa minha casca, que nem de tartaruga ou caracol. Eu era um caramujo de cara mijada. E fazia o que se faz – caraminholar, tempo todo.

Caraminholar é uma palavra que distingui com minha vó e que pra mim diz mais que só pensar. Porque ela usava essa palavra quando me pegava espiando os outros moleques empinarem suas pipas; do que fazer a minha própria, em vez, xeretava as dos outros. A dança dos brinquedos no céu, a briga pelo espaço nas linhas lambidas de cerol – aquele óleo de vidro, que se usa de sacanagem pra cortar as linhas lisas, trazendo o papagaio pro léu –, a procura pelas alturas onde é mais o vento, pra pipa sustentar, as cores diversas, formatos e outros tamanhos, as caudas, e a luta dos moleques no chão. Tinha dias que o céu da Brasilândia se semeava de uma colcha de retalhos multitimbrados, consteliforme, pluricoral de retângulos, hexágonos, quadrados, redondos, asa-deltas, águias, periquitos, gaviões, tico-ticos, anus, pombas, morcegos, assum-pretos.

E aqui embaixo os gritos da molecada correndo atrás das pandorgas, também na terra disputando o aéreo território, enrolando e desenrolando a linha das latinhas a rebrilhar a luz do sol, e aí os quebra-paus quando a outra linha se desentrelaçava na uma, cortando o fio do oponente e puxando o erradio brinquedo de volta para a terra, a terra enlameada e suja, não sem antes fazer um milhão de parafusos cegos, roscas e torneios velocíssimos pelos meandros do céu, até cair, cair, e então ser disputado pelo seu dono junto dos outros meninos quando aí sim o pau comia de verdade, grosso e de tirar sangue e dente, no final nem sobrando pipa desse enrosco, a seda pisoteada na lama, o barbante encrespado nos telhados de zinco dos barracos e as franjas da cauda em frangalhos nadando feito cobra no córrego, até afundar, soçobrando o jogo.

Cumpria tudo isso nos longes, às vezes só sentado rente a uma pedra, e me ilustrava que, no contrário do aparente, os donos é que falavam por seus papagaios, os quadrados no céu manipulando os seres da terra, eles é que eram os brinquedos dos brinquedos aqui no chão, sua briga no céu provocando a luta embaixo, os meninos sim seus fantoches. Principalmente depois que eu descobri, você deve saber disso, que os traficantes, traficantes como o Pereba, usavam os moleques pra que eles avisassem no que chegava a polícia na favela e o método era empinar certos papagaios, cada pipa de cor determinada que subia era uma boca de fumo ou pó que sumia, a polícia fechava na área e ninguém de nada sabia, e era aquele deus-nos-acuda se não tivesse vento.

Pensava nessas coisas e aí minha vó geralmente chegava raquitinhando a voz: – então filho, caraminholando de novo? Pra mim se inicia esse termo nisso: ficar pensando mas pensando em coisa inútil que não se aproveite, e por causa disso mesmo, por causa da sua cabeça ser uma draga que processa lixo, esse pensamento é só teu: já que não vale nada, ninguém quer ele, e isso faz de tu uma pessoa muito mais poderosa e livre porque você tem o direito total de mentalizar a bosta que querer – ainda mais quando a tua vó te questiona isso carinhando macio a tua cabeça, e tua cabeça tá percebendo justamente como um jogo de marionetes pode ser bem o contrário.

9: um céu só seu

Caraminholar, assim, é o livre trabalho de empinar o céu nas pipas – e era o único que eu fazia, no quarto que tinha conseguido alugar por uma merreca de uma velhinha muito da coroca chamada Genoveva, perto da 9 de Julho, um quartinho minúsculo que ela dizia ter sido de uma sua filha menor que casou com um detetive e saiu fora. Nesse aposento havia só um colchão e um armário. Voltava do trampo e antes de dormir ficava ali, caraminholando uma porrada de troços. Nesse caraminholamento foi que decidi que, diferente dos meninos-fantoches da favela, iria ter um céu só pra mim. Heh. Céu, sei. Olha só o céu que arrumei: nem abrir a janela posso.

Ter um céu só seu é muito mais fácil se você é só um, era o que eu acreditava. Contudo, sozinho era, ao máximo, basto. Não queria amizade com os colegas de trabalho, legais eles embora. Gostava da sensação de chegar, banhar-me frio – já me havia jogado uma água na Garagem, porém sempre um cheiro fica –, chupar uma sopa na cozinha, alta noite estrelada pelo ronco da dona Genoveva, subir no quarto, passar a chave a seco, me peladear, o corpo todo dores – e aí, caraminholar. Vez em quando caíam meus botões na lembrança da vó, dos manos velhos, e dele, o Pereba, e dela, a menina do Masp. Sem saudade, longe, só que. Numa dessas noites – bastante depois de ter me empregado –, recordei o que tinha feito. Não, na verdade vos digo, não lembrei: sonhei, que é outra forma de rememorar – sonhei com o cheiro aquele. O cheiro da caranguejeira. E acordei pra dentro de um susto viscoso.

10: centro do fim do mundo de tudo

Só então veio o fato do meu souvenir guardado. Abri a velha pochete, abri o zíper menor, de dentro: estava lá. O tal absorvente íntimo. Cuidoso, peguei, cheguei junto do nariz – não precisa caretear esses nojos; você já deve ter escutado horrendos piores! –, coloquei nas narinas, respirei fundo. Mas o cheiro, como eu tinha fincado na cabeça, não existia mais. Tinha um algo que lembrava à distância, uma coisa meia sabida a terra, e até com suor, não suor fresco, todavia; era um olor de roupa usada guardada em armário sem naftalina: e ainda por cima, de permanecer demasiada na pochete, pegou amor ao odor de nylon, de plástico, de borracha, uma mistura meio abafada e escura. Era um cheiro maturo, escurecido marrom-acinzentado – feito uma nuvem carregada.

Uma nuvem de final de tarde, de véspera épica tempestade, no todo do céu. Figure uma nuvem deste pelame, tão grande como a profecia do fim, tão enorme que parece o dia do juízo, alargando-se nas quatro direções, aproximando-se próxima com um arredondado som oceano, gordo-grávida batendo em seu estômago como uma feijoada inteira, tendo todos bumbos de um samba-enredo por sobremesa: imagine o tremor, a sensação, o tesão que isso eriça em sua pele; mas que ao mesmo tempo pareça um ventilador subindo pelas tuas tripas até tua goela, tua língua virando uma flor lunar elétrica, arrepiada, cheia de pêlos. Lua. Isso. Feito mulher atiçada pela lua cheia, a caranguejeira caminhava pela minha boca: despertada, queria dar, dar seu recado, oferendar seu carinho de aranha. E o que ela queria dizer, em palavras outras, só podia ser – outro. Fiquei andando pelo quartinho, dois passos pra lá, dois pra cá, descalço e silencioso, transtornado das idéias. É tão primitivo quanto se encontra a direção, você não acha? Mas tão complicado entender. Por isso vivemos: porque não entendemos.

Lua alta, no que acabou nossa ronda noturna, lá pelas quatro, zanzei com alguns colegas pelo depósito entre os caminhões que se esvaziavam – é contínuo rio o fluxo dos lixos nascentes e morrentes no Lixão, centro do fim do mundo de tudo. Ali, o lixo está em toda parte, assim como toda parte é lixo, até o empesteado ar, em seu rearranjo orgânico. Molas, bambolês, bobinas, transistores, chips, computadores, TVs, rádios-vitrolas, megafones, microfones, microscópios, microorganismos da grande Entidade; garrafas, copos, pratos, embalagens, papéis, barbantes, caixotes, lanternas quebradas; canetas, pincéis, – tudo do ruim e do pior –, cadernos, jornais, revistas, livros, cordas, palhas de aço – éramos nós os verdadeiros ratos daquele navio cujos passageiros haviam morrido afogados? – algodões, estopas, ripas, ferros, botões, papéis de presente, instrumentos não-identificados – depois do serviço, muitos de nós costumavam entrar escondidos no Lixão, pra ver se rolava algum barranco, se catava uma coisa boa, se se dava bem arrumando um valor, o que sempre ocorria, mas só suando muito –, fraldas, clisteres, papagaios, araras, invertida fauna, jacarés, macacos, zebras, ursinhos de pelúcia, presentes não-abertos, cartas não-lidas, publicidade desperdiçada, livros e cadernos jogados fora, pérolas aos porcos – de lá vem tudo o que eu li; caminhamos tropeçados outros nos uns, de rastos, de gato, na mão um saco preto de lixo e uma lanterna com a pilha gasta amarrada na cabeça a vasculhar, luvas fracas e amarelas descobrindo numa sacola plástica e outra a cobiçada matéria, nós garimpeiros do quase-nada, bandeirantes do Depósito, do semi-através cascatado, atrás de algum contra-treco – unhas, papéis higiênicos ainda frescos, camisinhas há pouco usadas, shampoos recém-esvaziados, iogurtes pela metade, jornais do dia, do mês passado, do ano retrasado, lixas de unha, pinças, giletes picegas ou não, lâminas de barbear sangradas, toalhas, – nossos focos de luz se cruzam nas coisas e nunca conversamos, jamais falamos a não ser grunhidos ou palavrões, ou uns mudos murmúrios remoídos porque pode haver briga entre dois colegas que são pais de família por uma boneca xuxa jogada antes do tempo de suas filhas crescerem, – pilhas, espelhos em cacos, remédios já inúteis, sais para um banho agora frio, pedaços de sabonetes cheios de pêlos e pentelhos, ainda úmidos, cheio de chorume, que é o sangue do lixo, tudo aqui é meio úmido como este feto preto recém-parido roído por sanguessugas que alguma mãe desnaturou – somos mãos enluvadas e faces em luto e focos de luzes em luta, a boneca loira perde seus cabelos entre porradas e xingamentos e a filha de alguém não ganhará nenhum brinquedo, como de sempre, a comida que esfriou acende o bucho de um terceiro cujo rosto trespassado por cicatrizes sorri tosco, e um quarto e um quinto se vão satisfeitos com algo que acharam que parece ser um maço de revistas de mulheres peladas, enquanto sétimos oitavos nonos ocos ainda cavocam cavocam fundo sem desesperar o achado de um conforto qualquer para qualquer obscura precisão; esperança, aqui fica seu último porão, – e assim eu recolho modess, sempre-livres, caresses, obs, carefrees, tampaxes de vários tamanhos até preencher meu saco de plástico preto que amarro cuidadosamente, ninguém me nota, todos estão imersos em suas buscas, e assim procuro a saída do Lixão, deixando para trás décimos vigésimos quarenta ladrões de tesouros que somente eles mesmos podem saber o que é, continuando sua louca coleta até que a noite termine para todo sempre.

11: dada a deixa

Porra. Acho que falei muitas coisas; assim, repentes, né? Parece que qualquer coisa se enfia pelo ar que respiro, e me encrespo todo o que pensar, o que falar. Mas não há rosa sem espinho: se a senhora quiser que responda àquela primeira pergunta que fez, vou ter que transpor todas essas lombadas e valetas. Hein? Não quer que eu te chame de senhora? É certo, não é tão velha assim… costume, sabe… acho que passei tempo demais sem encarar uma dona. Mas prefiro esse tratado, posto que nos põe mais longe… Por quê? É melhor; acho que sou um sujeito meio da antiga, apesar do que estou contando. Depois, no fim – se a gente chegar lá – pode-se baixar a guarda. Você verá, nem vai acreditar na verdade de tudo. Agora, não; agora, eu só uma voz sou.

Onde estava mesmo? Ah, na noite, na noite terminando. Que nada. Quatro e quarenta e quatro da manhã, sem estrela alguma que não fosse um solitário vôo de um avião entre nuvens grisalhas. A miúda chuvinha atrapalhava o lazer dos urubus, e eu caminhava perdidão, na busca de um buso que me levasse de volta ao coração sujo da cidade, não tão nojento quanto esta imunda cloaca. Olhava-me pelo bafo batido no vidro do ônibus oco, querendo reconhecer em mim minhas manias, meus medos, meus moveres. O que tinha feito? Pra que ia servir aquele saco de plástico negro oculto em minha mochila? Que animal estranho palpitava ali, feito de fibras sintéticas, restos de vísceras e sangue de mulheres tristes, desconhecidas, esquecidas? Era um feto em projeto; uma anti-gravidez ali se sustinha. Eu ouvia a música dos trovões, a parir um rato de garoa.

Tudo sólida solidão. O motorista lento. O sono do cobrador. O vôo pulsante do avião. Vejo: um garoto no ponto de ônibus, usando um agasalho de capuz, sentado num banco, levantando devagar devagarinho a cabeça, à medida que o ônibus chegava, e descobrindo a sua face não tão de garoto, engelhada e rancorosa, de onde brotavam duas bolas de um verde de veludo amanhecido – eu conhecia ele. O ônibus parou: sinal vermelho. O não tão garoto crescia seus olhos pra dentro dos meus, invadindo-me, e subindo a cabeça, descobria-lhe os cabelos em pequenas tranças e uma cicatriz da fronte à fonte esquerda, passando pelo cocuruto, onde não nascia cabelo. Em meu coração engrossaram-se cordas de aço de um escuro violão. Era o Triz. Explico – porque foi por pouco que a facada que ele levou na testa não lhe espetou os miolos: Triz era do bando do Pereba, braço direito inclusive. E me reconheceu. Foi. Pelo grande dos olhos, me viu e reviu. Pronto: eu era vivo pra Vila, de novo, passados meses muitos. De nervos, soltei um bafo no vidro, sumindo-lhe minha cara no negro do noturno ônibus. Ele ficou de pé, o ônibus saiu fora. Triz veio feito um doido atrás, fez sinais, o motora não se animou a parar. Eu olhando firme, duro, o ex-mano. Meu aliado, tinha sido. Então o tal gritou meu nome – Nuuu, o meu nome no bando –: improvisou nos dedos da canhota um revólver, e brincou que atirou. Era a senha. Dada a deixa. Que eu não me desouvesse de endividado com o Pereba, meu destino aí de calçar sapato de cimento e nadar no Tietê de testa pra baixo. Cada vez mais pra baixo. Desovado. Ia o ônibus. Falei: fodeu.

12: assim começou a fome sem fim

Casa. Noite desdentada, lá do outro quarto a velha Veva rugia seus catarros e parecia que ia parar no meio de um ronco estapafúrdio – mas não parava, e seguia. Que medo. Cagaço é a pior sensação que tem. É a única coisa que faz você sentir que tem um corpo inteiro, e que, se marcar, pode deixar de ter. No meu peito tinha uma escola de samba inteira formada de surdos. E surdo, eu, de sangue nos ouvidos. A cabeça gorda, os cabelos suados dentro do cérebro me agulhando. Frios os dedos dos pés, as mãos emperradas, unhando as palmas. Numa delas – o saco. Um saco cheio. Que era aquilo? Que que eu tinha trazido? Que tinha feito? Pensei: meu Deus. Mas que Deus? Deus, se ali tivesse, ali não deveria estar. Quarto meu não é quinta de Deus, é o quinto dos capetas. Não com o que se largava pela minha idéia. Caramba. O espantoso – o feito. Uma espécie de roubo, de seqüestro. De violação. Para isso pensava olhando o saco preto e seus volumes de mistério. Meu corpo foi, foi aquecendo, foi – o medo foi, findo. E então eu indiferente. Cinzento, pastoso, baboso. Como um imenso nada. De cansaço, caí.

Tinha falado que a caranguejeira queria outro. Porque aquele já estava de odor depenado: eu deveria topar com um diverso, de cheiro igual. Aquele olor primeiro. Essa ficou sendo a minha busca, naquele dado momento extremo de caraminholação. Não ria. É este meu graal: buscar cheiros. Achar O Cheiro. O primeiro, o da primeira mulher. Não, não se ria, não. Porque o cheiro do sangue velho, então, inventou-se tão importante como se fosse a menina do Masp sangue do meu sangue. E em certa medida, não considero tosco falar isto. Toda a minha vida, os momentos pra frente deste, foi tomada de uma nova estrada – limpa rota, seguro mapa. Então, conforme o que seja dito, trouxe pro quarto meu primeiro saqueado saquinho de absorventes.

Abri o saquinho. Abri a boca. Meu apetite abriu. Foi assim que começou essa fome sem fim.

13: inexplicável como a morte

Tem ainda um pouquinho de água nessa moringa? Agradecido. Falo muito, mesmo, demais da conta. É que fiquei muito tempo na miúda, muquiando as caraminholas. Não falava há um tempão, não sabe. Muitos dias e muitas noites sem falar… anos… talvez seja um erro. Foi assim, fazer o quê; tem coisas que não dá pra voltar atrás, você escolhe e se torna cativo da tua opção, ela te domina e você não pode fazer nada. E eu tinha inventado aquele caminho estranho. Acho estranho agora estranhar, porque na época era tudo o que eu podia crer. Inexplicável como a morte.

Fato foi que acordei com a véia Veva batendo na porta. Joguei o saco com os absorventes pra debaixo da cama e abri: você não vai trabalhar, moleque? Já está atrasado, venha tomar café! Que cheiro horrível nesse quarto! Você trabalha tanto com lixo que esqueceu de tomar banho antes de dormir? Porco! Velha horrorosa. Me fez saudade da minha vó. Tomei um banho – estava todo suado – tranquei o quarto e saí.

Dona Veva aparece aí, é. No prontuário meu, é. E primeira testemunha de acusação nunca se esquece como primeira namorada e primeira geral. Mas a prisão de onde você me conheceu veio muito depois, não é mesmo? O buraco donde saí com os olhos cheios de terra pra te contar essas coisas. Me lembro, você chegando na enfermaria, se enfiando pra dentro do meu silêncio. Aquele drama todo que foi nós dois se conhecendo, cada um desconfiado de um lado. Eu – bicho? Bicho estranho era tu e todas tuas lentes. Você me cutucando com vara curta. Escutando inteiros meus guinchos. O que tu queria com isso? Estou falando agora depois de anos calado.

Saí… quanto tempo eu não saio daqui? Tem vez que não me compreendo dentro dessa carcaça ralada de cicatriz. Ostra juramentada e suicida. Precisava sair. Ainda preciso. E de uma hora pra outra, a caranguejeira me mandou parar de caraminholar e me jogou pro céu negro do centro dessa cidade que engole gente com mil bocas flamejantes, lambentes, salivantes. Então, eu só queria dar um beijo na boca da cidade, pra se, sentindo sua língua na minha, entendesse aquele obscuro feito.

14: querendo briga

Entrei num boteco perto da rua Augusta, parte baixa, e mandei ver uma breja. Tinha um pêlo no copo sujo de dedos. Aquilo me subiu o sangue. Aquilo era uma grande sacanagem. Isso não se faz – ô careca, façavor de lavar essa merda desse copo antes que eu enfie ele inteiro no seu cu. Como é que é, moleque? É isso que tu ouviu, cabeça de ovo. Ou tu não é só porco como surdo? Lava esse copo e me vê uma cerveja decente. Sai daqui, fora. Fora o caralho, tô pagando, que nem todo mundo. Não pagou nada ainda, não precisa pagar – sai daqui! Quer que eu chame a polícia? E tu pensa que esse boteco de merda tá podendo mandar freguês embora, é? Cabeça de ovo! Olha aqui, garotão, tu tá fedendo mais que um gambá e ainda fica querendo luxo? Tu é um lixo! Vou chamar a polícia! Não sou lixo, sou lixeiro! Tu sim é um lixo, véio. E sabe o que lixeiro faz com lixo? Joga fora! Catei uma vassoura que tava ali detrás do balcão e enfiei o cabo no olho do gerente do bar, veio gente me pegar, escapei liso, de longe se escutavam seus urros.

Saí fora correndo, maior pinote. Queria briga. Zarpei por três esquinas. Tinha uma puta na calçada, o pernão em cima de um carro sorridente, sem calcinha se via por baixo da saia, ia passando por ela quando parei por trás sem que ela me visse e sem pensar meti três dedos na buceta da puta – a senhora perdoe novamente. Enfiei lá no fundo, ela gritou, virou, eu já tinha tirado a mão e botado na boca. Amostra grátis, madame, enquanto levava uma giletada no rosto e já pressentia a chegada do gigolô dela, sebo nas canelas e os dedos na boca, chupando o cheiro da xota debaixo da chuva que vinha aos poucos. Chuva, chuva, o cheiro na minha boca não era O Cheiro, naquele que eu tinha acreditado dentro do meu quarto, a vez primeira, gosto quase vivo e quente, mas não infernal. Queria briga.

Dançava por entre os carros que subiam a Augusta, os mauricinhos comendo as mulheres com o olho, quando um mais distraído tomava um tapa na cara, e aí corria e pulava dum capô pro outro até o outro lado da calçada, como era bom correr, largando outro tapa em outro tonto riquinho, passando a mão na bunda doutra nega pelada, xingando os cusões que saíam do cinema chique fazendo pose, trocentos trouxas em fila fumando seus cigarros e esfumando o nariz no céu, aí seus babacas, vocês gostam de cinema? vocês gostam de histórias? gostam de romance, ação, aventura, comédia?

Tinha um casalzinho lindo, os dois de mãozinha dada, a mina tinha uma boca grande e eu queria beijar a cidade na boca então meti meus dentes nos beiços dela que gritou e gemeu e chorou e o enorme imbecil do namorado dela ali sem fazer nada, só assistindo, tu gosta de assistir, né, sua besta? e a senhora? se lembra que tem uma xota só quando vai no cinema?, fiz, deslizando meus dedos pelo zíper da sua calça jeans, hum, que capozão, tá de chico é? que gostoso, seguranças chegando e eu me pirulitando dali, queria briga, cinco esquinas cruzadas de lado a lado já não conseguia enxergar mais nada tamanha a gana a sanha a raiva de tudo, vi um mendigo pedindo esmola, seu idiota, pra quê ficar se contentando com esse lixo aí, seu burro, não tá vendo que esse povo metido tá cheio da bufunfa, por que tu não fica mais esperto e arranca o ouro dos dentes deles, sua besta quadrada, tu merece morrer de fome, estúpido, aleijado mental, tu me dá nojo, sou lixeiro mas nunca vi um estrume tão grande na minha frente, me dá aqui essa grana de merda seu sanguessuga miserável, catei as moedinhas e os trocos amassados dele, o tonto se chorava vindo atrás de mim, por favor, por favor, tô passando fome, só tenho isso, como é que vai roubar de um pobre, que vozinha irritante do caralho, que mané fome, gente que nem você me dá pena, meti-lhe um pontapé na bunda, sai daqui, lóqui, sai fora, os canas vindo na minha captura com mil luzes vermelhas e azuis, eu é que não sou bobo, pulei um muro gradeado, me ralei todo no cimento e numas coroas-de-cristo que me lanharam seu leite mas que me esconderam dos escuros da noite ameaçante cem mil bocas de lobo querendo me rasgar o couro, os meganhas passando na rua, me escapei, eu ali, suando frio, rindo baixo, coração bombado, mão na boca, o gosto da mulher se despedia nos meus dedos e na minha boca ensangüentada pela giletada da puta. Não era briga que eu queria. Nem sei o que era. Quem é que sabe?

Era um prédio de apartamentos. Dali onde eu tava, podia ver o loucha do vigia, na guarita, nem tinha me visto. Ele podia ter uma arma e se me visse me matava. Mas ele também podia ser mais outro otário. Podia ser, não, era, a cidade era formada por uma grande massa de quadrúpedes sem vida, foscos, gente sem sangue, vagando por aí que nem zumbis, assistindo a filmes mentirosos, assistindo a mulheres peladas, assistindo ricos roubarem o mísero pão de cada dia de tipos desqualificados, assistindo a milionários batendo sua bolinha em jogos de futebol comprados nos bastidores imundos da cartolagem, todo mundo só assistia e ninguém fazia nada, esse prédio devia estar cheio de gente cinzenta assistindo a programas cinzentos em tvs cinzentas em salas cinzentas fugindo de suas vidas cinzentas, mas eu não, eu queria porque queria porque queria gritar minha grande vontade de nada pra esse mundo de merda.

E aí, tiozinho, assistindo seu joguinho de futebol em vez de prestar atenção nos malucos que podem te dar uma pedrada na cabeça? olhos esgoelados, o cara nem tchuns quando eu acertei uma cacetada na venta dele, pronto, ali no chão, foi, fui na cintura dele e arranquei o três-oitão que me dava a chave pra festa, a festa que ia começar dali a pouco, a cidade rebrilhava no berro frio que meus dedos agarravam com potência e carinho, máquina espelhando máquina espelhando máquina, vamos ver o que nos reserva de diversão esse edifício lotado por sonâmbulos de cérebro corpo sexo. Muito bem. Eu tinha cérebro, tinha corpo e principalmente tinha uma arma. O que não tinha, dona, acho que era juízo – mas isso, na boa, me responde, quem é que pode dizer que tem, na real?

15: cuidado com o vazamento

Onze andares. Contrariei-me: fui, porém, ao porão dos automóveis. De lá, sintonizava a caranguejeira. Olhos fechados e narinas abertas. Tinha dentro de mim como que uma fogueira cujos gravetos eram uns sentimentos estranhos de revolta, vontade, dor e tesão. Detrás do silêncio de gasolina, borracha queimada, umidade e chorume – o sumo do lixo –, pressentia a movimentação de oito patas peludas se comunicando com meus miolos em pulsos firmes. Ela sentia o que eu queria. Se eu já era dominado por ela naquela época? Não poderia saber. Tudo o que sei é que suas vozes ainda estavam em mim veladas.

A garagem, um útero de ferro – em breve ia parir um estranho animal caçador. Devo ser muito esquisito para você, né? Às vezes também o sou, quando num espelho – feito se fosse dois, três. Um, dois, três. Havia um tesouro ali perto. Ali perto havia uma escada – não, não estava naqueles baldes de lixo abandonados, era mais para cima. Só ia para onde as patas me empurrassem. Me pedissem que eu pusesse o cano na testa, puxava o gatilho. Mas agora elas só me pediam que eu subisse a escada. Que eu subisse a escada até o primeiro, o segundo… no terceiro andar já pressentia o cheiro quase insustentável. Seguia de olhos fechados quando bati com o nariz no apartamento 32. Como entrar? Não pensei muito – a caranguejeira me deu o toque no que apertei a campainha. Uma voz de mulher veio:

– Quem é?

– É o encanador – soltei. Logo me toquei que continuava com minha roupa de lixeiro, e com ela poderia me disfarçar de qualquer outra coisa reles. – Tem um vazamento no andar de cima, e só pode estar vindo do seu apartamento.

– Mas a essa hora? – a mulher parecia irritada.

– A senhora sabe como é, vazamento não espera hora nem lugar. E com toda certeza o vazamento vem da sua casa…

Ela entreabriu a porta e já mostrei o cano, sem vacilo. A mulher deu um pulinho pra trás, pra dentro da sala iluminada pelo azul da tv.

– Desculpe, mas tudo vai correr bem se a senhora não gritar. Não vou demorar. Quero só encontrar o vazamento – e avancei a mão entre suas pernas, adivinhando, debaixo da camisola, algo que me interessava. Ao mesmo tempo, fui trancando a porta por trás de mim.

– Nem pense em fazer isso – ela gaguejou. Seus cabelos estavam meio descorados e a pele um pouco maltratada, mas os traços eram retos, perfeitos. Gostaria de ter traços assim. Como será que ela me via?

– Não vou fazer nada que a senhora mesma não fosse fazer – e, num gesto rápido, puxei a cordinha do ob de dentro dela. Ele saiu pingando. A mulher gritou:

– Não! Por favor! Não!

– Calma, minha senhora. Eu não quero mais nada. Era só isso. Vim, como disse, conferir o vazamento… – e passei o tampão à frente do nariz, como os frescos fazem com os melhores vinhos. Mas a caranguejeira sentiu algo de errado. Embora cheirasse bem, este não era o tesouro que a caranguejeira me mandou procurar.

– A senhora tem uma filha?

– Não, moro só – ela soluçou. O sangue começava a se alastrar pela camisola e ela parecia muito envergonhada. O apartamento era bem bacana, decorado com muitas velas coloridas e perfumadas. Havia uma estante com um montão de discos de vinil – mil, dois mil. Umas centenas de cds, também. Devia ser uma mulher muito fina, para ouvir tanta coisa diferente. Se eu morasse ali, seria como sou agora? Quem eu seria? Teria as mesmas vontades? Pior ou melhor?

– A senhora está mentindo. Me leve até sua filha, prometo não machucá-la. – Lágrimas escorriam pelo rosto da mulher, que se desesperava com o bizarro que deveria ser minha aparição. O que não se conhece é sempre muito mais assustador. Tive um desejo de lamber suas lágrimas, de lhe dar um abraço. Acho que aquela mulher não recebia um abraço há muito tempo. – Posso lhe dar um abraço?

– Você é nojento! Vá embora daqui! – gritou ela.

– Eu pedi que não gritasse. E só pedi um abraço. Mas tudo bem, não vou ficar chateado com você só porque não quer me abraçar. Agora, me mostra onde está sua filha.

– Já disse que moro sozinha – gemeu, olhando de soslaio para o corredor. Debaixo de uma porta, vinha uma fresta de luz azul. A menina devia estar assistindo a tv.

– Olha, pode ficar tranqüila – murmurei, com a voz mais suave que poderia fazer. Quase tão suave quanto a voz com que te conto as mais cabeludas coisas. Guardei o tampão da mulher dentro da minha camisa e prossegui: – Vamos comigo até o quarto dela, não vou machucá-la, prometo mesmo. – Apontei a arma para a cara dela e em seguida o quarto. – Abra a porta, por favor. – Uma delícia ser tão educado com gente tão fina, depois de ter trombado aquela canalha lá embaixo.

Chorando, lentamente ela ia, quase me enganando em seu papel de mater dolorosa, até que, sem que eu pudesse prever, pegou uma escultura de cima de um vasinho, girou rapidamente e me acertou a testa. Logo senti o sangue jorrar do meu supercílio; mas segurei a onda e apontei de novo a arma na cabeça dela.

– Ei, pra que você fez isso? Já disse que não ia machucar ninguém. Agora vai ser sangue por sangue. – Abri a porta de supetão. A mulher se atirou aos meus pés, suplicando pela filha. A menina, que estava deitada debaixo das cobertas, pulou da cama tentando esconder sua nudez por trás do edredom. Na tv, um casal transando. A menina arregalou os olhos. Um mamilo ficou de fora. Devia ter uns doze anos. – Dá um tesão doido quando você fica menstruada, né? Agora, eu quero que você me faça uma coisa. Me dá esse absorvente que você está usando. Só me dê o absorvente que eu prometo ir embora.
Ela olhou a mãe, completamente assustada. – Faça isso que ele está pedindo, Erica. Ele é louco! – E voltou a chorar, agora puxando uns soluços lá do fundo. Não podia deixar essa em branco. – Não, minha senhora, não sou um louco. Louco é quem rasga dinheiro. Louco é quem bate na cabeça de um homem armado. Sou apenas um colecionador. A senhora não coleciona discos, objetos de arte? Eu coleciono absorventes. E o que temos aqui – puxei rápido o absorvente da vagina de Erica – é uma peça das mais raras. Esta é sua primeira menstruação, não é, Erica? – Ela arregalou ainda mais os olhos, como se dissesse “como é que você sabe?”. Aproximei o absorvente das narinas e deixei que aquele odor maravilhoso me invadisse. Fechei os olhos. – É uma pena que a maioria dos homens não tenha suficiente cultura para degustar o esplendor de seu perfume, Erica. Bem. Senhoras, era isso. Obrigado por tudo. Boa noite. Podem me levar até a porta?

Trêmulas, soluçantes, elas iam à minha frente quando um objeto piscando em cima da mesa me deu uma idéia. Uma idéia absurda, pela qual paguei muito caro mais tarde. Mas, como toda idéia absurda, ela se impôs sem condições – e desta vez, a culpa não foi da caranguejeira.

– A senhora costuma falar muito ao celular?

– Como assim? Quer levar o celular, leve, por favor, mas deixe a gente em paz!

– Responda à minha pergunta. Usa muito o aparelhinho? – Era um modelo moderno. Tinha-o visto em jornais e revistas velhos. Brinquei um pouquinho com os botões. Me deu vontade de levá-lo. Mas para quem telefonaria? E pior: quem ligaria para mim?

– Uso, uso…

– Tem outro telefone aqui?

– Sim, do lado do aparelho de som.

– Do lado do aparelho de som… a senhora tem tantos cds, não? Deve ter ouvidos privilegiados… tão privilegiados quanto o meu olfato, talvez… pensei agora que poderíamos fazer um pequeno jogo. Qual o nome da senhora?

– Mo… Monica.

– Senhora Monica, por favor, coloque o celular no lugar de onde tirei o absorvente.

– Como?

– Senhora Monica, apenas faça o que pedi.

– Você é um tarado! Um louco!

– Como eu já disse, louco é quem xinga um homem armado. Por favor, Monica, instale o aparelho.

Chorando, ela levou o celular entre as pernas e empurrou-o para dentro. Não devia doer – afinal, era um modelo tão moderno quanto pequeno. Logo, estava inteirinho na vagina menstruada de Monica.

– Por favor, qual o número?

– Hein?

– Isso que eu falei. Me diga o número do seu telefone. Se a senhora acertar quantas vezes ele está tocando, eu vou embora. Se não, coloco na xoxota virgem de sua filha.

– Louco! Nojento! Tarado! É 92526543! Seu puto… – E começou a chorar de novo. Pensando bem, Monica foi a primeira pessoa a me chamar desses nomes. Deve ser por isso que lembro dessa cena com tanto carinho. Digitei o número no telefone da sala e logo ele começou a tocar, dentro de Monica. Eu tinha colocado no modo vibracall. A cada toque, Monica gemia: um… dois… três…

– Interessante como as coisas adquirem utilidades insuspeitadas, não é, senhora Monica? Um objeto de decoração pode abrir um corte em um visitante… um absorvente pode se tornar um objeto de colecionador… um telefone pode emitir sinais inesperados. – O telefone, uma, duas, três vezes…, fazia a mulher ter contrações esquisitas. Dor ou tesão? Em geral, essas coisas estão tão próximas… – Quero que se lembre disso, toda vez que ouvir a campainha de um telefone. Sabe, senhora Monica, eu nunca tive uma namorada. Nenhuma namorada nunca ligou para mim. Mas agora, sei que, em algum ponto da cidade, sempre que um telefone tocar, pelo menos duas mulheres se lembrarão da minha pessoa. – O sangue não parava de escorrer em meu rosto. Pra que ela foi fazer isso? Notei que pelas pernas de mãe e filha também escorria sangue, um sangue escuro, denso, pleno, doloroso. – Lembrem-se de mim também toda vez em que estiverem chuvosas. Eu me lembrarei de vocês por muito tempo. Quem sabe um dia não telefono? – Discretamente, enquanto a mãe tinha o último espasmo, na décima-primeira vibração do celular, Erica sorriu. Será que ela entendeu meu jogo? – Onze. Muito bem, Monica. Realmente tem ótimos ouvidos. Obrigado pela noite e – abri a porta – tomem muito cuidado com os vazamentos. Até logo!

Quando tranquei a porta, pelo lado de fora, para dar tempo de fugir, pude escutar outro gemido de Monica. Estaria chorando – ou gozando?

16: um rei após o banquete

Essa cena repetiu-se tantas quantas vezes minha memória maculou-se de enganos – com exceção do detalhe do celular, claro, que só rolou daquela vez porque eu estava puto com a classe média. Mas esse ressentimento logo passou. Uma vez que me recolhia em meu quarto de três por três metros, era senhor de um reino tão particular que não admitia a concorrência de círculos inferiores habitados por seres amantes de pipocas, telefones e música plastificada. Deles – melhor, delas – só me interessava o trigo vermelho forjado entre cólicas e marés.

Previa em mim a caranguejeira que minha substância criaria raridades montanhosas se me alimentasse do supra-sumo de cada mulher interrompida. Onde em mim nascera essa fome, antes, muito antes daquela primeira mulher, não saberia dizer – talvez você, tão inteligente, me traga a resposta para esse vampirismo escatológico. Mas, então, não queria respostas – queria só saciar minha fome. Chegava em casa por volta das cinco da manhã e organizava minha mesa. Dispunha três ou quatro obs de entrada, vinho de mulheres maduras. Em seguida, o primo piatti consistia em dois semprelivres minis vindos de vaginas trintonas. Via de regra, o secondo piatti era o prato principal – quase sempre um grande modess usado por garota nova, na menarca, como Erica. Fechava o jantar com um carefree retirado no último chico de uma mulher que recém dera à luz – denso sangue de proteínas, hormônios e dores.

Com o estômago vibrando, a caranguejeira finalmente poderia dormir. Fechava meu armário-despensa e apagava as velas de minha solitária refeição. Sentia-me muito estranho, como se tivesse cometido um crime perfeito, como se tivesse feito amor com uma freira, como se tivesse escutado uma música nunca antes ouvida. De certa maneira, sentia-me um rei após o banquete. Em minhas veias corria o sangue de muitas mulheres, o que me dava uma sensação de força além de mim.

Às vezes me perguntava onde ia parar com essa dieta. Você pode ver em minha pele os resultados. Omulu de mim teria medo mortal. Eu não tinha essa cor de cobre, essa careca, esses olhos castanhos. Quando nasci, era cinza, meus cabelos eram negros e meus pensamentos não tinham tons. Hoje sou um homem rubro, defendido de todas as doenças. Minha sanha era ser imortal. E, depois de tudo o que me aconteceu, acho mesmo que não morro nunca mais.

17: corpo porco, alma lama

Mas você sabe. Como todos os aristocratas, pequei por não ter esgotado minha vontade na vontade pura – e, de auto-guardado, passar a guardador. Não me bastavam as noites sem-fim no Lixão, as batidas pelos apartamentos dos Jardins, os lixos que eu rasgava pelas ruas disputando com mendigos e mortos de fome, os catados pela ronda noturna de todo dia, os saquinhos escondidos dentro do uniforme verde.

Minha nova nóia era um pré-desespero na apreensão de um dia não ter nada. A caranguejeira me pedia cada vez mais alimento. Minha despensa se abarrotava para um suprimento de dois meses. Tinha até trocado a fechadura do quarto, para que dona Veva não me saqueasse – imagine, uma velha na menopausa, o que ia querer de meus brinquedos? Fui virando um vulgar. Pra ter idéia da minha vulgaridade, é só abrir o jornal daquela época. LOUCO DO ABSORVENTE ATACA DE NOVO NA ZONA SUL. A vulgaridade de uma pessoa principia na fotografia e termina nas colunas sociais. A minha começou no retrato-falado – e prosseguia nas páginas policiais de todos os jornais de São Paulo. Toda semana o NP trazia uma história minha diferente. Até começaram a inventar coisas: que eu roubava, estuprava. Nenhuma verdade.

E, para piorar, a minha insaciedade me desviava da rota principal: que era encontrar o odor primeiro, aquele graal da avenida Paulista. Não completava mais meu ritualístico jejum de uma semana antes de cada banquete. Comia a qualquer hora. Fui inchando. Estava para me acabar na pobreza de espírito quando um dia, ao abrir o armário-despensa em que guardava minhas iguarias, tive uma idéia.

Enfileirados, os retângulos branco-ocre-rosados em cada prateleira semelhavam uma espécie de altar. Eram sete prateleiras; em cada uma, havia uns trinta absorventes classificados por faixa etária, ordem de chegada e dia de regra – pois que até disso meu olfato se certificava. Resolvi manter aberto aquele relicário. Cheguei em dona Veva com a desculpa de que era um rapaz e precisava de minha privacidade. Assim, não deixaria mais que ela fizesse a faxina no quarto. Joguei fora o armário e as prateleiras e mantive meu esgarçado colchão de solteiro no centro do quartinho. Prossegui na acumulação dos absorventes, empilhando-os circularmente. Depois de três meses, interrompida a dieta, meu quarto se tornara um útero.

Chegava do trampo e, caindo na cama, era tomado por um formigamento completo desde o nariz até o último fio de cabelo – que, na época, já era raro. Em minha câmara secreta segregava os mais tempestuosos delírios. Nu, era possuído pela soma dos cheiros de mais de mil mulheres – estava indo onde nenhum homem, imagino, jamais estivera. Corpo porco, alma lama. A senhora não imagina o que vislumbrei naquele sarcófago. Escutava de cada fibra de algodão a mínima voz de uma mulher diferente – angústias, desejos, sonhos, medos. Ah, a plenitude daqueles dias… olhos cerrados, de dentro de mim uma luz vermelha me queimava uma febre se irradiando pela câmara ardente todos os pesadelos de Eva. Mil anjos me circundavam, batendo suas asas rubras nos pêlos do meu nariz. Já não havia caranguejeira, não havia fome, não havia cansaço. Não teria conseguido passar todos esses anos preso se não fosse a lembrança daqueles meses oculto no templo perfumado de Eva. São outras coisas para as quais, assim como a primeira vez com a moça, lá na Paulista, tenho uma certa vergonha de contar. Onde é que termina o oásis e começa a prisão? Mas agora não adianta chorar o sangue derramado. O meu vacilo foi ter atrasado o pagamento do aluguel.

18: expulso do paraíso

Me diga o que você acha de verdade: eu merecia ser preso? Fiz algo de mal a alguém? Uma tarde, eu estava imerso numa meditação profunda, quando ouço, lá de bem longe, de algum lugar de meu cérebro, dona Veva bater na porta, um tempão. O aluguel, o aluguel, o aluguel. Até que resolveu chamar um guardinha para arrombar meu quarto. Então, sem essa nem aquela, fui expulso do paraíso.

– Meu Deus do céu! Mas o que é isso? Que fedor!

– Arrhgh! Que nojo! Mas então… é você o Louco dos Absorventes! Mãos ao alto!

Mãos ao alto. Eu estava tão espiritual aqueles dias que meu desespero foi completo ao ver duas pessoas horríveis incomodando a paz de meu templo. Eles iriam expulsar os anjos! A senhora pense, o que é que eu poderia fazer? Tudo ao meu alcance para salvar as minhas mulheres, as mil flores de minha estufa sagrada. Lembrei-me, fraco embora, do revólver que tinha roubado. O guardinha não o tinha visto. Trêmulo como estava, consegui agarrar a arma e – essa foi a desgraça – atirei. E assim, pela primeira vez, sangue foi vertido naquele quarto.

Bem. O resto talvez a senhora já saiba. Deve estar no meu prontuário, acrescido de duas ou três mentiras. Veva fugindo do quarto, chamando a polícia. O guarda indo para o hospital, a polícia chegando, trazendo a imprensa na cola, os fotógrafos, Veva dando a letra de tudo. No meu julgamento, até a mulher do celular apareceu com a filha. Condenado por estupro, tentativa de homicídio e atentado violento ao pudor. Execrado publicamente. Internado em sanatório junto com comedor de criancinha, parricida e sonegador. Transferido de detenção pra presídio pra casa de custódia pra solitárias eternas porque tinha neguinho achando que eu era louco e que podiam me matar. O que mais me doeu foi saber que jogaram os absorventes no lixo. Planejava fazer uma grande fogueira, no dia de ano novo, e aplacar os sofrimentos de todos os mil anjos a quem referi minha obtusa fé.

Bom, pelo menos não dei azar que nem o Luz Vermelha e não acabei virando filme. Caí pra dentro do xis num anonimato absoluto. Quer dizer. Isso até surgir na minha cela um tal de Pereba.

19: eu podia ser esse outro sangue

A gente já vai sair daqui, senhora. Prometo mesmo. Sou homem de palavra, como você percebeu. Mas é que não vai fazer sentido sairmos daqui sem antes responder sua pergunta. Eu lhe asseguro de que aqui nesse pavilhão a revolta não chega. O combinado com o Comando foi o 4, o 5, o 8 e o 9. Ninguém vai chegar aqui à enfermaria. Vou até dar uma acelerada na história, vai vendo.

Isso que determinou a minha sorte – e a sua – foi há um ano. Fazia muito tempo, então, que eu estava largado pelas cadeias e hospícios – largado de mim. Não vou cansar a senhora com a triste história desses anos passados ao sul de mim mesmo. É uma outra odisséia que, numa outra ocasião, quem sabe lhe conte. Só o que posso dizer é que, para continuar vivo, tive de continuar no corpo de outros homens – no sonho de outros homens. Eu devia ser uma alucinação deles, ou uma alucinação de todos os sangues dos quais meu sangue era formado. Era como se eu vagasse o meu corpo e vagasse de corpo em corpo. Era uma ciência que eu havia aprendido com o sangue das mulheres – uma transfusão de mim para outros. Invariavelmente, este corpo que você está vendo ficava perdido num canto de alguma cela, babando, inacessível, enquanto meu pensamento perambulava de sangue em sangue.

Nessa época, eu ainda não havia percebido que isso era um conhecimento – era mais um jeito de passar o tempo. Não se esqueça de que eu era – acho que sempre serei – um lixeiro. Encarregado de recolher os detritos. Processá-los. Chame de alquimista, se preferir. Assim, eu vagava de corpo em corpo de homem que morava naquele grande depósito de lixo que era a cadeia.

Despertei com um murro na cara. Traíra! Outra porrada. Cadê meu pó, filho da puta? Sim, era ele. Depois de tantos anos, como não poderia reconhecê-lo? Pereba. Feio como o inferno ao meio-dia. De pé, no meio da cela escura, careca, pálido, baixo, atarracado, a cabeça pensa de lado, sorriso na boca torta, e aquele cheiro dele. Uma coisa você nunca podia perguntar para o Pereba era o motivo de seu apelido. Ele tinha, entre o pescoço e o ombro esquerdo, uma ferida que nunca secava, escorrendo eternamente um pus amarelo, que ele limpava de tempos em tempos com um lenço negro. Dessa ferida saía um fedor horroroso, como de carne morta, algo de que ele devia ter orgulho – afinal, para que conservaria aquela podre alcunha?

Mas não era nisso que eu pensava, enquanto tomava um cacete em cima de outro. Era como o cara podia ter me reconhecido, e se lembrado de mim, tanto tempo passado desde que eu tinha deixado a pacoteira de pó em cima daquela mesa de bar na beira da avenida Paulista. O coisa-ruim vinha cobrar sua dívida, desgraçado. Naquela cela, só tinha mais três caras – dois dormiam, e um, o Zuza, assistia a tudo sem dar um pio. Como tinham colocado aquele demônio ali dentro sem eu saber? Bom, eu já não sabia mais de nada. Traíra, filho da puta, pensa que eu esqueço? O Pereba nunca se esquece de uma sacanagem. Olhei fundo no olho daquele cara que observava tudo. Onde estaria sua mente? Farejei seu sangue nos seus olhos. Sangue de covarde, de mentiroso, de homem sem nome. Zuza percebeu que eu olhava para ele, e não tirou o olho de mim, porrada em cima de porrada que eu tomava de Pereba. No fundo de sua pupila, havia um sangue que eu conhecia. Um sangue de chama falsa, sangue de boneco.

Eu podia manipular esse sangue como quem ordena o movimento de um quadrado voando no céu. Até mesmo eu podia ser esse outro sangue – era o que eu pensava enquanto comunicava, com o sangue dos olhos, o que Zuza deveria fazer.

Zuza veio por trás de Pereba e lhe deu uma chave de braço, segurando-o pela nuca. Então lembrei que, por trás de meu corpo ensangüentado, havia um estilete oculto debaixo do estrado em que Zuza dormia – ao alcance da mão. É difícil acreditar, mas foi como foi –, enquanto Zuza segurava Pereba, enlouquecido de raiva, detrás de todo o sangue que me iluminava os olhos agarrei o estilete. E cravei fundo na chaga dele. O grito que se ouviu acordou todo o pavilhão. Foi uma força tão grande que eu fiz, acabei entrando em coma e só voltei a esse corpo que você está vendo um mês depois. Quando acordei, cinco pacotes de cigarro e um telefone celular estavam ao meu lado na cama. O enfermeiro me olhava com uma espécie de admiração.

– O PCC mandou isso pra você. Eles mandaram os parabéns por ter mandado o Pereba pro inferno. Eles também mandaram esse número de telefone. Querem falar com você.

20: o crime está ganhando

Foi desse jeito que eu entrei para o Primeiro Comando da Capital. Matando Pereba, sem querer eu dispersava com a liderança da facção rival, a Seita Satânica. Eu nem sabia que o Pereba tinha organizado um grupo na cadeia. Na verdade, não sabia de nada do que acontecia por dentro do crime, tão alheio de mim eu estava. Com a morte de Pereba, o Nuido acabou renascendo das cinzas. Virei lenda. Com o assassinato, minha pena aumentou em dez anos, mas, da noite pro dia, era um líder. O celular seria a arma que me tiraria dali. Por coincidência, o meu aparelho tinha sido introduzido na cadeia – quem diria? – pela cooperação da mulher de um companheiro de cela.

Uns dois anos depois disso, participei da montagem dessa rebelião. Planejamos durante um ano a revolta, que aconteceria num dia de visitas. Foi nesse meio tempo que conheci a senhora. Você veio chegando, se instalando perto do meu silêncio, querendo cutucar o meu passado, curiosa com o jeito como vim parar aqui. Nunca me abri muito com a senhora pra não dar na vista da malandragem, que não confia em você. Por outro lado, desviei a atenção da diretoria, que via em mim só um tarado doido coitado. Mas eu já sabia quem você era. E já sabia quem eu era também. As sessões com você viraram um jeito de eu chegar numa possível refém importante, no dia D.

Bem, aí o dia das visitas chegou. E pelo que esse aparelhinho aqui me diz, o crime está ganhando. Fizemos todas as visitas de refém, em todas as cadeias. Demorou pra organizar todo mundo, mas deu certo. Estamos ganhando todas as cadeias do estado. Tá tudo dominado. Esses tiros aí fora deve ser o batalhão de choque. Não se incomode. Logo eles vão ter que parar pra negociar, não vão querer outro massacre. Estamos com a faca e o queijo na mão. Daqui a vinte minutos, a gente sai da enfermaria para ir negociar com o diretor. Você vai ser meu escudo – mas fique tranqüila, nada vai te acontecer. Não pode acontecer nada com o cara que matou o Pereba.

É estranho como tudo isso acabou nos unindo, sem querer. E pensar que, há uns vinte anos, eu era um lixeiro viciado em absorventes. Me lembro como se fosse hoje, a primeira vez que levei para o quartinho na dona Veva aquele saco cheio de absorventes que catei no Lixão.

21: uma fome desde o fim

Ele estava ali, e eu ali olhando. Sentindo. Até ouvindo. Um rumor sem rumo ou princípio, quente como um coração que ressona. Ali dentro do quarto, sentia meus olhos vermelhos na carne viva da madrugada em que meu nariz se contorceria sob mil guizos. Rastejei até o invólucro pelo carvo frio do cômodo, feito outra coisa que em mim ainda não se sabia – só pressentia. Rumor sem vento, parado antes. Túrgido bezerro imerso numa cascavel, os nervos dolorosos, ossos em agulhas – sangue parado se revolvia, vomitava a si. Ah que bom se eu pudesse fugir de mim mesmo. Ah que maravilha se eu pudesse escapar daquele apelo, e nada aconteceria. Porém: oração não afogaria o monstro, que me roubava a saliva, que saía daquela lagoa escura pra me pegar de debaixo da cama. E me derreti, solicitante, em carícias sem volta. Era todo véus. Cerimoniosa minha língua, aos quatro cantos do desejo. Me refazia. Me perfazia em dezenas: era todos os amores interrompidos, rompendo para o outro lado das narinas, pelos pêlos das narinas até os pêlos que adornavam todas as cavernas por onde vagava a caranguejeira, lenta, larga, sinuosa, faminta. Eu chorei.

Seco ovo choco sob a luz da lua que, garantia, ocupava todo o espaço dos foras. Não haveria mais mentiras para mim: era aquilo tudo. Rubro fogo morto que me aquecia, fogo morto de muitos dias, muitas noites, muitas esperas. Uma dor que não conhecia cúmplice. Uma dor que não poderia ficar com a porta aberta. Eu era um porco com muitas asas, focinhando a lavagem de mil anos de angústia. E sentia fome. Uma fome desde o fim. Todas as cores de um arcoíris negro abraçavam-me. Pântanos de lodo e ferrugem e mirações. Queria cruzar todas as barreiras que só os insetos roedores de cadáveres conhecem – eu, infecto, torrente, fluxo desregrado. Ainda não gozava de toda a ciência, entanto já se anunciasse meu total exílio. Havia de ter aberto o próprio cadafalso. Penetrava-me, prenho de ocos. Vozes carmins se alteavam ao redor, em sílabas longas feito dedos a percorrerem cada milímetro da minha pele. Senti todas as vicissitudes do mundo. Como um qualquer mendigo que lambia chão buscando céu. Cão danado grunhindo sarnas e sanhas, cheirando os cus interiores de várias doces cadelas até achar o mesmo sangue. E era bom. E era meu. E era eu.

Mas agora tudo isso é passado. Três anos aqui dentro me deram uma lucidez que não tinha antes. Vinte anos caraminholando criaram um couro em volta de mim que dificilmente pode ser rompido. Agora não temo aranhas, Perebas, guardas, eletrochoques. Agora agirei no contrafluxo das marés – absorventes não vão mais me absorver. Talvez eu vá direto às fontes. Quanto ao lixo, lixo-me. Breve saio daqui em vermelho triunfal – a morte veste máscara rubra. Afinal, encontrei o que há tanto tempo procurava… o Cheiro Primeiro. Sou, então, o lixeiro que o Outro Mundo pariu para um universo paralelo.

Respondendo à primeira pergunta da senhora – por que fiz você de refém? Muito bem, moça. Será que é possível ter se esquecido de certa noite fria, na avenida Paulista? Até me lembro de certa conversa nossa, na noite aquela – você falando em ser psicóloga, para trabalhar só com quem fosse irrecuperável. Lembra? Pois. Daqui pra frente, tem toda a chance de recriar do lixo um homem. Não? Tudo bem, tudo bem, ei, se acalme, menina, não se espante. A verdade nunca é coisa familiar, por mais perto. Mas acho que agora não temos mais tempo para nos dispersar em meio a fiapos de conversa. Vamos sair daqui antes que os helicópteros cheguem. Logo a rebelião, os tiros lá fora, toda essa agitação inútil, vai terminar. E aí, depois de atravessarmos para o outro lado, passamos a limpo nossa história particular, nesse tal universo paralelo.

Antes que me esqueça, porém, e para deixar as coisas bem claras: é impressão minha – ou você está naqueles dias?

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Outono, 1995 – outono, 2001.

Y

} [janelas: um bebê num bercinho dormindo, um velho e uma bengala, uma mulher que chora, um homem vendo TV, um moleque fumando, uma mulher estranha numa cadeira de rodas; cartões postais: um barco singrando a neblina de um mar escuro; um minotauro preso num labirinto, saudoso de sua realidade de animal ou de homem, ele não sabe bem; uma mulher que tenta adormecer contando anjos que a levarão para o outro mundo; duas mulheres fazendo amor; uma mulher nua contemplando um esqueleto com um olhar misto de curiosidade e ternura; três prostitutas aguardando a chegada de um cliente nas ruas vermelhas de amsterdam (e eu não consigo desviar o olhar do bebê dormindo, que deve morrer antes de ver tudo isso se articular num pesadelo – morra, bebê, antes de descobrir que inocência é somente uma idéia inocente: por favor, por mim, afunde-se no travesseiro e colha desse tecido o fruto doce da morte pura)] X {é preciso uma história que se articule a partir desses díspares elementos, e ainda dizer alguma coisa e causar forte impressão no leitor, tudo isso partindo da idéia de alguém que observa alguém de alguma janela de algum prédio perdido na noite dessa cidade solitária [o belo, já dizia baudelaire, é sempre bizarro; mas para que essas epígrafes sem silhuetas?] que contém naquela casa, adiante, na sala de estar daquela mulher que infelizmente nunca aparece, aqueles três manequins a me observarem sem cabeça: uma de tailleur cinza, outra de vestido de crepe roxo, a terceira de vermelho babydoll; e eu sigo tentando amarrar disparidades numa narrativa quando uma motocicleta no meio da noite joga os jornais com as notícias de ontem à frente da guarita do sonolento vigia, que mal sabe ler, que mal distingue FHC de THC, ACM de IBM, MST de LSD [o mundo são siglas reclusas, exiladas, e minhas mãos são exíguas para o sofrimento daquele outro mundo que corre pelos bares atrás de bebidas e paixões desaguando no torvelinho dos lavabos sujos em boates sem classe e sem saxofone], e enquanto os carros passam na rua em ondas meus olhos piscam e minha cabeça dói – é impossível condensar as emoções e as imagens numa borboleta pregada entre as quatro paredes de uma página: no final, talvez só permaneçam mesmo os bocejos, os soluços e um que outro tropeço engraçado, nada faz muito sentido enfim, o jeito é ordenar todos os elementos em alguma lógica peculiar sob um título fugazmente indócil (afinal, os anjos já não choram mais por nós): mas não é isso que o leitor quer, não?; ele deseja uma história em que se reconheça ou em que ao menos pressinta a sombra de um conforto, e embora todos os cigarros acabem, da minha janela tudo vejo [como é triste ter acesso a todos os livros do mundo e ser incapaz de imprimir uma só vírgula com estilo], quem sabe essa seja apenas uma noite ruim no meio de tantas, mais uma noite sem régua e compasso a escrever como se fosse o lápis a baqueta de um jazz desenfreado, o que é muito pouco, eu sei, para oferecer a qualquer leitor [desculpe-me], não passando de uma tentativa adolescente de se comunicar, balbuciando feito um débil mental ou um tímido tentando conquistar a garota de sua vida, melhor deixar tudo para lá e ir dormir (mas antes, uma última dúvida: será mera impressão minha ou aquele bebê está ficando mesmo roxo?)

; ou quem sabe, quisesse apenas aproveitar a ausência dos pais para um prazer proibido, que somente o pensar fazer isso já lhe solicitasse um gozo por antecipação, a palavra, em si, do proibido lhe fazendo cócegas no céu da boca – por onde, como se sabe, passa todo o mal conhecido e também o imprevisto, quer a palavra estivesse por dentro ou por fora do corpo o mal estaria sim contido na iminência da própria ponte, como se da simples possibilidade se impusesse a presença do obscuro, do oculto, do falso: todo mal deve ser relativizado, porém, pois o que é ruim para outra pessoa pode ser a estrada principal para uma, deve-se então tomar muito cuidado ao se saber que para aquele menino o mal se instilaria na fina verdade de um mero cigarro fumado às escondidas, depois de um jogo de futebol no qual seu time perdera; e que ele, como desculpa para fugir a essa derrota tão infame, a infante ele preferisse o jogo dos adultos e suas mentiras e artifícios, como o gesto de acender um cigarro e fumá-lo, não com seus amigos em uma brincadeira de meninos, mas sozinho à noite, em seu apartamento deserto, jogando à janela um olhar sobre as outras vidas – talvez vindo da vizinha, que talvez seja sua filha, uma mulher que chega carregando livros; talvez do laboratório, um velho que chega cambaleando; talvez do trabalho, um homem que chega carregando uma maleta; talvez do bar, uma velha que chega enxugando as lágrimas do rosto; talvez da faculdade, um menino que chega suado; talvez do namorado, uma menina que chega com os seios duros explodindo sob o vestido, ofegante, as maçãs do rosto muito vermelhas, os cabelos esparsamente caindo até a bunda, e que fecha a porta batendo-a com força, dando duas voltas na chave, encostando-se teatralmente à porta, como que aliviando-se de algum perseguidor, embora ela saiba, no íntimo, que o perseguidor – como aliás ocorre a todos nós – reside dentro dela mesma; entretanto, ela ainda não conhece em todo esplendor a força dessa realidade, e tenta ocultá-la sob a máscara de medos mais plausíveis e talvez não menos intrigantes, quais sejam o temor de ter sido vista fazendo aquilo, ou o temor de ter feito algo errado, ou o temor de ter feito o certo do modo errado, ou o temor de que aquilo a pudesse ter violentado de alguma forma que ela mesma ainda não inferisse, ou o temor bastante débil e dúbio de que algum dia se arrependa de ter feito aquilo que fez – apesar de, como já descobrimos, todos esse temores serem fichinha perto do problema real, que é como um poço tão escuro que não sabemos ser ele um poço de ancestrais águas ou apenas um poço oco –; assim, ela precisa se acalmar, e pensa que um chá talvez resolvesse esse coração que palpita tão rápido, de uma hora para outra seu coração está sempre palpitando tão rápido que ela mesma não sabe o que fazer com ele para que se aquiete, e a deixe pensar em coisas mais amenas, como quando era criança e só se preocupava com o que iria ganhar no natal ou com o enigma dos discos voadores, entanto agora ela cresceu e seu universo perdeu as bordas, e ela quer ainda mais rasgá-las e devorá-las até o limite entre ela e tudo que há em volta, essencialmente, tão violentamente amoroso é esse coração, que no máximo de sua ternura possa ser talvez um leão adormecido, um leão que dorme em um desenho de rembrandt adornando seu criado-mudo, presente que ela ganhou do pai, astrólogo, como um desenvolvimento figurado da metáfora que era ele ter trazido à luz uma filha nascida sob o signo solar de leão com a lua em câncer; assim, é como um leão lunar que seu rosto resplandece quando ela ergue suavemente a xícara de chá de camomila, com as duas mãos, e seus olhos se fecham levando dentro de si aquele sabor que é como um outro lar, uma rede balançando recordações macias e serenas – aquilo que nós chamamos saudade; uma saudade anterior mesmo à própria camomila e ao ato de tomar chá: uma saudade animal de saciar de doce uma sede doce; e ela, suave cristal de pés nus, pela sala passeia segurando a xícara na altura do coração, sentando-se em frente à janela, por onde vê, através da fumaça que redondilha seu rosto desamparado, um velho com uma bengala, uma mulher que chora, um homem vendo TV, uma mulher estranha, um bebê num carrinho, um moleque fumando, pessoas que, na impessoalidade do domingo de últimos ruídos nessa cidade que trouxe as estrelas do céu para o chão e enviou ao céu toda sujeira de seus desejos e suas dúvidas, poderiam ser para ela de um lado a profunda ferida da efemeridade dos tempos, da angústia essencial que contorna a banalidade da vida de todo dia, absurda por igual, e seus seres que se acendem ou apagam conforme a luz de outros seres, mas que, fundamentalmente, sabem na carne que seu fim está próximo, não importe quão largo e sem freios seja seu coração; e, por outra via, sua mera existência seja uma garantia tênue de continuidade, esperança e apoio – talvez até por conformismo, em sua beleza simples de seres que funcionam como brinquedos de algum deus distraído, funcionando tão perfeitos, cada um em seu papel, que só essa mera existência já seja um bom augúrio; ou, ainda, e quem sabe mais próximo da delicada realidade, fossem essas pessoas uma forma de dissipar outras imagens, de outras eras, desiguais, que vão se aquietando mansamente, feito um pecado que de proibido passasse a comum e aceito, de uma chuva que se tornasse cheiro de terra molhada, de um jogo perdido que esquecida a tragédia se convertesse em anedota – algo de que se precise fugir para reencontrar, do outro lado, refeito em outra linguagem, essa sim mais preciosa porque útil para refazer um mundo: entretanto, antes disso, para formular esse pedido, talvez fosse necessário descer entre uma realidade e outra o véu de uma fumaça

ou ainda porque quisesse pensar em outra coisa que fosse exatamente isso), pega o baseado aceso, leva-o à boca, puxa a fumaça que a completa – mas então é só um instante dentro – para daí jogá-la, verde fumaça densa, à sua frente; desfeita, dela faz-se ao seu redor a cidade de neblina, em prédios noturnos que acendem por trás de enevoadas luzes o infinito de enormes vidas: dissecá-las: rasgar o mistério que rege as luzes que se explodem tragando os mínimos gestos dessa noite – um velho que chega cambaleando, talvez da faculdade; uma velha que chega enxugando as lágrimas do rosto, talvez enraivecida; uma mulher que chega carregando livros, talvez da vizinha, que talvez seja sua filha; um menino que chega suado, talvez do trabalho; uma criança que chega enrolada numa toalha, talvez do futebol; uma mulher que chega já abrindo sua bolsa, talvez do laboratório; um homem que chega carregando uma maleta, talvez vindo do bar: ele tropeça no tapete e cai, deixando cair a maleta, que se abre, mas então ele a fecha rapidamente, com estrépito passando-lhe trincos e cadeados com segredos, como se não quisesse que se abrisse jamais, e a empurra para longe de si, perto da parede, ainda no chão, contemplando-a como se fosse uma jaula que contivesse uma serpente venenosa de obscuro país interior; na parede há um pôster gigante em que se vêem, em p&b, os rostos de john lennon, de perfil, e de david bowie, de chapéu, o que o faz sentir uma gigante necessidade de ouvir música, pois se sente sozinho após a noitada que teve, e agora, bêbado, a solidão lhe pese mais nos ombros, como uma canga ou uma mochila de exército quando em guerra vadeando por algum charco vietnamita, e assim ele quer ouvir tomorrow never knows ou warszawa (músicas que parecem não ter fim, depois dessa noitada tudo o que ele quer é escutar algo que não tenha juízo final); procura os cds pela bagunça da vasta sala em que móveis se espalham como bois no pasto mas não consegue encontrar, preso que ficou por um quadro impresso na página de um livro sobre veneza, mostrando, em tons esmaecidos – luz matinal encobrindo a ilha povoada de alvos edifícios mouriscos –, a triangular e perfeita ponte de rialto, por baixo de onde ondulam gôndolas e barcos mercantes, e por cima de que uma sombra viceja em plena luz do dia de veneza, uma sombra que está ali talvez como uma marca da noite que se foi há tão pouco tempo, uma sombra que chega tremulando como uma bandeira de luto talvez vinda da terra das sombras, pois que seja um homem de chapéu preto e vestes também negras que está ali debruçado no parapeito desde a noite anterior, quem sabe desde que o mundo é mundo, olhando para as águas de rialto e segurando uma foto na mão, com fome, frio, sede e uma foto na mão a levá-lo para um lugar muito distante, aliás a dois, essa foto é uma ponte que o leva da noite anterior a esse lugar colorido e cinzento ao mesmo tempo, pois respira uma atmosfera verde e suja, a paisagem de um grande parque em uma cidade grande, gigantesca e gris urbe fazendo skyline a um parque cortado por imensas avenidas em que desliza uma quantidade absurda de pessoas, um parque cheio de árvores, ele que as vê tão pouco, já que em veneza quase não se vê vegetação a não ser em alguns jardins interiores ou no parque próximo à piazza san marco, mas não é exatamente isso que lhe chama a atenção e sim um detalhe: um homem solitário sobre o viaduto que adorna as avenidas feito formasse um túnel, olhando para os automóveis que passeiam como se fossem barcos, pessoas indo e vindo para seus destinos concretos do dia-a-dia ou não, pessoas que vagueiam sem direção, ou na direção de alguém que as comanda, de um lado para o outro, como fantoches – e ele, o homem solitário do viaduto, sente-se ao mesmo tempo assim, manipulador de bonecos, e muito cansado, tão cansado que muito provavelmente sem a menor complacência se jogaria em meio a seus carros-barcos-bonecos e misturaria sua matéria a eles, sangue e ferros retorcidos, músculos e óleos ferventes, miolos e fluidos de freio, linfas e vidros, e mesmo seu corpo destroçado em meio a outros corpos destroçados, conjugando-se novamente ao sabor primordial da unidade do ser, num híbrido homem-máquina, minotauro cujo corpo fosse um trem e a locomotiva uma cabeça, vagando por um labirinto infindável até que alguém de fora pusesse ver e, em uma mão um frio fio de ariadne, em outro uma espada de exata lâmina, penetrasse no mistério da noite labiríntica e o pudesse tocar, libertando-o de sua aparência monstruosa, e o fizesse finalmente uma unidade divina, canonizado, crucificado por perseu em um altar pervertido – mas ninguém chegaria, jamais, e o homem, depois de horas no viaduto que leva ao parque do ibirapuera, na cidade de são paulo, caminharia horas noite adentro parando de bar em bar, levando sempre sua maleta ensebada e pesada contendo um segredo inviolável e venenoso, até chegar em sua casa e jogar-se no chão atrás da música que o completasse como uma mulher fiel, como uma gentil e amorosa namorada: sem encontrar o som, porém, ele decide com todas as forças que ainda lhe restam abrir a maleta; puxa-a, rastejando, até a mesa próxima à janela, onde irá parar, fascinado com as luzes da cidade – talvez vindo da vizinha, que talvez seja sua filha, um velho que chega cambaleando; talvez do laboratório, uma mulher que chega carregando livros; talvez do namorado, um homem que chega carregando uma maleta; talvez do trabalho, uma velha que chega enxugando as lágrimas do rosto; talvez do futebol, uma criança que chega enrolada numa toalha; talvez do bar, um menino que chega suado; talvez da faculdade, uma menina que chega com os seios duros explodindo sob o vestido – talvez ele se mate, talvez não – pois talvez o homem sobre a ponte não creia em pontes para sonhos, talvez sim; ele abre a maleta, contempla-a eufórico, e dela aos poucos se evanesce um estranho vapor iluminado – seu rosto resplandece – e então é só um momento dentro – que ele lança, cinzenta fumaça maravilhosa, à frente da menina: desfeita, dela faz-se ao redor a cidade, em prédios noturnos que acendem por trás de pequenas luzes a imensidão de muitas vidas, que se acendem ocultando os mínimos movimentos dessa noite, dessa noite de neblina em que, pensa ela, poderiam haver pontes que a levassem para longe dali, que fosse ao lado de quem queria, e, porque ela precisa no mínimo inventar, e também porque estivesse sozinha em casa, e de vestido, e com os seios duros, ela enrola um baseado (no entanto, talvez não quisesse pensar nisso, nessa noite de vestes claras, ou quisesse fazer outra coisa

ou talvez não, por isso pego o cigarro aceso, levo-o à boca, puxo a fumaça que me enche – e então é só um momento dentro – para daí devolvê-la, azul fumaça corpórea, à minha frente; desfeita, dela faz-se ao meu redor a cidade, em prédios noturnos que acendem por trás de pequenas luzes a imensidão de muitas vidas: devassá-las: penetrar no segredo regendo as luzes que se acendem ocultando os mínimos movimentos dessa noite – um velho que chega cambaleando, talvez vindo do bar; uma velha que chega enxugando as lágrimas do rosto, talvez da vizinha, que talvez seja sua filha; um homem que chega carregando uma maleta, talvez do trabalho; uma mulher que chega carregando livros, talvez da faculdade; uma menina que chega com os seios duros por trás do vestido, talvez do namorado; um menino que chega suado, talvez do futebol; uma criança que chega enrolada numa toalha, talvez do laboratório; uma mulher que chega já abrindo sua bolsa, que talvez contenha um envelope palpitando dentro: abre-a, vê surgirem um espelho, um batom, uma caneta, uma câmera fotográfica, uma agenda, um perfume, (eu sempre gostei de vasculhar o conteúdo das bolsas femininas) um walkman – dentro dele uma fita de john coltrane, dentro dela uma música que tenta apreender o universo, dentro dele alguém que escreve tentando apreender um instante –, um pente (ela tem cabelos loiros, longos, largados), uma calcinha preta, um livro de cortázar chamado manual de cronopios, em espanhol (ciosa desse silêncio, ela lê com os lábios o nome de julio na lombada, várias vezes, como num mantra supersticioso), um tíquete-refeição, um tíquete para um show a que ela não foi ainda ou nunca, uma embalagem de batatas fritas pela metade, uma carteira em que há uma nota de um dólar para dar sorte, e dois micropontos de lsd e uma foto de seu pai e um cheque sem fundos que regressou ao lar, um desodorante sem perfume, uma escova e uma pasta de dentes num kit de avião (cortesia jal), um cartão-postal em que se vê, em p&b, um portal coberto de hera, e por trás dele um miúdo barco singrando um oceano cinzento e revolto, e por trás da figura escrito em letras velozes e azuis *o tempo é um automóvel contra o muro // olha, júlia, não sei se poderei continuar por muito tempo aqui // talvez volte para são paulo para continuar a dar aulas de violão // talvez volte para o sertão // talvez vá para paris // talvez é uma palavra deliciosa // não acha? // beijos, júlio // saudade mata a gente @morro de são paulo, março de 1998*, e após contemplar essas letras furiosas, júlio olha para um envelope azul à sua frente, coloca o postal dentro dele mas logo o retira, guardando na gaveta do criado-mudo o envelope, e em seguida olhando para a cama suas roupas amassadas que logo se enfiarão dentro de uma mochila velha verde do exército ele coloca o postal no bolso da camisa branca e os óculos escuros na cara bronzeada e a mochila sobre os ombros e sai do quarto, sem dirigir nenhum olhar para trás (superstição sua, de muitos anos, centenas de viagens), mas, contrariando sua mania, retorna para pegar de dentro da gaveta o envelope fechado, e só então caminha lentamente até a recepção da pousada com a chave do quarto 107 na mão, para daí depositar uma rota nota de cinqüenta nas mãos da recepcionista que lhe devota um olhar úmido e fervoroso, como de última amante, mas ele nem liga para esse olhar e segue pelas ruas de areia e terra da ilha para chegar logo à pequena agência dos correios aos cuidados de que deixa o postal por alguns centavos, já completamente suado por causa do sol ofuscante das duas da tarde (conforme ele olha no seu relógio de bolso prateado) e por causa da mochila que, pesada, dói-lhe profundamente nas costas, mas talvez não, não seja somente essa dor que júlio sente, ainda não sabemos (talvez nunca), só pressentimos e ele também que essa dor é exageradamente funda e tão sutil que ele mesmo ainda não a percebe, como se fosse uma semente que acaba de soltar suas raízes, raízes que embora ele sempre tenha cortado, de qualquer lugar ou qualquer situação, rodeavam-lhe o corpo como misteriosas plantas carnívoras ou serpentes de obscuro país interior, e é por isso que ele caminha muito rápido até o porto que o levará de volta ao continente, não tão cedo quanto ele imaginava, pois o menino de dentes podres pelo guichê lhe anuncia solene que os barcos só partirão amanhã, às seis da manhã portanto júlio deverá retornar ao porto, por enquanto ele pensa em ir à praia, uma vez que já pagou a pousada, e deixar-se ficar na areia à sombra de um coqueiro, até dormir, sem sonhar, tonto de calor, despertando com o som grosso das marés que sobem lambendo seus tênis rasgados e fazendo com que ele olhe espantado para o céu constelado e veja uma estrela cadente, e tão espantado, até assustado e com um pouco de terror ele fique, que tenha uma vontade louca de fumar um cigarro, desafiando ao atlântico bravio e à via láctea com a fumaça que sai dentro dele formando estranha ou quem sabe conscientemente a letra j, fazendo com que ele, a despeito do vento quente e da maré cheia e das estrelas cadentes para as quais não formulou nenhum pedido, pense em júlia, que encontra finalmente o envelope azul: antes de abri-lo, porém, ela envolve os ouvidos com um saxofone e fecha os olhos, dançando sozinha pela sala branca, rodopiando uma valsa torta (não podemos ver se sorri ou se tem a garganta presa), parando de repente em frente à janela, escancarando o olhar para as luzes da cidade – talvez vinda do bar, uma mulher que chega carregando livros; talvez do namorado, uma velha que chega enxugando as lágrimas do rosto; talvez do laboratório, um menino que chega suado; talvez da vizinha, que talvez seja sua filha, um velho que chega cambaleando; talvez do futebol, um homem que chega carregando uma maleta; talvez do trabalho, uma menina que chega com os seios duros explodindo sob o vestido; talvez da faculdade, uma criança que chega enrolada num cobertor – talvez júlia pense em júlio, talvez não – júlio talvez nem esteja pensando nela, e talvez sim; sem tirar o jazz dos sentidos, júlia tira da bolsa um isqueiro e põe fogo no envelope – seu rosto ilumina-se à luz das chamas que se deliciam sobre letras azuis –, aproximando em seguida dos lábios o cigarro que retira da bolsa e do fogo o cigarro que de fumaça a preenche – e então é só um momento dentro – para daí devolvê-la, azul fumaça corpórea, à nossa frente: desfeita, dela faz-se ao redor a cidade, em prédios noturnos que acendem por trás de pequenas luzes a imensidão de muitas vidas, que se acendem ocultando os mínimos movimentos dessa noite, dessa noite nebulosa que talvez não traga estrelas cadentes, ou talvez sim

, entanto, nada é muito seguro nesse porto do mundo, menos ainda nesse atual ponto a que chegamos, e onde chegamos? a um apartamento vazio de calores, como se eu habitasse, ao invés de um edifício, uma gilete, o topo de uma lâmina a qual me agarro na esperança de dividir o mundo em dois, antes e depois de mim, e depois de mim, o que é que pode existir? garotos no posto em frente, dez andares abaixo, às três da manhã de domingo passeando por entre bombas de gasolina desequilibrados sobre seus skates, voando e se arrebentando no solo liso oleoso, para quê? eu pergunto, nervos e vozes e músculos aflorando numa agitação inútil, daqui do alto dá pra ver o que vai acontecer a eles, vão se apagar – como martela em meus olhos a insônia – naquelas estrelas que se encerram nos prédios ao redor, que entreperscruto, sentando-se em frente à janela da sala, através da fumaça tímida soprada pela vela vermelha que acendi (superstição minha de todo domingo de que já nem me lembro o sentido mas ninguém tem nada com isso) a arrodear meu rosto descarnado: uma garota fumando, um homem que chora, uma mulher numa cadeira de rodas espiando pela janela, um bebê estranho, um moleque vendo TV, uma velha tomando um chá, um velho cambaleando com uma bengala na mão, uma bengala que queria que fosse uma muleta, mas não, é um pão que ele traz debaixo do braço em formato de bengala, deve estar duro afinal ele comprou da padaria 24 horas da esquina, que só faz pães novos daqui a duas horas, não importa, esse homem irá até o final nessa empreitada bêbada de aplacar sua fome madrugada, vai até a cozinha, tira seu chapéu e seu casaco marrom e seu cachecol preto e os joga sobre o espaldar da solitária cadeira (é um homem solitário, eu já percebi de outros carnavais), dispondo à mesa o pão, o azeite, o prato, talheres, presunto, queijo e ovos, em seguida retirando do forno a frigideira a que lançará um fio de óleo, duas fatias de frios e estabanados ovos, ao mesmo tempo em que prepara um café numa dessas cafeteiras modernas (o que definitivamente não combina com esse velho boêmio), acendendo dois fogos de uma vez, inclinando-se desajeitado iluminando um cigarro que faz uma estranha ponte entre a boca do fogão e a sua boca faminta que logo estará espalhando fumaça por todo o apartamento, e o que importa, ele mora sozinho mesmo, já deve ter sido há anos abandonado pela mulher (sempre há alguma mulher nessas histórias), não é à toa que ele assobia – homens solitários sempre assobiam, vejam o exemplo dos guardas noturnos – uma bossanova, talvez mesmo eu sei que eu vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar e o mexido de ovos e frios asperge óleo fervente em sua mão, assustando-o e fazendo perder o assobio e cair o cigarro, lavando a mão machucada na pia, e a cada despedida eu vou te amar, desesperadamente eu nunca vi ninguém cantar essa música com tanta alegria, incrível mas o tipo sorri, sorri para o café que colocará uma pausa em sua canção e cada gesto meu será pra te dizer que o velho aprova a bebida que o manterá acordado talvez até bem depois da minha insônia, já quietinho no cinzeiro o cigarro deve ser a única coisa reta desse apartamento cheirando a comida noturna sobre a mesa a que o velho senta-se para degustar sua impressionante refeição, partindo o pão em vários pedaços, espalhando azeite pelo miolo em que junta ovos, presunto e queijo gordurosos sem deixar ao menos de fumar e tomar café enquanto come esfiapando a comida lambuzada pelo queixo, sem deixar mesmo de cantar e assobiar, até sentar-se para ele vira um incômodo pois logo põe-se de pé vagando pra lá com o pão e pra cá em uma mão e o café e o cigarro em outra, dirigindo um olhar pela janela à cidade negra reluzente, será pra te dizer que eu sempre vou te amar por toda a minha vida? incrível como já comeu e bebeu e fumou tudo e a música continua no meio, não adianta, ele quer fugir mas eu sei, eu sei que vai chorar, nesse verso da canção ninguém agüenta, um soluço e lá vem a choradeira, talvez seja por isso que ele tenha parado os lábios observando lá embaixo na rua algo que o leva mais para longe dentro de si mesmo, quem sabe os garotos no skate, que a mim não dizem nada, a esse velho manco impressionem :– tudo é possível –: agora ele dá as costas a mim, entra no quarto, que, ao contrário do que disse, não é o quarto de um homem só, ou de alguém que foi abandonado, ou pelo menos é o quarto de um solitário que ainda conserva a esperança de reparir sua vida com alguém, pois tudo se dispõe aos pares, cadeiras, travesseiros, copos nos criados-mudos, quadros, um deles mostrando alguma paisagem urbana de casarios coloridos, que ele observa atento como fez com os skatistas, e de debaixo da cama retira um objeto cilíndrico, talvez uma vassoura, não, é outra bengala, pequena, que leva até a sala, entretanto talvez não seja uma bengala, assim como aquela bengala era na verdade uma baguette essa bem pode ser um guardachuva, guardachuva não porque é colorido, é uma sombrinha, uma sombrinha colorida aberta no meio da sala (isso dá um azar), suspensa no ar girando e girando sobre a cabeça do velho, que a passa pelo meio das pernas quase caindo e já entoando outra canção, voltei, recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço, parece um caranguejo dançando, abrindo desbragado os braços trêmulos, quero ver novamente vassouras nas ruas abafando, eixo de si circula e rodopia e gira novamente três vezes e ensaia um pulinho ridículo, tomar umas e outras e cair no passo até cair estatelado no sofá de preto couro velho, a sombrinha meio de lado, gargalhando gargalhando gargalhando, procurando no bolso do paletó outro cigarro aceso como acesos são seus olhos, felizes estelares, negros, fundos, caminhando a largos passos para as paisagens úmidas de seu passado que lhe congela na boca o sorriso de um carnaval distante demais para que eu possa apreender da minha insônia martelando em meus olhos moleques caindo de skates, uma garota vendo TV, um homem estranho como uma criança, uma mulher tomando um chá, um bebê que chora, um moleque fumando um baseado, com um lápis na boca esta velha aqui numa cadeira de rodas espiando os outros apartamentos pela janela, uma vela vermelha já no pavio inflando meu lúcido apartamento com esse cheiro de cera queimada que me emoldura enquanto eu sigo velando o sono da cidade, como se ela fosse minha, como se pudesse dizer que possuo alguma coisa, como se pudesse saber que não são as imagens exteriores que me possuem, porque nada pode ser mais seguro nesse mundo que esse ponto de observação dez andares acima do bem e do mal – e eu pergunto: o que pode ser melhor do que estar ao abrigo da noite e das estrelas?

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Inverno, 1998.